segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Parte 5 " Jaqueline do 301"O livro das histórias cruéis (continuação da série do Menino do bosque)


                                   
                                             Jaqueline do 301
                                      capítulo 5
                            O livro das histórias cruéis.


Jaqueline apertava o passo tentando manter-se elegante em manobras inúteis pelos corredores do imenso Fórum João Mendes no centro da cidade de São Paulo, o imponente, suntuoso e antigo prédio de 1950 que abriga mais de 500 mil processos e é o maior fórum civil do Brasil, no passado já havia sufocado e roubado a vontade de viver de Jaqueline que agora tentava se equilibrar em passos que de apressados começavam a ensaiar uma corrida  tão elegante quanto de um avestruz em pânico.

Antes que se desse conta, já corria cambaleante sobre os odiosos sapatos de salto alto que ela odiava, mas que ali no papel de advogada, usava. 

Para Jaqueline seria impensável anos atrás usar algo assim tão caro e tão objetificador, criado para identificar as prostitutas nas ruas da Roma antiga e para proteger os pés dos açougueiros do sangue dos animais nos matadouros na fria Europa da Idade Média.

Jaqueline por conhecer a origem os odiava e mais ainda porque era ativista feminista e por isso usava apenas roupas confortáveis que lhe fossem úteis e garantissem seu bem estar, posicionava-se contra toda e qualquer forma de ditadura da beleza feminina, mas nestes recentes últimos anos não se reconhecia cada vez que vestia sua personagem arrogante, frívola, de classe média mas nem tanto assim, cujos sapatos delicados de salto alto com Tailleur, unhas bem feitas e cabelos sedosos e escovados em salão a transformavam numa típica mulher aprisionada pelos padrões ocidentais da beleza feminina elegante, desta forma ela era a  Dra Jake, olhada e admirada, cujos pescoços masculinos faziam manobras nada discretas para devorarem a linda mulher de cabelos negros, longos e encaracolados, com maquiagem impecável, bem vestida e elegante sobre seus belíssimos saltos que modelavam as belíssimas pernas.

Jaqueline  sabia que os devoradores olhares masculinos não ocorriam pelo alto valor ou elegância das peças de seu vestuário, até porque depois de lutar pela guarda da filha havia empobrecido pagando os altos valores cobrados pelos advogados de Direito de família de tal forma que suas roupas só podiam ser adquiridas em brechó ou em suaves prestações a perder de vista, mas fato era que nenhuma mulher bem arrumada de salto alto passaria desapercebida numa sociedade machista onde homens e mulheres só conseguem valorar a mulher por seus status e poder aquisitivo, isso ainda em pleno seculo XXI.

Jaqueline se sentia enojada no início, mas após perceber que este era o jogo e que para ganhá-lo precisava fazer o enfadonho teatro, acabara por tornar-se uma estrela naquilo, pena que não percebera isso a tempo, quando ela era ainda uma jovem estudante de História, lembrava com saudosismo dos tempos de faculdade, de sua mocidade, de sua alegria de viver, do quanto amava o curso e o quanto fora difícil e doloroso trancar a matrícula para ter a bebê, era impossível naquele casamento continuar estudando e criar uma criança, não sem enlouquecer e por acreditar tratar-se de uma fase ruim do marido que tornara-se violento naquela época, para evitar brigas e discussões que culminavam em agressões físicas, pareceu-lhe o melhor a fazer, obedece-lo para ter paz, mas obedecer só por um período, dizia para si mesma tentando enganar-se, só enquanto a criança fosse pequena porque  ela precisava de paz para parir, para amamentar, para cuidar de sua bebê, para ser mãe e para isso, infelizmente, precisava obedecer o marido...

