Parte 5 " Jaqueline do 301"O livro das histórias cruéis (continuação da série do Menino do bosque)
Jaqueline do 301
capítulo 5
O livro das histórias cruéis.
Jaqueline apertava o passo tentando manter-se elegante em manobras inúteis pelos corredores do imenso Fórum João Mendes no centro da cidade de São Paulo, o imponente, suntuoso e antigo prédio de 1950 que abriga mais de 500 mil processos e é o maior fórum civil do Brasil, no passado já havia sufocado e roubado a vontade de viver de Jaqueline que agora tentava se equilibrar em passos que de apressados começavam a ensaiar uma corrida tão elegante quanto de um avestruz em pânico.
Antes que se desse conta, já corria cambaleante sobre os odiosos sapatos de salto alto que ela odiava, mas que ali no papel de advogada, usava.
Para Jaqueline seria impensável anos atrás usar algo assim tão caro e tão objetificador, criado para identificar as prostitutas nas ruas da Roma antiga e para proteger os pés dos açougueiros do sangue dos animais nos matadouros na fria Europa da Idade Média.
Jaqueline por conhecer a origem os odiava e mais ainda porque era ativista feminista e por isso usava apenas roupas confortáveis que lhe fossem úteis e garantissem seu bem estar, posicionava-se contra toda e qualquer forma de ditadura da beleza feminina, mas nestes recentes últimos anos não se reconhecia cada vez que vestia sua personagem arrogante, frívola, de classe média mas nem tanto assim, cujos sapatos delicados de salto alto com Tailleur, unhas bem feitas e cabelos sedosos e escovados em salão a transformavam numa típica mulher aprisionada pelos padrões ocidentais da beleza feminina elegante, desta forma ela era a Dra Jake, olhada e admirada, cujos pescoços masculinos faziam manobras nada discretas para devorarem a linda mulher de cabelos negros, longos e encaracolados, com maquiagem impecável, bem vestida e elegante sobre seus belíssimos saltos que modelavam as belíssimas pernas.
Jaqueline sabia que os devoradores olhares masculinos não ocorriam pelo alto valor ou elegância das peças de seu vestuário, até porque depois de lutar pela guarda da filha havia empobrecido pagando os altos valores cobrados pelos advogados de Direito de família de tal forma que suas roupas só podiam ser adquiridas em brechó ou em suaves prestações a perder de vista, mas fato era que nenhuma mulher bem arrumada de salto alto passaria desapercebida numa sociedade machista onde homens e mulheres só conseguem valorar a mulher por seus status e poder aquisitivo, isso ainda em pleno seculo XXI.
Jaqueline se sentia enojada no início, mas após perceber que este era o jogo e que para ganhá-lo precisava fazer o enfadonho teatro, acabara por tornar-se uma estrela naquilo, pena que não percebera isso a tempo, quando ela era ainda uma jovem estudante de História, lembrava com saudosismo dos tempos de faculdade, de sua mocidade, de sua alegria de viver, do quanto amava o curso e o quanto fora difícil e doloroso trancar a matrícula para ter a bebê, era impossível naquele casamento continuar estudando e criar uma criança, não sem enlouquecer e por acreditar tratar-se de uma fase ruim do marido que tornara-se violento naquela época, para evitar brigas e discussões que culminavam em agressões físicas, pareceu-lhe o melhor a fazer, obedece-lo para ter paz, mas obedecer só por um período, dizia para si mesma tentando enganar-se, só enquanto a criança fosse pequena porque ela precisava de paz para parir, para amamentar, para cuidar de sua bebê, para ser mãe e para isso, infelizmente, precisava obedecer o marido...
Lamentava-se todos os dias por ter acreditado nisso e pensava no quanto teria sido imensamente mais feliz se tivesse se separado ainda grávida, se tivesse terminado o curso que tanto amava, se tivesse fugido para outro país, mas não, não havia tempo para remoer memórias dolorosas, ali naquele momento precisava manter o foco e assim, a empoderada e dedicada advogada em especial nos emblemáticos casos onde mulheres perdiam a guarda de filhos em situações bizarras, discrepantes em favorecimento ao homem agressor, sendo eles os socorridos pela justiça e tratados como vítimas de ex mulheres alienadoras, os " papais queridos" segundo as equipes forenses que analisavam as situações de lide por guarda de menores sempre e estranhamente em favorecimento dos pais, independente se tivessem estuprado a mulher na frente dos filhos, se tivessem espancado a mulher na frente das crianças, se tivessem se embebedado e colocado a família em perigo, se tivessem porte de arma e já tivessem ameaçado os familiares da mulher, nada disso importava porque com o uso da lei de alienação parental como defesa ao genitor, não importava o que o pai tivesse feito de ruim para a mãe das crianças, o pai era sempre o pai e o pai era sempre o " papai querido" e de nada adiantava argumentar em favor às mulheres, as mães que queriam a guarda dos filhos e imploravam pela garantia de suas vidas e a segurança de seus filhos, previstas na Lei Maria da Penha a qual sempre se socorriam, mas cuja proteção lhes era negada em detrimento da lei da alienação parental que visava proteger o pai afastado das crianças, não importava o motivo, eles ganhavam, sempre, ainda que fossem os piores dos agressores, os abusadores sexuais do próprios filhos.
Jaqueline odiava estas equipes das varas de família dos fóruns com toda a força de sua alma e não tratava-se de ódio ou vingança pessoal por este ou aquele fórum, esta ou aquela determinada equipe, não, Jaqueline repudiava imensamente a todos porque não eram apenas casos isolados neste ou naquele fórum em específico, era uma epidemia por todo o Brasil, acentuada na região do Rio Grande do Sul e Santa Catarina com situações de desmandos e ações truculentas contra as mulheres agredidas por juízes em meio às audiências, com preocupante aumento de números de descaso das autoridades e inversões de guarda de menores em favor dos genitores abusadores e agressores na região Sudeste e disseminadas decisões de guarda compartilhada mesmo nos casos com denúncia de estupro do genitor contra as crianças por toda a região Centro -Oeste, Norte e Nordeste, tratava-se de uma cruel e avassaladora epidemia que ocorria desde 2009, primeiro lentamente mas já com casos devastadores e divulgados na grande mídia como o caso da menina Joana, morta pelo pai com requintes de crueldade e tortura após ele ter acusado a mãe da criança de alienação parental e ganhar a guarda unilateral da filha, tirando-a de um lar amoroso para ser morta nas mãos do " papai querido" de forma cruel, admitida por uma lei cruel, de uma (in)justiça cruel.
Jaqueline sentia-se exausta, principalmente quando acompanhava as vítimas e presenciava as psicólogas dos fóruns recebendo os pais, os homens, com largos sorrisos, tapinhas afetuosos no ombro e doces e perturbadoras frases de " boa tarde papaizinho, está com saudade do seu filho não é mesmo?" ou " Ah olá papai querido, sente-se por favor, nós estávamos aqui aguardando pelo senhor com muita felicidade, logo tudo será solucionado" e ainda " Papai querido como está você hoje? Está muito triste, com saudade?" mas ao referirem-se às mães no entanto, os olhares eram sempre frios, acusatórios, distantes ou muitas vezes inquisitórios, já havia presenciado psicólogos forenses ofendendo as mães, tratando-as com deboche e muito preconceito.
Certa vez, incrédula, presenciara numa audiência um juiz que ria debochadamente, olhando com descaso para a mulher que se socorria da defesa de Jaqueline, não bastassem as risadas debochadas e infames o erudito ainda assustara as duas mulheres intimidando-as ao desferir um soco bruto e inesperado na mesa:
- Vocês mulheres são todas iguais, pensam que eu não sei do que se trata isso, esse circo, eu tenho mulher em casa e sei bem que vocês são atrizes, falam que o pai bate e isso e aquilo pra se vingar deles! São falsas e mentirosas!
Jaqueline lembrava com dor das lágrimas que caíram de forma dolorosa e pesada dos humilhados e sofridos olhos da mulher a quem defendia, era uma vítima de estupro, de cárcere privado e pedia a guarda dos filhos, havia fugido com suas crianças numa madrugada em que o marido que a agredia e a estuprava na frente das crianças estava bêbado, dormindo de forma pesada e esquecera as chaves da casa em cima da mesa.
Jaqueline sabia quanta coragem aquela mulher precisou ter para fugir da violência com os filhos pequenos, para depois tentar um emprego longe dele, pedir o divórcio e seguir com a vida, mas meses depois fora surpreendida com a polícia e o ex marido em sua porta, nas primeiras horas da manhã de um sábado, para levar seus dois filhos à força, com mandado de busca e apreensão assinado por um juiz, aquele mesmo que ali diante delas batia na mesa, espumando ódio contra as duas mulheres, a mãe estava sendo acusada de sequestro dos filhos, era bizarro.
Antes mesmo da defesa argumentar sua tese o olhar dos juízes nas audiências era sempre de ódio, nojo e descaso pelas " mães alienadoras".
- Nada importa, não importa nada! Nós já estamos perdidas nas mãos destes malditos machistas! Malditos! Malditos!-
Jaqueline gritou em voz alta enquanto corria em direção aos elevadores, trazendo para si olhares de incredulidade e desaprovação dos elegantes e educados colegas da advocacia que pavoneavam-se pelos corredores antes das audiências.
-Pro diabo seus malditos! Sai da minha frente, tô com pressa! Sai da frente! - disse ao esbarrar num grupo que andava em sua direção em ternos requintados e olhares de abutres- Seus desgraçados! Filhos dum cão, que da Puta maravilhosa esses desgraça não nasceram, esses cria de repolho azedo!
Jaqueline agora corria desesperadamente, pro inferno se estava num dos corredores que levavam às salas de audiência, pensou que sorte a parte contrária ter faltado, mas claro, por ter sido o pai quem faltou, nada aconteceu, o juiz apenas marcou nova data para audiência que fora apenas cancelada.
Se fosse a mãe quem tivesse faltado à audiência...com certeza já teria perdido a guarda dos filhos, mas já que as coisas estavam assim, Jaqueline estava já pensando em voltar para casa quando viu a mensagem no celular avisando que a concentração havia decidido se reunir e protestar em frente ao Fórum, justamente onde ela estava.
Não lembrava sequer de ter se despedido da mulher a quem defenderia se o macho alfa não tivesse faltado à audiência, quando se deu conta já corria às pressas pelos corredores.
-Malditos! Malditos juízes machistas a culpa é toda de vocês- resmungava enquanto tentava correr naqueles sapatos de salto alto.
Inicialmente os grupos estavam combinando de realizar um grande protesto na Av. Paulista, mas de repente uma das coordenadoras das ações de defesa à Mulher havia avisado a todas que deveriam se concentrar em frente ao Fórum do centro da cidade de SP e que havia um motivo, que poucas conheciam e seria revelado somente no ato, o que poderia ser o motivo daquilo no entanto, Jaqueline não imaginava, até ouvir os gritos das Mulheres do lado de fora do prédio.
Ela não estava acreditando no que ouvia, tentava dizer pra si mesma enquanto corria que estava enganada.
-Pro inferno estes juízes e estes sapatos malditos! - Jaqueline pulando tirava os sapatos, desistindo de qualquer integridade, agora corria já em direção às escadas, nem pensar esperar por aqueles elevadores confusos, demorados e sempre lotados, iria pelas escadas mesmo e assim poderia enquanto corria andares abaixo ligar para a mãe de Letícia.
- Droga! Droga! Atende! Atende! Atende inferno! Pelo amor de Deus atende! Jesus o que está acontecendo!? Maldição!
Jaqueline sentia o coração disparado quase saindo pela boca e não era pela correria apenas, parecia infartar a cada frase que ecoava do tumulto do lado de fora e invadia o fórum com a fúria de mil leoas sem suas crias:
" -Morte aos pedófilos! Liberdade para Letícia! Letícia, Letícia eu te amo!"
- Não pode ser, não pode ser! Não a Letí...
Não pôde terminar, a voz doce de uma criança mais forte que uma gigante fez Jaqueline parar de repente, derrubando bolsa, sapatos, pasta com documentos e ela própria quase fora ao chão se não tivesse se agarrado ao corrimão, abraçando-o, as lágrimas correndo pela face enquanto ouvia:
"-Meu pai me estuprou! Vocês queriam me devolver pra ele? Eu matei o desgraçado! Me prendam seus malditos!!!! Quem vai ser a próxima criança assassina? A Larissa? A Fernanda? O Murilo? O Joaquim?"
Os gritos que engrossaram a voz da criança sugeriam que tratava-se desta vez de uma multidão.
Jaqueline estranhou mas entendeu imediatamente, de que de meia duzia de gatos pingados que se uniam às manifestações desacreditadas das mães que lutavam contra a lei de alienação parental, desta vez com a terrível novidade de uma criança assassina a multidão se fazia presente.
-Malditos! Malditos! Precisou chegar a isso? Não a Letícia, não você Lê! Não a doce Letícia que eu conheço, não!
Recuperando o ar, em vão enxugou as lágrimas que descontroladamente desciam por seu rosto borrando toda a maquiagem, juntou suas coisas o mais rápido que pôde sem esquecer nenhum documento, nenhuma petição, nenhum dos muitos embargos declaratórios e agravos de instrumento, os preciosos meios jurídicos, as armas estratégicas das quais a Dra Jake se valia para a defesa de suas clientes que eram mais que clientes, eram suas amigas e assim as via mesmo quando em meio as lutas muitas delas tomadas pelo amargor da perda da guarda dos filhos e a revolta pelo descaso das autoridades se desesperavam e agrediam a Jaqueline, de forma injusta e ingrata a acusavam de perder a causa ou de demorar demais para reaver a guarda das crianças, mas Jaqueline se dedicava a cada uma delas como se fosse para si própria e ia contra as regras e todos os princípios, não cobrava pelas causas e cada vez mais se endividava e se tornava empobrecida, mas isso não importava, ganhava seu pão a trancos e barrancos com o dinheiro das quentinhas que fazia, garantidas por um avô, um empresário bem sucedido de classe média alta, muito agradecido após ter a ajuda de Jaqueline para impedir a inversão de guarda da neta ao ex marido da filha, o sentimento de gratidão do avô desesperado pela dor de filha e neta, salvas pela perspicácia e experiência de Jaqueline nas lides processuais por guarda de menor haviam lhe garantido este trabalho honesto de cozinheira de quentinhas na empresa de construções que a possibilitava viver enquanto se dedicava as causas sem depender de pagamento das mães que em sua grande maioria quando buscavam por Jaqueline, já haviam também caído nas mãos de muitos advogados que cobravam preços inatingíveis para reaver a guarda das crianças e que no entanto, nunca conseguiam.
E estas mulheres chegavam à Jaqueline já completamente destruídas, financeira, psicológica, moral e mentalmente.
Se alguém tão dedicado à causas perdidas existisse, esse alguém só poderia ser a Jaqueline que por tantas vezes recebia ameaças de morte e era vista como louca pelos colegas advogados.
Jaqueline havia perdido a conta das vezes que saíra de madrugada em socorro de vítimas, de quantas mulheres com filhos pequenos havia escondido em sua casa no momento das decisões de inversão de guarda a favor do genitor/agressor, de quantos processos lia e relia devorando-os madrugada a dentro para no dia seguinte, bem cedo, antes de ir aos Fóruns, preparar as 20 quentinhas diárias para aquela empresa de construção e Jaqueline honrava a clientela, era boa demais na cozinha, ela sabia, seu tempero era o melhor e quem provava não deixava de pedir, eram 15 operários mais o patrão e os funcionários do escritório que estavam lhe garantindo o sustento, e ela caprichava por um preço em conta, assim seguia com este ganha pão informal, mas que era um dinheiro que apesar de lhe garantir o básico era insuficiente para quitar todas as dívidas e para as melhorias do carro usado que sempre dava problema e que ela nunca conseguia trocar por um modelo mais novo.
Já as mães que buscavam socorro na Dra Jake, além de não pagarem pelo trabalho da advogada ativista, tantas vezes dependiam de sua ajuda para o dinheiro da passagem e do lanche nos dias das longas e intermináveis audiências as quais Jaqueline chamava de tortura.
Mas Jaqueline seguia obstinada, após toda sua trajetória de perda, desespero e dor, entrar numa faculdade de Direito, formar-se e advogar contra homens agressores era para ela a entrada do prato principal da esperada vingança que nunca se concretizava e pela qual esperava tão ansiosamente, de um dia ver a maldita lei de alienação parental revogada, aquela da qual o advogado de seu ex marido agressor se valera para levar sua filha, sua amada filha, que não via há 10 anos.
Quanta saudade e amargura em seu coração pesava por estes longos anos que em nada amenizavam a dor, só faziam aumentar, não havia um único dia em que Jaqueline não conversasse mentalmente com sua filha, num exercício doloroso em suas orações diárias pedia pela vida e integridade de seu precioso amor que estava agora já para completar 22 anos. Jaqueline com amargura não entendia porque a filha após completar 16 anos não a procurara, ela poderia ter usado este direito e Jaqueline lutou por ele, para com desgosto saber que a filha não queria mais contato com ela.
Haviam levado Mariana quando estava com 12 anos, numa inversão de guarda repentina e sem nenhum sentido.
Jaqueline lembrava com dor do dia 13, especialmente da sexta feira 13 daquela tarde de novembro de 2009, dia que cravou as unhas no rosto da diretora da escola onde sua filha estudava, a escola que não a avisou que a polícia, com o pai de sua filha, arrogantemente, levara sua menina em meio às atividades escolares, levando-a sob ordem judicial, como se sua filha fosse uma criminosa. Quando foi buscar sua filha no final do período da aula, ela não estava mais lá, entregaram-lhe apenas a mochila e um " nos desculpe, ela se foi, mas foi com o pai dela né, a gente não podia fazer nada, ele veio com a polícia"
Jaqueline não lembrava bem se primeiro enfiou as unhas na cara da diretora ou se foi depois que quebrou o nariz da maldita coordenadora que por mais de uma vez já havia destratado sua filha com adjetivos pejorativos e lesbofóbicos.
Jaqueline chorava amargamente todos os dias, pensando em sua amada e linda filha já adolescente, sendo levada na frente dos coleguinhas como se fosse uma criminosa, um troféu de um pai agressor, vitorioso e escoltado por uma polícia que cumpria os desígnios de um juiz que ao invés de protegê-las, as destruía.
Inutilmente o advogado de Jaqueline lutara contra a lei conhecida por LAP, lei de alienação parental, um projeto de lei ameaçador em 2009 e em pleno vigor e força a partir de 2010 por todo o Brasil, com este instrumento, Jaqueline igual a centenas de mães por todo o país, era agora considerada perigosa e alienadora, um monstro que deveria ser afastada da filha.
De nada adiantara as provas de agressões, as medidas protetivas, a lei Maria da Penha, vídeos de agressão que sofria do ex marido mesmo depois de divorciada, gravações com as ameaças do ex e testemunhas a favor de Jaqueline, tudo parecia inútil e falar às equipes forenses do Fórum com igualdade era impensável, impossível.
Jaqueline era grosseiramente calada pelas psicólogas que a tratavam com ironia, era acusada de não permitir as visitas do pai à filha em sua casa e de descumprir o direito do pai de levar a filha para a casa dele, era acusada como se fosse a malvada, a louca, a mãe invejosa e vingativa e de nada adiantava dizer que sua preocupação em permitir que a filha dormisse na casa do pai ocorria porque ele era usuário de cocaína e bebia muito e que nas crises tornava-se agressivo e perigoso.