Lamentava-se todos os dias por ter acreditado nisso e pensava no quanto teria sido imensamente mais feliz se tivesse se separado ainda grávida, se tivesse terminado o curso que tanto amava, se tivesse fugido para outro país, mas não, não havia tempo para remoer memórias dolorosas, ali naquele momento precisava manter o foco e assim, a empoderada e dedicada advogada em especial nos emblemáticos casos onde mulheres perdiam a guarda de filhos em situações bizarras, discrepantes em favorecimento ao homem agressor, sendo eles os socorridos pela justiça e tratados como vítimas de ex mulheres  alienadoras, os " papais queridos" segundo as equipes forenses que analisavam as situações de lide por guarda de menores sempre e estranhamente em favorecimento dos pais, independente se tivessem estuprado a mulher na frente dos filhos, se tivessem espancado a mulher na frente das crianças, se tivessem se embebedado e colocado a família em perigo, se tivessem porte de arma e já tivessem ameaçado os familiares da mulher, nada disso importava porque  com o uso da lei de alienação parental como defesa ao genitor, não importava o que o pai tivesse feito de ruim para a mãe das crianças, o pai era sempre o pai e o pai era sempre o " papai querido" e de nada adiantava argumentar em favor às mulheres, as mães que queriam a guarda dos filhos e imploravam pela garantia de suas vidas e a segurança de seus filhos, previstas na Lei Maria da Penha a qual sempre se socorriam, mas cuja proteção lhes era negada em detrimento da lei da alienação parental que visava proteger o pai afastado das crianças, não importava o motivo, eles ganhavam, sempre, ainda que fossem os piores dos agressores, os abusadores sexuais do próprios filhos.

Jaqueline odiava estas equipes das varas de família dos fóruns com toda a força de sua alma  e não tratava-se de ódio ou vingança pessoal por este ou aquele fórum, esta ou aquela determinada equipe, não,  Jaqueline repudiava imensamente a todos porque não eram apenas casos isolados neste ou naquele fórum em específico, era uma epidemia por todo o Brasil, acentuada na região do Rio Grande do Sul e Santa Catarina com situações de desmandos e ações truculentas contra as mulheres agredidas por juízes em meio às audiências, com preocupante aumento de números de descaso das autoridades e inversões de guarda de menores em favor dos genitores abusadores e agressores na região  Sudeste e disseminadas decisões de guarda compartilhada mesmo nos casos com denúncia de estupro do genitor contra as crianças por toda a região Centro -Oeste, Norte e Nordeste, tratava-se de uma cruel e avassaladora epidemia que ocorria desde 2009, primeiro lentamente mas já com casos devastadores e divulgados na grande mídia como o caso da menina Joana, morta pelo pai com requintes de crueldade e tortura após ele ter acusado a mãe da criança de alienação parental e ganhar a guarda unilateral da filha, tirando-a de um lar amoroso para ser morta nas mãos do " papai querido" de forma cruel, admitida por uma lei cruel, de uma (in)justiça cruel.

Jaqueline sentia-se exausta, principalmente quando acompanhava as vítimas e presenciava as psicólogas dos fóruns recebendo os pais, os homens, com largos sorrisos, tapinhas afetuosos no ombro e doces e perturbadoras frases de " boa tarde papaizinho, está com saudade do seu filho não é mesmo?" ou " Ah olá papai querido, sente-se por favor, nós estávamos aqui aguardando pelo senhor com muita felicidade, logo tudo será solucionado" e ainda " Papai querido como está você hoje? Está muito triste, com saudade?"  mas ao referirem-se às mães no entanto, os olhares eram sempre frios, acusatórios, distantes ou muitas vezes inquisitórios, já havia presenciado psicólogos forenses ofendendo as mães, tratando-as com deboche e muito preconceito.

Certa vez, incrédula, presenciara numa audiência um juiz que ria debochadamente, olhando com descaso para a mulher que se socorria da defesa de Jaqueline, não bastassem as risadas debochadas e infames o erudito ainda assustara as duas mulheres intimidando-as ao desferir um soco bruto e inesperado na mesa:

- Vocês mulheres são todas iguais, pensam que eu não sei do que se trata isso, esse circo, eu tenho mulher em casa e sei bem que vocês são atrizes, falam que o pai bate e isso e aquilo pra se vingar deles! São falsas e mentirosas!