Não adiantava argumentar que ela acreditava que em sua ausência o ex poderia vingar-se na filha, agredindo-a, colocando-a em perigo, eram argumentações inúteis porque nos laudos constava que o homem agredia a mulher mas não era agressivo com a filha...e os laudos a apontavam como homo afetiva...parecia que em casos de lide por guarda de filhos era comum destratar a mulher lésbica ou bissexual, então o " crime" questionado era o relacionamento de Jaqueline com a sua namorada e não se a mulher estava sendo tratada de forma discriminatória e criminosa.
A orientação sexual de uma pessoa não deve desmerece-la enquanto mãe ou pai, mas o fato de Jaqueline ter tido relacionamento amoroso com outras mulheres era motivo mais que suficiente para o juiz em plena audiência desmerecê-la enquanto mulher e mãe.
O advogado dela havia pedido para Jaqueline mentir e de forma alguma admitir ser bissexual, deveriam se prender ao fato de que o ex marido por várias vezes havia batido nela e inclusive a havia esfaqueado na frente da filha, gritando que mataria as duas.
Para o ex marido de Jaqueline, na época do namoro, conquistar uma mulher que namorava outra mulher era uma espécie de trunfo, Jaqueline havia percebido isso e mesmo recebendo inúmeros conselhos de suas amigas, não as ouviu, estava encantada pelo namorado que aparentemente não nutria nenhum preconceito e ele próprio havia admitido também ter se relacionado com outros rapazes, jamais passaria pela cabeça de Jaqueline que justamente ele iria usar de argumentos homofóbicos para tirar-lhe a filha e ainda que não fossem um tradicional casal hetero, já não bastaria ele agredi-la na frente da filha? A criança testemunhar e relatar que presenciava a mãe sendo ameaçada de morte, sendo humilhada, espancada e esfaqueada na frente dela? Isso não era considerado agressão do genitor contra a criança?
Jaqueline via embasbacada, incrédula e apavorada que a cada denuncia homofóbica contra ela o ex ganhava mais e mais direitos de visita, desrespeitando as medidas protetivas da lei Maria da Penha, até que ele por fim conseguiu a inversão da guarda quando o advogado de Jaqueline tentou usar os mesmos argumentos dizendo que o pai também mantinha relacionamento homo afetivo com rapazes, e eles foram rechaçados e ela imediatamente acusada de alienação parental e de homofobia.
Então o pai podia usar argumentos homofóbicos para ganhar a guarda da criança, mas a mãe se usasse era punida com a perda, a inversão da guarda por ser alienadora e homofóbica?
O que era isso afinal?
Tudo e todos contra as mulheres, com o ódio aumentado pelas mães lésbicas e bissexuais?
Jaqueline sabia que ela não era a única e com pesar admitia existirem casos ainda mais cruéis de mulheres que eram acusadas de serem " não confiáveis" porque eram lésbicas, de bebês arrancados dos braços das mães logo após o parto ainda dentro das maternidades, tratava-se da corte da justiça da antiguidade, era um pesadelo medieval!
Agarrada ao corrimão, Jaqueline tremia e chorava, havia perdido toda a compostura, deixara o desespero tomar conta de si diante das lembranças amargas que a invadiam com os gritos das mulheres do lado de fora das paredes do fórum. Os joelhos tremiam e Jaqueline sabia que estava em meio a uma súbita crise de pânico, precisava se acalmar e retomar a personagem " mulher bela e virtuosa da classe média brasileira", ao pensar sobre isso vomitou, transpirava como em meio a uma crise febril.
-Não, não, não posso desmaiar, preciso ir até a Letícia, preciso ficar firme!Fechou os olhos e rezou, nunca havia perdido a fé em Nossa Senhora, agarrava-se à mãe que igual a ela sofria pela cria, os filhos amados gerados nos ventres das mulheres malditas, as que iam contra os machos dominantes, as que eram mães mas não eram virgens, as que eram mães mas não se calavam, as que eram mães mas não admitiam se escravizar sob as ordens do patriarcado, as que eram mães e também namoravam outras mães.
Buscava em seu coração a imagem de Maria a abraçando, não uma Maria inventada por uma igreja perseguidora e assassina de Mulheres, culpada por caçar na Idade Média com crueldade mulheres grávidas, crianças, idosas, mulheres de todas as idades apenas por serem mulheres, de estuprar e violar seus corpos nos porões da tortura para depois assassina-las nas fogueiras, não.
Jaqueline buscava em seu coração uma mãe Maria Madalena, fugindo com o bebê em seu ventre, fruto de seu grande amor, o Jesus tão querido, tão bondoso, cruelmente torturado e assassinado na cruz, diante de sua mãe, que além dele teve outros filhos, mas que para ser aceita como santa teve de ser inventada pelos hipócritas cristãos como uma virgem submissa, como se o sexo das mulheres não fosse o sagrado que traz luz a terra, como se seu sangue que vem de suas entranhas não fosse o responsável pela vida humana no planeta! Jaqueline odiava o patriarcado e odiava ter se apaixonado um dia por um homem.
O provedor, o macho alfa, o maldito príncipe encantado.
Ainda cambaleante, sentou-se no degrau da escada, precisava se recompor, mas não estava conseguindo, as memórias a tomavam de forma cruel, lúcidas, nítidas e afiadas como a lâmina que a deixara com uma cicatriz que anos depois Jaqueline cobrira com um lindo desenho de penas de pavão em tons de verde que combinavam com seus olhos, o desenho seguia num sensual, longo e doloroso caminho de sua lombar até a cervical e em momentos de angústia sentia a dor da lâmina percorrendo-lhe as costas sob o desenho, junto à um calafrio que trazia lembranças cruéis.
Era noite e mais uma vez o maldito estava bêbado, Jaqueline já havia dado janta, banho e colocado a filha para dormir, o desgraçado além de socá-la, ofendê-la com todo tipo de palavrões esdrúxulos acordando a criança que sempre acordava assustada com as brigas, sem que Jaqueline pudesse se defender, a golpeou pelas costas com a faca da cozinha, num golpe que retalhou suas costas de cima abaixo. Muito ferida, Jaqueline lutara o quanto podia, tentando afastá-lo da criança que ele mostrava querer agredir também e em meio ao pesadelo que vivia, vislumbrou a polícia derrubando a porta, entrando em seu socorro e num instante milagroso e libertador, aquele homem que tanto a ofendera e agredira , diante de seus olhos estava imobilizado, algemado, preso em flagrante.
Era um sonho? Ser salva, era um sonho?
Era uma denúncia de violência contra a mulher, era a ação rápida da polícia que cumpria a lei diante de uma ligação telefônica de uma vizinha que se chamava Frida e que num simples ato humano de pedir socorro para a vizinha do 301, lhe havia salvo a vida.
Jaqueline depois de hospitalizada e de muitas cirurgias, carregava consigo a marca da dor, do medo, que mesmo depois de oculta pelas mãos de habilidosa tatuadora que dedicava a vida para tatuar de graça lindos desenhos que ocultavam nos corpos de mulheres agredidas a marca da violência, continuavam sendo cicatrizes eternas que doíam e sangravam, não mais na carne que se cura, mas na alma que nunca esquece.
Mas finalmente conseguia viver e seguir em frente, cuidando de sua amada filha que crescia, foram doces breves dois anos de uma ilusão de paz, até o agressor sair da prisão, até o agressor exigir as visitas.
O agressor que havia retalhado suas costas,
mas...
mesmo assim,
mesmo assim!
Para a vara de família...
ela era a puta!
ela era a lésbica!
ela era imoral!
ela era alienadora!
ela era a ex vingativa!
E o papai querido sentia saudade,
Ele só queria a guarda da filha.
Ele queria criar a menina longe de promiscuidade.
Ele não era homofóbico, que calúnia da alienadora!
Ele só estava preocupado com a filha.
Ele de vez em quando bebia, normalmente e arrebentava a mãe da criança na frente dela, mas só porque bebia, afinal, ele era um bom pai de família;
Ele era o pai zeloso da tradicional família cristã brasileira!
E Ele pediu a guarda...
E Ele ganhou!
Jaqueline tentava se recompor quando sentiu uma mão delicada sobre seus cabelos encaracolados que estavam presos à uma presilha discreta da mesma cor dos cabelos negros, virou-se e sentiu um profundo alívio, estava salva, aos prantos afundou o rosto no ombro da amiga, sua única amiga, que em nenhum momento a olhou com nojo ou preconceito, que estava sempre ali lutando com ela e com todas que precisavam, que também advogava na causa das mães e era uma ativista bem barulhenta, daquelas que só de respirar arranjava mil inimigos pela defesa das causas nas quais acreditava e por não poupar ninguém ao "colocar os pingos nos is", não tinha medo de bandido, de juiz, de presidente ou do capeta e sequer tinha "papas na língua", se metia em brigas e confusão para defender os amigos que de verdade nunca foram seus amigos, porque quando precisava de ajuda, estava sempre sozinha, a não ser pela companhia de Jaqueline, sua parceira de fofoca, balada, praia, mandinga e cerveja, eram amigas de faculdade, do mesmo curso de Direito, a única que conversava com Jaqueline.
Sem uma única palavra as duas mulheres se abraçaram, levantaram e seguiram, passo por passo desceram as duas, degrau por degrau, não era a primeira vez que Sofia lhe socorria, com aquela mesma calma, com a mesma cumplicidade e paciência, da sororidade que não vê cor, opção sexual, nem classe econômica, só vê a todas como irmãs.
Enquanto descia as escadas amparada pela amiga, Jaqueline lembrava das aulas do curso de Direito, onde ninguém em sua turma conversava com ela e os professores a desprezavam, era vista como louca por interromper as aulas de direito civil e de família, o que Jaqueline fazia inicialmente de forma insistente e enfática para alertar, para abrir os olhos dos futuros advogados e de seus professores sobre os equívocos da lei e sobre o que é real e o que é teoria e o quanto a lei da alienação parental não protegia as crianças, principalmente nos casos de violência doméstica e abuso intra familiar.
Mas não era compreendida e debochavam dela, aos poucos tornava-se na turma uma figura desagradável e irritadiça.
Alguns professores a odiavam e dela debochavam em meio as aulas, propositalmente nas aulas sobre as questões de gênero, com piadas odiosamente machistas, que pasmem, arrancavam risadas inclusive das colegas mulheres, futuras advogadas.
Jaqueline sucumbia, perdia a paciência que já era curta e ia à fúria, nos três primeiros anos de faculdade Jaqueline discutia, batia boca, saía no braço, literalmente.
Certa vez, após ouvir o odioso professor machista mas amado pelos alunos, dizer às gargalhadas, seguido de risos de praticamente toda a turma que " a Lei Maria da Penha foi inventada por feministas que querem ganhar pensão e o José da Penha ia descer o cacete nelas", Jaqueline num descompasso legítimo mas nunca compreendido por aquelas pessoas, levantara-se de seu lugar e num só golpe desferira um soco que deixara sua mão com hematomas por dias, bem no meio da cara do professor, que atônito perdera o equilíbrio e numa queda aparentemente tola, mas daquelas que pegam a pessoa de "mal jeito", trincara um osso da costela ao cair no chão.
Foi o pandemônio, as colegas que admiravam o tal professor pularam em Jaqueline, alguns colegas fingiam separar a briga quando na verdade estavam ávidos pela luta corporal das mulheres, e foi a visão que o diabo queria ver, palavrões, chutes, puxões de cabelo, dedo no olho, mordidas e unhas na carne, brigavam enlouquecidas até que dois seguranças finalmente adentraram na sala de aula, levando Jaqueline que fora suspensa e obrigada a trocar de turno, o que a levou a trancar a matricula e perder um semestre inteiro, além de ser processada e condenada a indenizar o professor, pagando todos os gastos médicos do infeliz e uma indenização para a qual teve de pedir mais empréstimos bancários, os intermináveis, era mais um para a coleção.
A única coisa boa em meio a todo aquele inferno viera com a troca para a nova turma, assim conhecera Sofia que também era vista como encrenqueira no curso por defender as causas das mulheres e se colocar 100% a favor das vítimas de violência doméstica e 200% contra os partidos de bancada cristã evangélica.
Afrodescendente por parte de pai e indígena por parte de mãe, dedicava sua vida contra o racismo, a homofobia, o machismo, o preconceito e o descaso aos povos indígenas, então Sofia não se importava se a amizade com Jaqueline lhe rendia piadinhas machistas, comentários debochados e homofóbicos e se pensavam que estavam tendo um caso, ela era auto suficiente, cheia de si e com uma auto estima de fazer inveja a qualquer estrela famosa.
Quando provocada pelos colegas irritantes, a pequena mulher em estatura, mas cujos traços carregavam a força ancestral dos guerreiros, com a cara mais antipática que conseguia fazer, respondia de nariz bem levantado e na ponta dos pés, com as mãos na cintura e olhar de sanguinária destemida:
-Um mulherão da porra igual a Jake? Claro que tô pegando, enquanto vocês babacas ficam aí morrendo de inveja, seus inúteis.
Jaqueline ria-se da amiga feminista e afrontosa que ao mesmo tempo que brigava pelos Direitos das Mulheres como uma guerreira cruel e imbatível, chorava de derreter até com comercial de margarina, amava ler romance, adotava mais gatos que podia ter, colecionava esmaltes, era delicada e sonhava em casar com o príncipe dos sonhos que deveria ser um homem feminista, é claro, porque ela acreditava que em algum lugar do planeta deveriam existir homens livres do machismo, assim a amiga cômica e de alto astral fazia a vida de Jaqueline menos pesada.
-Sonha amiga, sonha que sonhar é de graça! Tá pra nascer homem assim, e vai ser em outro planeta, tá?
- Ah qualé Jake, só porque você tem as suas princesas maravilhosas eu não posso sonhar com os meus príncipes não? Eu einh, eu quero meu homi que beija muito e que seja bonitão, gostosão, tesudo, alto e sensual! Um só não, dois, pra quando enjoar de um ter o outro.
E as duas riam muito, e choravam muito também, e assim sonhavam juntas em abrir uma Ong de proteção às Mulheres e crianças.
Jaqueline e Sofia ao chegar no térreo não conseguiam sequer dar um único passo em direção à porta, tamanha a multidão que se amontoava para ver o que acontecia do lado de fora, os seguranças nervosos e irritados começavam a tratar as pessoas com grosseria e nem estavam mais preocupados se a indelicadeza atingia ao cidadão comum que se encontrava no local ou aos advogados e promotores que tentavam em meio a bagunça entender o que estava acontecendo na porta daquele importante Fórum em meio ao centro da grande cidade de São Paulo.
- Jake, me diz que você não ajudou essas malucas a cometerem essa insanidade. Me diz que você não faz parte disso! Pelo amor de Tupã com Omolu!
-Não sei Sofi, não sei o quanto eu tenho culpa nisso, eu falei tanto em matar esses desgraçados por tanto tempo, eu não sei. Eu sempre apoiei quando alguma delas dizia que mataria o desgraçado do pai abusador dos filhos. Mas era na hora da raiva, sabe? Sofi, na hora da maldita raiva, você sabe que dor que é levar um filho teu Sofi? Você não sabe minha amiga, por mais que você ajude nessa causa, você não sabe a dor que é perder um filho pra um agressor, um estuprador!
- A mãe da Letícia, você está cuidando do caso delas não está? É aquele caso que você me falou, aquele que buscamos ajuda no Ministério Público, que ficamos meses atrás de ajuda até sermos atendidas?
-Não Sofi, esse foi o caso do Murilo, ele foi aquele menino que te contei, levado a força de madrugada pela polícia, entraram na casa derrubando a porta! A mãe e o menino estavam dormindo, levaram a criança em pânico, aos gritos, bateram na mãe, rasgaram a roupa dela, quebraram os móveis da casa da mulher, deixaram a criança apavorada, aos gritos, em pânico total e levaram o pequeno sob força policial! Entregaram o menino nas mãos do pai estuprador, o garotinho contava com detalhes como o pai o estuprava, foi horrível, e mesmo assim o juiz deu inversão de guarda em favor do pai estuprador!
-Ah, lembrei, você estava arrasada, eu lembro agora, você não foi avisada da inversão da guarda, o mandado de busca e apreensão saiu em plena quinta feira às 18h, véspera do feriado! Jake você foi pega de repente, como imaginar que um maldito de um juiz daria inversão de guarda na véspera de um feriado às 18h, quando na sexta feira tudo estaria fechado, feriado nacional, que a inversão de guarda em favor de um pai acusado de abusar do filho seria desta forma? Você não pôde fazer nada para reverter a situação.
-Sofi, tudo e todos estão contra as mães que denunciaram seus ex maridos de violência doméstica ou de abuso sexual contra os filhos, por isso a gente precisa da revogação logo dessa lei da alienação que serve só pra proteger agressor de mulher e pedófilo.
- A gente precisa de uma lei que proíba juízes homens de decidir nestas causas.
-Mas Sofi, tem muita juíza machista, você sabe.
-Eu sei, da pior forma eu sei! Mas Jake, essa criança, a Letícia é qual caso? São tantos, não sei mais quem é quem, não sei como você consegue acompanhar todos! Você conhece cada um com detalhes! Eu não consigo nem lembrar dos nomes, meu Deus, só aqui em São Paulo tem mais de 200 novas vítimas disso aí, desse horror só neste ano!
- A mãe da Letícia denunciou o pai abusador da filha, antes do estupro, ela conseguiu invadir o celular dele e descobriu que o maldito faz parte de um grupo de pais pedófilos que filmam os filhos, estes desgraçados estupram as crianças quando elas completam 12 anos e filmam pro grupo diabólico deles.
Ela denunciou isso e foi acusada de loucura, histeria e alienação. Foi processada por injúria e calúnia. Sofi, me dói demais esse caso porque igual fizeram com a minha menina, a Letícia também foi levada de dentro da escola, com mandado de busca e apreensão, conheci a mãe da Letícia depois disso tudo, quando o caso veio pra mim, lutei com tudo mas mesmo assim só consegui as visitas para a mãe no visitário do Fórum e eu estava tentando as visitas monitoradas em casa para depois lutar pelo direito delas das visitas dos finais de semana, você sabe pra que né Sofi?
-Mana, você ia ajudar esta mãe também a fugir pela fronteira? Ia tirar do bolso de novo pra ajuda-las?
-Lógico que sim! Eu queria que elas fugissem antes que a menina completasse os doze anos e antes que fosse estuprada. Mas a Letícia estava muito revoltada, questionando que o bandido é o pai, que ele se esfregava e se masturbava nela e nenhum juiz acreditava, que ele quem deveria vê-la em visitário de Fórum e nem isso, ou se alguém deveria ser monitorado deveria ser ele e não a mãe. Essa criança disse várias vezes que iria mata-lo. Meu Deus, minha mãe do céu...Sofi, o que é tudo isso?
-Jake, minha amiga, isso é o inferno, o seu, o meu, o dela e de todas nós, mas parece que a morte agora decidiu pegar o diabo, olha aquela bandeira, Jake! Olha!
E as duas amigas olhavam incrédulas uma bandeira e enormes cartazes com a imagem da morte com a foice cravada no diabo, a mesma que Jaqueline havia visto nas misteriosas cartas sem remetente que recebera há algumas semanas, em sua caixa de correio, com a frase em vermelho:
" Querida mamãe, não chore mais, a morte chegou, não apenas para um, mas para todos os diabos malditos"
Continua... Cap 6 A Morte do diabo.