Jaqueline lembrava com dor das lágrimas que caíram de forma dolorosa e pesada dos humilhados e sofridos olhos da mulher a quem defendia, era uma vítima de estupro, de cárcere privado e pedia a guarda dos filhos, havia fugido com suas crianças numa madrugada em que o marido que a agredia e a estuprava na frente das crianças estava bêbado, dormindo de forma pesada e esquecera as chaves da casa em cima da mesa.

Jaqueline sabia quanta coragem aquela mulher precisou ter para fugir da violência com os filhos pequenos, para depois tentar um emprego longe dele, pedir o divórcio e seguir com a vida, mas meses depois fora surpreendida com a polícia e o ex marido em sua porta, nas primeiras horas da manhã de um sábado, para levar seus dois filhos à força, com mandado de busca e apreensão assinado por um juiz, aquele mesmo que ali diante delas batia na mesa, espumando ódio contra as duas mulheres, a mãe estava sendo acusada de sequestro dos filhos, era bizarro.

Antes mesmo da defesa argumentar sua tese o olhar dos juízes nas audiências era sempre de ódio, nojo e descaso pelas " mães alienadoras".

- Nada importa, não importa nada! Nós já estamos perdidas nas mãos destes malditos machistas! Malditos! Malditos!-
Jaqueline gritou em voz alta enquanto corria em direção aos elevadores, trazendo para si olhares de incredulidade e desaprovação dos elegantes e  educados colegas da advocacia que pavoneavam-se pelos corredores antes das audiências.
 -Pro diabo seus malditos! Sai da minha frente, tô com pressa! Sai da frente! - disse ao esbarrar num grupo que andava em sua direção em ternos requintados e olhares de abutres- Seus desgraçados! Filhos dum cão, que da Puta maravilhosa esses desgraça não nasceram, esses cria de repolho azedo!

Jaqueline agora corria desesperadamente, pro inferno se estava num dos corredores que levavam às salas de audiência, pensou que sorte a parte contrária ter faltado, mas claro, por ter sido o pai quem faltou, nada aconteceu, o juiz apenas marcou nova data para audiência que fora apenas cancelada.

Se fosse a mãe quem tivesse faltado à audiência...com certeza já teria perdido a guarda dos filhos, mas já que as coisas estavam assim, Jaqueline estava já pensando em voltar para casa quando viu a mensagem no celular avisando que a concentração havia decidido se reunir e protestar em frente ao Fórum, justamente onde ela estava.
 Não lembrava sequer de ter se despedido da mulher a quem defenderia se o macho alfa não tivesse faltado à audiência, quando se deu conta já corria às pressas pelos corredores.

-Malditos! Malditos juízes machistas a culpa é toda de vocês- resmungava enquanto tentava correr naqueles sapatos de salto alto.

Inicialmente os grupos estavam combinando de realizar um grande protesto na Av. Paulista, mas de repente uma das coordenadoras das ações de defesa à Mulher havia avisado a todas que deveriam se concentrar em frente ao Fórum do centro da cidade de SP e que havia um motivo, que poucas conheciam e seria revelado somente no ato, o que poderia ser o motivo daquilo no entanto, Jaqueline não imaginava, até ouvir os gritos das Mulheres do lado de fora do prédio.

Ela não estava acreditando no que ouvia, tentava dizer pra si mesma enquanto corria que estava enganada.

-Pro inferno estes juízes e estes sapatos malditos! - Jaqueline pulando tirava os sapatos, desistindo de qualquer integridade, agora corria já em direção às escadas, nem pensar esperar por aqueles elevadores confusos, demorados e sempre lotados,  iria  pelas escadas mesmo e assim poderia enquanto corria andares  abaixo ligar para a mãe de Letícia.