Antes que se desse conta, já corria cambaleante sobre os odiosos sapatos de salto alto que ela odiava, mas que ali no papel de advogada, usava.
Para Jaqueline seria impensável anos atrás usar algo assim tão caro e tão objetificador, criado para identificar as prostitutas nas ruas da Roma antiga e para proteger os pés dos açougueiros do sangue dos animais nos matadouros na fria Europa da Idade Média.
Jaqueline por conhecer a origem os odiava e mais ainda porque era ativista feminista e por isso usava apenas roupas confortáveis que lhe fossem úteis e garantissem seu bem estar, posicionava-se contra toda e qualquer forma de ditadura da beleza feminina, mas nestes recentes últimos anos não se reconhecia cada vez que vestia sua personagem arrogante, frívola, de classe média mas nem tanto assim, cujos sapatos delicados de salto alto com Tailleur, unhas bem feitas e cabelos sedosos e escovados em salão a transformavam numa típica mulher aprisionada pelos padrões ocidentais da beleza feminina elegante, desta forma ela era a Dra Jake, olhada e admirada, cujos pescoços masculinos faziam manobras nada discretas para devorarem a linda mulher de cabelos negros, longos e encaracolados, com maquiagem impecável, bem vestida e elegante sobre seus belíssimos saltos que modelavam as belíssimas pernas.
Jaqueline sabia que os devoradores olhares masculinos não ocorriam pelo alto valor ou elegância das peças de seu vestuário, até porque depois de lutar pela guarda da filha havia empobrecido pagando os altos valores cobrados pelos advogados de Direito de família de tal forma que suas roupas só podiam ser adquiridas em brechó ou em suaves prestações a perder de vista, mas fato era que nenhuma mulher bem arrumada de salto alto passaria desapercebida numa sociedade machista onde homens e mulheres só conseguem valorar a mulher por seus status e poder aquisitivo, isso ainda em pleno seculo XXI.
Jaqueline se sentia enojada no início, mas após perceber que este era o jogo e que para ganhá-lo precisava fazer o enfadonho teatro, acabara por tornar-se uma estrela naquilo, pena que não percebera isso a tempo, quando ela era ainda uma jovem estudante de História, lembrava com saudosismo dos tempos de faculdade, de sua mocidade, de sua alegria de viver, do quanto amava o curso e o quanto fora difícil e doloroso trancar a matrícula para ter a bebê, era impossível naquele casamento continuar estudando e criar uma criança, não sem enlouquecer e por acreditar tratar-se de uma fase ruim do marido que tornara-se violento naquela época, para evitar brigas e discussões que culminavam em agressões físicas, pareceu-lhe o melhor a fazer, obedece-lo para ter paz, mas obedecer só por um período, dizia para si mesma tentando enganar-se, só enquanto a criança fosse pequena porque ela precisava de paz para parir, para amamentar, para cuidar de sua bebê, para ser mãe e para isso, infelizmente, precisava obedecer o marido...
Lamentava-se todos os dias por ter acreditado nisso e pensava no quanto teria sido imensamente mais feliz se tivesse se separado ainda grávida, se tivesse terminado o curso que tanto amava, se tivesse fugido para outro país, mas não, não havia tempo para remoer memórias dolorosas, ali naquele momento precisava manter o foco e assim, a empoderada e dedicada advogada em especial nos emblemáticos casos onde mulheres perdiam a guarda de filhos em situações bizarras, discrepantes em favorecimento ao homem agressor, sendo eles os socorridos pela justiça e tratados como vítimas de ex mulheres alienadoras, os " papais queridos" segundo as equipes forenses que analisavam as situações de lide por guarda de menores sempre e estranhamente em favorecimento dos pais, independente se tivessem estuprado a mulher na frente dos filhos, se tivessem espancado a mulher na frente das crianças, se tivessem se embebedado e colocado a família em perigo, se tivessem porte de arma e já tivessem ameaçado os familiares da mulher, nada disso importava porque com o uso da lei de alienação parental como defesa ao genitor, não importava o que o pai tivesse feito de ruim para a mãe das crianças, o pai era sempre o pai e o pai era sempre o " papai querido" e de nada adiantava argumentar em favor às mulheres, as mães que queriam a guarda dos filhos e imploravam pela garantia de suas vidas e a segurança de seus filhos, previstas na Lei Maria da Penha a qual sempre se socorriam, mas cuja proteção lhes era negada em detrimento da lei da alienação parental que visava proteger o pai afastado das crianças, não importava o motivo, eles ganhavam, sempre, ainda que fossem os piores dos agressores, os abusadores sexuais do próprios filhos.
Jaqueline odiava estas equipes das varas de família dos fóruns com toda a força de sua alma e não tratava-se de ódio ou vingança pessoal por este ou aquele fórum, esta ou aquela determinada equipe, não, Jaqueline repudiava imensamente a todos porque não eram apenas casos isolados neste ou naquele fórum em específico, era uma epidemia por todo o Brasil, acentuada na região do Rio Grande do Sul e Santa Catarina com situações de desmandos e ações truculentas contra as mulheres agredidas por juízes em meio às audiências, com preocupante aumento de números de descaso das autoridades e inversões de guarda de menores em favor dos genitores abusadores e agressores na região Sudeste e disseminadas decisões de guarda compartilhada mesmo nos casos com denúncia de estupro do genitor contra as crianças por toda a região Centro -Oeste, Norte e Nordeste, tratava-se de uma cruel e avassaladora epidemia que ocorria desde 2009, primeiro lentamente mas já com casos devastadores e divulgados na grande mídia como o caso da menina Joana, morta pelo pai com requintes de crueldade e tortura após ele ter acusado a mãe da criança de alienação parental e ganhar a guarda unilateral da filha, tirando-a de um lar amoroso para ser morta nas mãos do " papai querido" de forma cruel, admitida por uma lei cruel, de uma (in)justiça cruel.
Jaqueline sentia-se exausta, principalmente quando acompanhava as vítimas e presenciava as psicólogas dos fóruns recebendo os pais, os homens, com largos sorrisos, tapinhas afetuosos no ombro e doces e perturbadoras frases de " boa tarde papaizinho, está com saudade do seu filho não é mesmo?" ou " Ah olá papai querido, sente-se por favor, nós estávamos aqui aguardando pelo senhor com muita felicidade, logo tudo será solucionado" e ainda " Papai querido como está você hoje? Está muito triste, com saudade?" mas ao referirem-se às mães no entanto, os olhares eram sempre frios, acusatórios, distantes ou muitas vezes inquisitórios, já havia presenciado psicólogos forenses ofendendo as mães, tratando-as com deboche e muito preconceito.
Certa vez, incrédula, presenciara numa audiência um juiz que ria debochadamente, olhando com descaso para a mulher que se socorria da defesa de Jaqueline, não bastassem as risadas debochadas e infames o erudito ainda assustara as duas mulheres intimidando-as ao desferir um soco bruto e inesperado na mesa:
- Vocês mulheres são todas iguais, pensam que eu não sei do que se trata isso, esse circo, eu tenho mulher em casa e sei bem que vocês são atrizes, falam que o pai bate e isso e aquilo pra se vingar deles! São falsas e mentirosas!
Jaqueline lembrava com dor das lágrimas que caíram de forma dolorosa e pesada dos humilhados e sofridos olhos da mulher a quem defendia, era uma vítima de estupro, de cárcere privado e pedia a guarda dos filhos, havia fugido com suas crianças numa madrugada em que o marido que a agredia e a estuprava na frente das crianças estava bêbado, dormindo de forma pesada e esquecera as chaves da casa em cima da mesa.
Jaqueline sabia quanta coragem aquela mulher precisou ter para fugir da violência com os filhos pequenos, para depois tentar um emprego longe dele, pedir o divórcio e seguir com a vida, mas meses depois fora surpreendida com a polícia e o ex marido em sua porta, nas primeiras horas da manhã de um sábado, para levar seus dois filhos à força, com mandado de busca e apreensão assinado por um juiz, aquele mesmo que ali diante delas batia na mesa, espumando ódio contra as duas mulheres, a mãe estava sendo acusada de sequestro dos filhos, era bizarro.
Antes mesmo da defesa argumentar sua tese o olhar dos juízes nas audiências era sempre de ódio, nojo e descaso pelas " mães alienadoras".
- Nada importa, não importa nada! Nós já estamos perdidas nas mãos destes malditos machistas! Malditos! Malditos!-
Jaqueline gritou em voz alta enquanto corria em direção aos elevadores, trazendo para si olhares de incredulidade e desaprovação dos elegantes e educados colegas da advocacia que pavoneavam-se pelos corredores antes das audiências.
-Pro diabo seus malditos! Sai da minha frente, tô com pressa! Sai da frente! - disse ao esbarrar num grupo que andava em sua direção em ternos requintados e olhares de abutres- Seus desgraçados! Filhos dum cão, que da Puta maravilhosa esses desgraça não nasceram, esses cria de repolho azedo!
Jaqueline agora corria desesperadamente, pro inferno se estava num dos corredores que levavam às salas de audiência, pensou que sorte a parte contrária ter faltado, mas claro, por ter sido o pai quem faltou, nada aconteceu, o juiz apenas marcou nova data para audiência que fora apenas cancelada.
Se fosse a mãe quem tivesse faltado à audiência...com certeza já teria perdido a guarda dos filhos, mas já que as coisas estavam assim, Jaqueline estava já pensando em voltar para casa quando viu a mensagem no celular avisando que a concentração havia decidido se reunir e protestar em frente ao Fórum, justamente onde ela estava.
Não lembrava sequer de ter se despedido da mulher a quem defenderia se o macho alfa não tivesse faltado à audiência, quando se deu conta já corria às pressas pelos corredores.