- Droga! Droga! Atende! Atende! Atende inferno! Pelo amor de Deus atende! Jesus o que está acontecendo!? Maldição!

Jaqueline sentia o coração disparado quase saindo pela boca e não era pela correria apenas, parecia infartar a cada frase que ecoava do tumulto do lado de fora e invadia o fórum com a fúria de mil leoas sem suas crias:

 " -Morte aos pedófilos! Liberdade para Letícia! Letícia, Letícia eu te amo!"

- Não pode ser, não pode ser! Não a Letí...

Não pôde terminar, a voz doce de uma criança mais forte que uma gigante fez Jaqueline parar de repente, derrubando bolsa, sapatos, pasta com documentos e ela própria quase fora ao chão se não tivesse se agarrado ao corrimão, abraçando-o, as lágrimas correndo pela face enquanto ouvia:

"-Meu pai me estuprou! Vocês queriam me devolver pra ele? Eu matei o desgraçado! Me prendam seus malditos!!!! Quem vai ser a próxima criança assassina? A Larissa? A Fernanda? O Murilo? O Joaquim?"

Os gritos que engrossaram a voz da criança sugeriam que tratava-se desta vez de uma multidão.

Jaqueline estranhou mas entendeu imediatamente, de que de meia duzia de gatos pingados que se uniam às manifestações desacreditadas das mães que lutavam contra a lei de alienação parental, desta vez com a terrível novidade de uma criança assassina a multidão se fazia presente.

-Malditos! Malditos! Precisou chegar a isso? Não a Letícia, não você Lê! Não a doce Letícia que eu conheço, não!

Recuperando o ar, em vão enxugou as lágrimas que descontroladamente desciam por seu rosto borrando toda a maquiagem, juntou suas coisas o mais rápido que pôde sem esquecer nenhum documento, nenhuma petição, nenhum dos muitos embargos declaratórios e agravos de instrumento, os preciosos meios jurídicos, as armas estratégicas das quais a Dra Jake se valia para a defesa de suas clientes que eram mais que clientes, eram suas amigas e assim as via mesmo quando em meio as lutas muitas delas tomadas pelo amargor da perda da guarda dos filhos e a revolta pelo descaso das autoridades se desesperavam e agrediam a Jaqueline, de forma injusta e ingrata a acusavam de perder a causa ou de demorar demais para reaver a guarda das crianças, mas Jaqueline se dedicava a cada uma delas como se fosse para si própria e ia contra as regras e todos os princípios, não cobrava pelas causas e cada vez mais se endividava e se tornava empobrecida, mas isso não importava, ganhava seu pão a trancos e barrancos com o dinheiro das quentinhas que fazia, garantidas por um avô, um empresário bem sucedido de classe média alta, muito agradecido após ter a ajuda de Jaqueline para impedir a inversão de guarda da neta ao ex marido da filha, o sentimento de gratidão do avô desesperado pela dor de filha e neta, salvas pela perspicácia e experiência de Jaqueline nas lides processuais por guarda de menor haviam lhe garantido este trabalho honesto de cozinheira de quentinhas na empresa de construções que a possibilitava viver enquanto se dedicava as causas sem depender de pagamento das mães que em sua grande maioria quando buscavam por Jaqueline, já haviam também caído nas mãos de muitos advogados que cobravam preços inatingíveis para reaver a guarda das crianças e que no entanto, nunca conseguiam.

E estas mulheres chegavam à Jaqueline já completamente destruídas, financeira, psicológica, moral e mentalmente.