-Malditos! Malditos juízes machistas a culpa é toda de vocês- resmungava enquanto tentava correr naqueles sapatos de salto alto.
Inicialmente os grupos estavam combinando de realizar um grande protesto na Av. Paulista, mas de repente uma das coordenadoras das ações de defesa à Mulher havia avisado a todas que deveriam se concentrar em frente ao Fórum do centro da cidade de SP e que havia um motivo, que poucas conheciam e seria revelado somente no ato, o que poderia ser o motivo daquilo no entanto, Jaqueline não imaginava, até ouvir os gritos das Mulheres do lado de fora do prédio.
Ela não estava acreditando no que ouvia, tentava dizer pra si mesma enquanto corria que estava enganada.
-Pro inferno estes juízes e estes sapatos malditos! - Jaqueline pulando tirava os sapatos, desistindo de qualquer integridade, agora corria já em direção às escadas, nem pensar esperar por aqueles elevadores confusos, demorados e sempre lotados, iria pelas escadas mesmo e assim poderia enquanto corria andares abaixo ligar para a mãe de Letícia.
- Droga! Droga! Atende! Atende! Atende inferno! Pelo amor de Deus atende! Jesus o que está acontecendo!? Maldição!
Jaqueline sentia o coração disparado quase saindo pela boca e não era pela correria apenas, parecia infartar a cada frase que ecoava do tumulto do lado de fora e invadia o fórum com a fúria de mil leoas sem suas crias:
" -Morte aos pedófilos! Liberdade para Letícia! Letícia, Letícia eu te amo!"
- Não pode ser, não pode ser! Não a Letí...
Não pôde terminar, a voz doce de uma criança mais forte que uma gigante fez Jaqueline parar de repente, derrubando bolsa, sapatos, pasta com documentos e ela própria quase fora ao chão se não tivesse se agarrado ao corrimão, abraçando-o, as lágrimas correndo pela face enquanto ouvia:
"-Meu pai me estuprou! Vocês queriam me devolver pra ele? Eu matei o desgraçado! Me prendam seus malditos!!!! Quem vai ser a próxima criança assassina? A Larissa? A Fernanda? O Murilo? O Joaquim?"
Os gritos que engrossaram a voz da criança sugeriam que tratava-se desta vez de uma multidão.
Jaqueline estranhou mas entendeu imediatamente, de que de meia duzia de gatos pingados que se uniam às manifestações desacreditadas das mães que lutavam contra a lei de alienação parental, desta vez com a terrível novidade de uma criança assassina a multidão se fazia presente.
-Malditos! Malditos! Precisou chegar a isso? Não a Letícia, não você Lê! Não a doce Letícia que eu conheço, não!
Recuperando o ar, em vão enxugou as lágrimas que descontroladamente desciam por seu rosto borrando toda a maquiagem, juntou suas coisas o mais rápido que pôde sem esquecer nenhum documento, nenhuma petição, nenhum dos muitos embargos declaratórios e agravos de instrumento, os preciosos meios jurídicos, as armas estratégicas das quais a Dra Jake se valia para a defesa de suas clientes que eram mais que clientes, eram suas amigas e assim as via mesmo quando em meio as lutas muitas delas tomadas pelo amargor da perda da guarda dos filhos e a revolta pelo descaso das autoridades se desesperavam e agrediam a Jaqueline, de forma injusta e ingrata a acusavam de perder a causa ou de demorar demais para reaver a guarda das crianças, mas Jaqueline se dedicava a cada uma delas como se fosse para si própria e ia contra as regras e todos os princípios, não cobrava pelas causas e cada vez mais se endividava e se tornava empobrecida, mas isso não importava, ganhava seu pão a trancos e barrancos com o dinheiro das quentinhas que fazia, garantidas por um avô, um empresário bem sucedido de classe média alta, muito agradecido após ter a ajuda de Jaqueline para impedir a inversão de guarda da neta ao ex marido da filha, o sentimento de gratidão do avô desesperado pela dor de filha e neta, salvas pela perspicácia e experiência de Jaqueline nas lides processuais por guarda de menor haviam lhe garantido este trabalho honesto de cozinheira de quentinhas na empresa de construções que a possibilitava viver enquanto se dedicava as causas sem depender de pagamento das mães que em sua grande maioria quando buscavam por Jaqueline, já haviam também caído nas mãos de muitos advogados que cobravam preços inatingíveis para reaver a guarda das crianças e que no entanto, nunca conseguiam.
E estas mulheres chegavam à Jaqueline já completamente destruídas, financeira, psicológica, moral e mentalmente.
Se alguém tão dedicado à causas perdidas existisse, esse alguém só poderia ser a Jaqueline que por tantas vezes recebia ameaças de morte e era vista como louca pelos colegas advogados.
Jaqueline havia perdido a conta das vezes que saíra de madrugada em socorro de vítimas, de quantas mulheres com filhos pequenos havia escondido em sua casa no momento das decisões de inversão de guarda a favor do genitor/agressor, de quantos processos lia e relia devorando-os madrugada a dentro para no dia seguinte, bem cedo, antes de ir aos Fóruns, preparar as 20 quentinhas diárias para aquela empresa de construção e Jaqueline honrava a clientela, era boa demais na cozinha, ela sabia, seu tempero era o melhor e quem provava não deixava de pedir, eram 15 operários mais o patrão e os funcionários do escritório que estavam lhe garantindo o sustento, e ela caprichava por um preço em conta, assim seguia com este ganha pão informal, mas que era um dinheiro que apesar de lhe garantir o básico era insuficiente para quitar todas as dívidas e para as melhorias do carro usado que sempre dava problema e que ela nunca conseguia trocar por um modelo mais novo.
Já as mães que buscavam socorro na Dra Jake, além de não pagarem pelo trabalho da advogada ativista, tantas vezes dependiam de sua ajuda para o dinheiro da passagem e do lanche nos dias das longas e intermináveis audiências as quais Jaqueline chamava de tortura.
Mas Jaqueline seguia obstinada, após toda sua trajetória de perda, desespero e dor, entrar numa faculdade de Direito, formar-se e advogar contra homens agressores era para ela a entrada do prato principal da esperada vingança que nunca se concretizava e pela qual esperava tão ansiosamente, de um dia ver a maldita lei de alienação parental revogada, aquela da qual o advogado de seu ex marido agressor se valera para levar sua filha, sua amada filha, que não via há 10 anos.
Quanta saudade e amargura em seu coração pesava por estes longos anos que em nada amenizavam a dor, só faziam aumentar, não havia um único dia em que Jaqueline não conversasse mentalmente com sua filha, num exercício doloroso em suas orações diárias pedia pela vida e integridade de seu precioso amor que estava agora já para completar 22 anos. Jaqueline com amargura não entendia porque a filha após completar 16 anos não a procurara, ela poderia ter usado este direito e Jaqueline lutou por ele, para com desgosto saber que a filha não queria mais contato com ela.
Haviam levado Mariana quando estava com 12 anos, numa inversão de guarda repentina e sem nenhum sentido.
Jaqueline lembrava com dor do dia 13, especialmente da sexta feira 13 daquela tarde de novembro de 2009, dia que cravou as unhas no rosto da diretora da escola onde sua filha estudava, a escola que não a avisou que a polícia, com o pai de sua filha, arrogantemente, levara sua menina em meio às atividades escolares, levando-a sob ordem judicial, como se sua filha fosse uma criminosa. Quando foi buscar sua filha no final do período da aula, ela não estava mais lá, entregaram-lhe apenas a mochila e um " nos desculpe, ela se foi, mas foi com o pai dela né, a gente não podia fazer nada, ele veio com a polícia"
Jaqueline não lembrava bem se primeiro enfiou as unhas na cara da diretora ou se foi depois que quebrou o nariz da maldita coordenadora que por mais de uma vez já havia destratado sua filha com adjetivos pejorativos e lesbofóbicos.
Jaqueline chorava amargamente todos os dias, pensando em sua amada e linda filha já adolescente, sendo levada na frente dos coleguinhas como se fosse uma criminosa, um troféu de um pai agressor, vitorioso e escoltado por uma polícia que cumpria os desígnios de um juiz que ao invés de protegê-las, as destruía.
Inutilmente o advogado de Jaqueline lutara contra a lei conhecida por LAP, lei de alienação parental, um projeto de lei ameaçador em 2009 e em pleno vigor e força a partir de 2010 por todo o Brasil, com este instrumento, Jaqueline igual a centenas de mães por todo o país, era agora considerada perigosa e alienadora, um monstro que deveria ser afastada da filha.
De nada adiantara as provas de agressões, as medidas protetivas, a lei Maria da Penha, vídeos de agressão que sofria do ex marido mesmo depois de divorciada, gravações com as ameaças do ex e testemunhas a favor de Jaqueline, tudo parecia inútil e falar às equipes forenses do Fórum com igualdade era impensável, impossível.
Jaqueline era grosseiramente calada pelas psicólogas que a tratavam com ironia, era acusada de não permitir as visitas do pai à filha em sua casa e de descumprir o direito do pai de levar a filha para a casa dele, era acusada como se fosse a malvada, a louca, a mãe invejosa e vingativa e de nada adiantava dizer que sua preocupação em permitir que a filha dormisse na casa do pai ocorria porque ele era usuário de cocaína e bebia muito e que nas crises tornava-se agressivo e perigoso.
Não adiantava argumentar que ela acreditava que em sua ausência o ex poderia vingar-se na filha, agredindo-a, colocando-a em perigo, eram argumentações inúteis porque nos laudos constava que o homem agredia a mulher mas não era agressivo com a filha...e os laudos a apontavam como homo afetiva...parecia que em casos de lide por guarda de filhos era comum destratar a mulher lésbica ou bissexual, então o " crime" questionado era o relacionamento de Jaqueline com a sua namorada e não se a mulher estava sendo tratada de forma discriminatória e criminosa.