Se alguém tão dedicado à causas perdidas existisse, esse alguém só poderia ser a Jaqueline que por tantas vezes recebia ameaças de morte e era vista como louca pelos colegas advogados.
 Jaqueline havia perdido a conta das vezes que saíra de madrugada em socorro de vítimas, de quantas mulheres com filhos pequenos havia escondido em sua casa no momento das decisões de inversão de guarda a favor do genitor/agressor, de quantos processos lia e relia devorando-os madrugada a dentro para no dia seguinte, bem cedo, antes de ir aos Fóruns, preparar as 20 quentinhas diárias para aquela empresa de construção e Jaqueline honrava a clientela, era boa demais na cozinha, ela sabia, seu tempero era o melhor e quem provava não deixava de pedir, eram 15 operários mais o patrão e os funcionários do escritório que estavam lhe garantindo o sustento, e ela caprichava por um preço em conta, assim seguia com este ganha pão informal, mas que era um dinheiro que apesar de lhe garantir o básico era insuficiente para quitar todas as dívidas e para as melhorias do carro usado que sempre dava problema e que ela nunca conseguia trocar por um modelo mais novo.
 Já as mães que buscavam socorro na Dra Jake, além de não pagarem pelo trabalho da advogada ativista, tantas vezes dependiam de sua ajuda para o dinheiro da passagem e do lanche nos dias das longas e intermináveis audiências as quais Jaqueline chamava de tortura.

Mas Jaqueline seguia obstinada, após toda sua trajetória de perda, desespero e dor, entrar numa faculdade de Direito, formar-se e advogar contra homens agressores era para ela a entrada do prato principal da esperada vingança que nunca se concretizava e pela qual esperava tão ansiosamente, de um dia ver a maldita lei de alienação parental revogada, aquela da qual o advogado de seu ex marido agressor se valera para levar sua filha, sua amada filha, que não via há 10 anos.

Quanta saudade e amargura em seu coração pesava por estes longos anos que em nada amenizavam a dor, só faziam aumentar, não havia um único dia em que Jaqueline não conversasse mentalmente com sua filha, num exercício doloroso em suas orações diárias pedia pela vida e integridade de seu precioso amor que estava agora já para completar 22 anos. Jaqueline com amargura não entendia porque a filha após completar 16 anos não a procurara, ela poderia ter usado este direito e Jaqueline lutou por ele, para com desgosto saber que a filha não queria mais contato com ela.

Haviam levado Mariana quando estava com 12 anos, numa inversão de guarda repentina e sem nenhum sentido.

Jaqueline lembrava com dor do dia 13, especialmente da sexta feira 13 daquela tarde de novembro de 2009, dia que cravou as unhas no rosto da diretora da escola onde sua filha estudava, a escola que não a avisou que a polícia, com o pai de sua filha, arrogantemente, levara sua menina em meio às atividades escolares, levando-a sob ordem judicial, como se sua filha fosse uma criminosa.  Quando foi buscar sua filha no final do período da aula, ela não estava mais lá, entregaram-lhe apenas a mochila e um " nos desculpe, ela se foi, mas foi com o pai dela né, a gente não podia fazer nada, ele veio com a polícia" 

Jaqueline não lembrava bem se primeiro enfiou as unhas na cara da diretora ou se foi depois que quebrou o nariz da maldita coordenadora que por mais de uma vez já havia destratado sua filha com adjetivos pejorativos e lesbofóbicos.

Jaqueline chorava amargamente todos os dias, pensando em sua amada e linda filha já adolescente, sendo levada na frente dos coleguinhas como se fosse uma criminosa, um troféu de um pai agressor, vitorioso e escoltado por uma polícia que cumpria os desígnios de um juiz que ao invés de protegê-las, as destruía.

Inutilmente o advogado de Jaqueline lutara contra a lei conhecida por LAP, lei de alienação parental, um projeto de lei ameaçador em 2009 e em pleno vigor e força a partir de 2010 por todo o Brasil, com este instrumento, Jaqueline igual a centenas de mães por todo o país, era agora considerada perigosa e alienadora, um monstro que deveria ser afastada da filha.
 De nada adiantara as provas de agressões, as medidas protetivas, a lei Maria da Penha, vídeos de agressão que sofria do ex marido mesmo depois de divorciada, gravações com as ameaças do ex e testemunhas a favor de Jaqueline, tudo parecia  inútil e falar às equipes forenses do Fórum com igualdade era impensável, impossível.