A orientação sexual de uma pessoa não deve desmerece-la enquanto mãe ou pai, mas o fato de Jaqueline ter tido relacionamento amoroso com outras mulheres era motivo mais que suficiente para o juiz em plena audiência desmerecê-la enquanto mulher e mãe.
O advogado dela havia pedido para Jaqueline mentir e de forma alguma admitir ser bissexual, deveriam se prender ao fato de que o ex marido por várias vezes havia batido nela e inclusive a havia esfaqueado na frente da filha, gritando que mataria as duas.
Para o ex marido de Jaqueline, na época do namoro, conquistar uma mulher que namorava outra mulher era uma espécie de trunfo, Jaqueline havia percebido isso e mesmo recebendo inúmeros conselhos de suas amigas, não as ouviu, estava encantada pelo namorado que aparentemente não nutria nenhum preconceito e ele próprio havia admitido também ter se relacionado com outros rapazes, jamais passaria pela cabeça de Jaqueline que justamente ele iria usar de argumentos homofóbicos para tirar-lhe a filha e ainda que não fossem um tradicional casal hetero, já não bastaria ele agredi-la na frente da filha? A criança testemunhar e relatar que presenciava a mãe sendo ameaçada de morte, sendo humilhada, espancada e esfaqueada na frente dela? Isso não era considerado agressão do genitor contra a criança?
Jaqueline via embasbacada, incrédula e apavorada que a cada denuncia homofóbica contra ela o ex ganhava mais e mais direitos de visita, desrespeitando as medidas protetivas da lei Maria da Penha, até que ele por fim conseguiu a inversão da guarda quando o advogado de Jaqueline tentou usar os mesmos argumentos dizendo que o pai também mantinha relacionamento homo afetivo com rapazes, e eles foram rechaçados e ela imediatamente acusada de alienação parental e de homofobia.
Então o pai podia usar argumentos homofóbicos para ganhar a guarda da criança, mas a mãe se usasse era punida com a perda, a inversão da guarda por ser alienadora e homofóbica?
O que era isso afinal?
Tudo e todos contra as mulheres, com o ódio aumentado pelas mães lésbicas e bissexuais?
Jaqueline sabia que ela não era a única e com pesar admitia existirem casos ainda mais cruéis de mulheres que eram acusadas de serem " não confiáveis" porque eram lésbicas, de bebês arrancados dos braços das mães logo após o parto ainda dentro das maternidades, tratava-se da corte da justiça da antiguidade, era um pesadelo medieval!
Agarrada ao corrimão, Jaqueline tremia e chorava, havia perdido toda a compostura, deixara o desespero tomar conta de si diante das lembranças amargas que a invadiam com os gritos das mulheres do lado de fora das paredes do fórum. Os joelhos tremiam e Jaqueline sabia que estava em meio a uma súbita crise de pânico, precisava se acalmar e retomar a personagem " mulher bela e virtuosa da classe média brasileira", ao pensar sobre isso vomitou, transpirava como em meio a uma crise febril.
-Não, não, não posso desmaiar, preciso ir até a Letícia, preciso ficar firme!Fechou os olhos e rezou, nunca havia perdido a fé em Nossa Senhora, agarrava-se à mãe que igual a ela sofria pela cria, os filhos amados gerados nos ventres das mulheres malditas, as que iam contra os machos dominantes, as que eram mães mas não eram virgens, as que eram mães mas não se calavam, as que eram mães mas não admitiam se escravizar sob as ordens do patriarcado, as que eram mães e também namoravam outras mães.
Buscava em seu coração a imagem de Maria a abraçando, não uma Maria inventada por uma igreja perseguidora e assassina de Mulheres, culpada por caçar na Idade Média com crueldade mulheres grávidas, crianças, idosas, mulheres de todas as idades apenas por serem mulheres, de estuprar e violar seus corpos nos porões da tortura para depois assassina-las nas fogueiras, não.
Jaqueline buscava em seu coração uma mãe Maria Madalena, fugindo com o bebê em seu ventre, fruto de seu grande amor, o Jesus tão querido, tão bondoso, cruelmente torturado e assassinado na cruz, diante de sua mãe, que além dele teve outros filhos, mas que para ser aceita como santa teve de ser inventada pelos hipócritas cristãos como uma virgem submissa, como se o sexo das mulheres não fosse o sagrado que traz luz a terra, como se seu sangue que vem de suas entranhas não fosse o responsável pela vida humana no planeta! Jaqueline odiava o patriarcado e odiava ter se apaixonado um dia por um homem.
O provedor, o macho alfa, o maldito príncipe encantado.
Ainda cambaleante, sentou-se no degrau da escada, precisava se recompor, mas não estava conseguindo, as memórias a tomavam de forma cruel, lúcidas, nítidas e afiadas como a lâmina que a deixara com uma cicatriz que anos depois Jaqueline cobrira com um lindo desenho de penas de pavão em tons de verde que combinavam com seus olhos, o desenho seguia num sensual, longo e doloroso caminho de sua lombar até a cervical e em momentos de angústia sentia a dor da lâmina percorrendo-lhe as costas sob o desenho, junto à um calafrio que trazia lembranças cruéis.
Era noite e mais uma vez o maldito estava bêbado, Jaqueline já havia dado janta, banho e colocado a filha para dormir, o desgraçado além de socá-la, ofendê-la com todo tipo de palavrões esdrúxulos acordando a criança que sempre acordava assustada com as brigas, sem que Jaqueline pudesse se defender, a golpeou pelas costas com a faca da cozinha, num golpe que retalhou suas costas de cima abaixo. Muito ferida, Jaqueline lutara o quanto podia, tentando afastá-lo da criança que ele mostrava querer agredir também e em meio ao pesadelo que vivia, vislumbrou a polícia derrubando a porta, entrando em seu socorro e num instante milagroso e libertador, aquele homem que tanto a ofendera e agredira , diante de seus olhos estava imobilizado, algemado, preso em flagrante.
Era um sonho? Ser salva, era um sonho?
Era uma denúncia de violência contra a mulher, era a ação rápida da polícia que cumpria a lei diante de uma ligação telefônica de uma vizinha que se chamava Frida e que num simples ato humano de pedir socorro para a vizinha do 301, lhe havia salvo a vida.
Jaqueline depois de hospitalizada e de muitas cirurgias, carregava consigo a marca da dor, do medo, que mesmo depois de oculta pelas mãos de habilidosa tatuadora que dedicava a vida para tatuar de graça lindos desenhos que ocultavam nos corpos de mulheres agredidas a marca da violência, continuavam sendo cicatrizes eternas que doíam e sangravam, não mais na carne que se cura, mas na alma que nunca esquece.
Mas finalmente conseguia viver e seguir em frente, cuidando de sua amada filha que crescia, foram doces breves dois anos de uma ilusão de paz, até o agressor sair da prisão, até o agressor exigir as visitas.
O agressor que havia retalhado suas costas,
mas...
mesmo assim,
mesmo assim!
Para a vara de família...
ela era a puta!
ela era a lésbica!
ela era imoral!
ela era alienadora!
ela era a ex vingativa!
E o papai querido sentia saudade,
Ele só queria a guarda da filha.
Ele queria criar a menina longe de promiscuidade.
Ele não era homofóbico, que calúnia da alienadora!
Ele só estava preocupado com a filha.
Ele de vez em quando bebia, normalmente e arrebentava a mãe da criança na frente dela, mas só porque bebia, afinal, ele era um bom pai de família;
Ele era o pai zeloso da tradicional família cristã brasileira!
E Ele pediu a guarda...
E Ele ganhou!
Jaqueline tentava se recompor quando sentiu uma mão delicada sobre seus cabelos encaracolados que estavam presos à uma presilha discreta da mesma cor dos cabelos negros, virou-se e sentiu um profundo alívio, estava salva, aos prantos afundou o rosto no ombro da amiga, sua única amiga, que em nenhum momento a olhou com nojo ou preconceito, que estava sempre ali lutando com ela e com todas que precisavam, que também advogava na causa das mães e era uma ativista bem barulhenta, daquelas que só de respirar arranjava mil inimigos pela defesa das causas nas quais acreditava e por não poupar ninguém ao "colocar os pingos nos is", não tinha medo de bandido, de juiz, de presidente ou do capeta e sequer tinha "papas na língua", se metia em brigas e confusão para defender os amigos que de verdade nunca foram seus amigos, porque quando precisava de ajuda, estava sempre sozinha, a não ser pela companhia de Jaqueline, sua parceira de fofoca, balada, praia, mandinga e cerveja, eram amigas de faculdade, do mesmo curso de Direito, a única que conversava com Jaqueline.
Sem uma única palavra as duas mulheres se abraçaram, levantaram e seguiram, passo por passo desceram as duas, degrau por degrau, não era a primeira vez que Sofia lhe socorria, com aquela mesma calma, com a mesma cumplicidade e paciência, da sororidade que não vê cor, opção sexual, nem classe econômica, só vê a todas como irmãs.
Enquanto descia as escadas amparada pela amiga, Jaqueline lembrava das aulas do curso de Direito, onde ninguém em sua turma conversava com ela e os professores a desprezavam, era vista como louca por interromper as aulas de direito civil e de família, o que Jaqueline fazia inicialmente de forma insistente e enfática para alertar, para abrir os olhos dos futuros advogados e de seus professores sobre os equívocos da lei e sobre o que é real e o que é teoria e o quanto a lei da alienação parental não protegia as crianças, principalmente nos casos de violência doméstica e abuso intra familiar.
Mas não era compreendida e debochavam dela, aos poucos tornava-se na turma uma figura desagradável e irritadiça.
Alguns professores a odiavam e dela debochavam em meio as aulas, propositalmente nas aulas sobre as questões de gênero, com piadas odiosamente machistas, que pasmem, arrancavam risadas inclusive das colegas mulheres, futuras advogadas.
Jaqueline sucumbia, perdia a paciência que já era curta e ia à fúria, nos três primeiros anos de faculdade Jaqueline discutia, batia boca, saía no braço, literalmente.
Certa vez, após ouvir o odioso professor machista mas amado pelos alunos, dizer às gargalhadas, seguido de risos de praticamente toda a turma que " a Lei Maria da Penha foi inventada por feministas que querem ganhar pensão e o José da Penha ia descer o cacete nelas", Jaqueline num descompasso legítimo mas nunca compreendido por aquelas pessoas, levantara-se de seu lugar e num só golpe desferira um soco que deixara sua mão com hematomas por dias, bem no meio da cara do professor, que atônito perdera o equilíbrio e numa queda aparentemente tola, mas daquelas que pegam a pessoa de "mal jeito", trincara um osso da costela ao cair no chão.
Foi o pandemônio, as colegas que admiravam o tal professor pularam em Jaqueline, alguns colegas fingiam separar a briga quando na verdade estavam ávidos pela luta corporal das mulheres, e foi a visão que o diabo queria ver, palavrões, chutes, puxões de cabelo, dedo no olho, mordidas e unhas na carne, brigavam enlouquecidas até que dois seguranças finalmente adentraram na sala de aula, levando Jaqueline que fora suspensa e obrigada a trocar de turno, o que a levou a trancar a matricula e perder um semestre inteiro, além de ser processada e condenada a indenizar o professor, pagando todos os gastos médicos do infeliz e uma indenização para a qual teve de pedir mais empréstimos bancários, os intermináveis, era mais um para a coleção.
A única coisa boa em meio a todo aquele inferno viera com a troca para a nova turma, assim conhecera Sofia que também era vista como encrenqueira no curso por defender as causas das mulheres e se colocar 100% a favor das vítimas de violência doméstica e 200% contra os partidos de bancada cristã evangélica.
Afrodescendente por parte de pai e indígena por parte de mãe, dedicava sua vida contra o racismo, a homofobia, o machismo, o preconceito e o descaso aos povos indígenas, então Sofia não se importava se a amizade com Jaqueline lhe rendia piadinhas machistas, comentários debochados e homofóbicos e se pensavam que estavam tendo um caso, ela era auto suficiente, cheia de si e com uma auto estima de fazer inveja a qualquer estrela famosa.
Quando provocada pelos colegas irritantes, a pequena mulher em estatura, mas cujos traços carregavam a força ancestral dos guerreiros, com a cara mais antipática que conseguia fazer, respondia de nariz bem levantado e na ponta dos pés, com as mãos na cintura e olhar de sanguinária destemida:
-Um mulherão da porra igual a Jake? Claro que tô pegando, enquanto vocês babacas ficam aí morrendo de inveja, seus inúteis.
Jaqueline ria-se da amiga feminista e afrontosa que ao mesmo tempo que brigava pelos Direitos das Mulheres como uma guerreira cruel e imbatível, chorava de derreter até com comercial de margarina, amava ler romance, adotava mais gatos que podia ter, colecionava esmaltes, era delicada e sonhava em casar com o príncipe dos sonhos que deveria ser um homem feminista, é claro, porque ela acreditava que em algum lugar do planeta deveriam existir homens livres do machismo, assim a amiga cômica e de alto astral fazia a vida de Jaqueline menos pesada.
-Sonha amiga, sonha que sonhar é de graça! Tá pra nascer homem assim, e vai ser em outro planeta, tá?
- Ah qualé Jake, só porque você tem as suas princesas maravilhosas eu não posso sonhar com os meus príncipes não? Eu einh, eu quero meu homi que beija muito e que seja bonitão, gostosão, tesudo, alto e sensual! Um só não, dois, pra quando enjoar de um ter o outro.
E as duas riam muito, e choravam muito também, e assim sonhavam juntas em abrir uma Ong de proteção às Mulheres e crianças.
Jaqueline e Sofia ao chegar no térreo não conseguiam sequer dar um único passo em direção à porta, tamanha a multidão que se amontoava para ver o que acontecia do lado de fora, os seguranças nervosos e irritados começavam a tratar as pessoas com grosseria e nem estavam mais preocupados se a indelicadeza atingia ao cidadão comum que se encontrava no local ou aos advogados e promotores que tentavam em meio a bagunça entender o que estava acontecendo na porta daquele importante Fórum em meio ao centro da grande cidade de São Paulo.
- Jake, me diz que você não ajudou essas malucas a cometerem essa insanidade. Me diz que você não faz parte disso! Pelo amor de Tupã com Omolu!
-Não sei Sofi, não sei o quanto eu tenho culpa nisso, eu falei tanto em matar esses desgraçados por tanto tempo, eu não sei. Eu sempre apoiei quando alguma delas dizia que mataria o desgraçado do pai abusador dos filhos. Mas era na hora da raiva, sabe? Sofi, na hora da maldita raiva, você sabe que dor que é levar um filho teu Sofi? Você não sabe minha amiga, por mais que você ajude nessa causa, você não sabe a dor que é perder um filho pra um agressor, um estuprador!
- A mãe da Letícia, você está cuidando do caso delas não está? É aquele caso que você me falou, aquele que buscamos ajuda no Ministério Público, que ficamos meses atrás de ajuda até sermos atendidas?
-Não Sofi, esse foi o caso do Murilo, ele foi aquele menino que te contei, levado a força de madrugada pela polícia, entraram na casa derrubando a porta! A mãe e o menino estavam dormindo, levaram a criança em pânico, aos gritos, bateram na mãe, rasgaram a roupa dela, quebraram os móveis da casa da mulher, deixaram a criança apavorada, aos gritos, em pânico total e levaram o pequeno sob força policial! Entregaram o menino nas mãos do pai estuprador, o garotinho contava com detalhes como o pai o estuprava, foi horrível, e mesmo assim o juiz deu inversão de guarda em favor do pai estuprador!
-Ah, lembrei, você estava arrasada, eu lembro agora, você não foi avisada da inversão da guarda, o mandado de busca e apreensão saiu em plena quinta feira às 18h, véspera do feriado! Jake você foi pega de repente, como imaginar que um maldito de um juiz daria inversão de guarda na véspera de um feriado às 18h, quando na sexta feira tudo estaria fechado, feriado nacional, que a inversão de guarda em favor de um pai acusado de abusar do filho seria desta forma? Você não pôde fazer nada para reverter a situação.
-Sofi, tudo e todos estão contra as mães que denunciaram seus ex maridos de violência doméstica ou de abuso sexual contra os filhos, por isso a gente precisa da revogação logo dessa lei da alienação que serve só pra proteger agressor de mulher e pedófilo.
- A gente precisa de uma lei que proíba juízes homens de decidir nestas causas.
-Mas Sofi, tem muita juíza machista, você sabe.
-Eu sei, da pior forma eu sei! Mas Jake, essa criança, a Letícia é qual caso? São tantos, não sei mais quem é quem, não sei como você consegue acompanhar todos! Você conhece cada um com detalhes! Eu não consigo nem lembrar dos nomes, meu Deus, só aqui em São Paulo tem mais de 200 novas vítimas disso aí, desse horror só neste ano!
- A mãe da Letícia denunciou o pai abusador da filha, antes do estupro, ela conseguiu invadir o celular dele e descobriu que o maldito faz parte de um grupo de pais pedófilos que filmam os filhos, estes desgraçados estupram as crianças quando elas completam 12 anos e filmam pro grupo diabólico deles.
Ela denunciou isso e foi acusada de loucura, histeria e alienação. Foi processada por injúria e calúnia. Sofi, me dói demais esse caso porque igual fizeram com a minha menina, a Letícia também foi levada de dentro da escola, com mandado de busca e apreensão, conheci a mãe da Letícia depois disso tudo, quando o caso veio pra mim, lutei com tudo mas mesmo assim só consegui as visitas para a mãe no visitário do Fórum e eu estava tentando as visitas monitoradas em casa para depois lutar pelo direito delas das visitas dos finais de semana, você sabe pra que né Sofi?
-Mana, você ia ajudar esta mãe também a fugir pela fronteira? Ia tirar do bolso de novo pra ajuda-las?
-Lógico que sim! Eu queria que elas fugissem antes que a menina completasse os doze anos e antes que fosse estuprada. Mas a Letícia estava muito revoltada, questionando que o bandido é o pai, que ele se esfregava e se masturbava nela e nenhum juiz acreditava, que ele quem deveria vê-la em visitário de Fórum e nem isso, ou se alguém deveria ser monitorado deveria ser ele e não a mãe. Essa criança disse várias vezes que iria mata-lo. Meu Deus, minha mãe do céu...Sofi, o que é tudo isso?
-Jake, minha amiga, isso é o inferno, o seu, o meu, o dela e de todas nós, mas parece que a morte agora decidiu pegar o diabo, olha aquela bandeira, Jake! Olha!
E as duas amigas olhavam incrédulas uma bandeira e enormes cartazes com a imagem da morte com a foice cravada no diabo, a mesma que Jaqueline havia visto nas misteriosas cartas sem remetente que recebera há algumas semanas, em sua caixa de correio, com a frase em vermelho:
" Querida mamãe, não chore mais, a morte chegou, não apenas para um, mas para todos os diabos malditos"
Continua... Cap 6 A Morte do diabo.

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Esta é uma obra de ficção, o Livro Blog contém 7 livros, sendo que o livro 7 contém 8 contos. O livro 7 trata-se de ficção inspirada em fatos reais, de vítimas reais de diferentes épocas, mas nenhum personagem do livro é real, nenhuma situação vivida pelos personagens realmente ocorreu, infelizmente como existem algozes terríveis no mundo real, se algum fato, situação ou personagem desta obra de ficção remeter à alguma vítima real é apenas uma terrível coincidência.