Jaqueline era grosseiramente calada pelas psicólogas que a tratavam com ironia, era acusada de não permitir as visitas do pai à filha em sua casa e de descumprir o direito do pai de levar a filha para a casa dele, era acusada como se fosse a malvada, a louca, a mãe invejosa e vingativa e de nada adiantava dizer que sua preocupação em permitir que a filha dormisse na casa do pai ocorria porque ele era usuário de cocaína e bebia muito e que nas crises tornava-se agressivo e perigoso.
Não adiantava argumentar que ela acreditava que em sua ausência o ex poderia vingar-se na filha, agredindo-a, colocando-a em perigo, eram argumentações inúteis porque nos laudos constava que o homem agredia a mulher mas não era agressivo com a filha...e os laudos a apontavam como homo afetiva...parecia que em casos de lide por guarda de filhos era comum destratar a mulher lésbica ou bissexual, então o " crime" questionado era o relacionamento de Jaqueline com a sua namorada e não se a mulher estava sendo tratada de forma discriminatória e criminosa.
 A  orientação sexual de uma pessoa não deve desmerece-la enquanto mãe ou pai, mas o fato de Jaqueline ter tido relacionamento amoroso com outras mulheres era motivo mais que suficiente para o juiz em plena audiência desmerecê-la enquanto mulher e mãe.
 O advogado dela havia pedido para Jaqueline mentir e de forma alguma admitir ser bissexual, deveriam se prender ao fato de que o ex marido por várias vezes havia batido nela e inclusive a havia esfaqueado na frente da filha, gritando que mataria as duas.

Para o ex marido de Jaqueline, na época do namoro, conquistar uma mulher que namorava outra mulher era uma espécie de trunfo, Jaqueline havia percebido isso e mesmo recebendo inúmeros conselhos de suas amigas, não as ouviu, estava encantada pelo namorado que aparentemente não nutria nenhum preconceito e ele próprio havia admitido também ter se relacionado com outros rapazes, jamais passaria pela cabeça de Jaqueline que justamente ele iria usar de argumentos homofóbicos para tirar-lhe a filha e ainda que não fossem um tradicional casal hetero, já não bastaria ele agredi-la na frente da filha? A criança testemunhar e relatar que presenciava a mãe sendo ameaçada de morte, sendo humilhada, espancada e esfaqueada na frente dela? Isso não era considerado agressão do genitor contra a criança?
 Jaqueline via embasbacada, incrédula e apavorada que a cada denuncia homofóbica contra ela o ex ganhava mais e mais direitos de visita, desrespeitando as medidas protetivas da lei Maria da Penha, até que ele por fim conseguiu a inversão da guarda  quando o advogado de Jaqueline tentou usar os mesmos argumentos dizendo que o pai também mantinha relacionamento homo afetivo com rapazes, e eles foram rechaçados e ela imediatamente acusada de alienação parental e de homofobia.

Então o pai podia usar argumentos homofóbicos para ganhar a guarda da criança, mas a mãe se usasse era punida com a perda, a inversão da guarda  por ser alienadora e homofóbica? 

O que era isso afinal? 

Tudo e todos contra as mulheres, com o ódio aumentado pelas mães lésbicas e bissexuais?

Jaqueline sabia que ela não era a única e com pesar admitia existirem casos ainda mais cruéis de mulheres que eram acusadas de serem " não confiáveis" porque eram lésbicas, de bebês arrancados dos braços das mães logo após o parto ainda dentro das maternidades, tratava-se da corte da justiça da antiguidade, era um pesadelo medieval! 

Agarrada ao corrimão, Jaqueline tremia e chorava, havia perdido toda a compostura, deixara o desespero tomar conta de si diante das lembranças amargas que a invadiam com os gritos das mulheres do lado de fora das paredes do fórum. Os joelhos tremiam e Jaqueline sabia que estava em meio a uma súbita crise de pânico, precisava se acalmar e retomar a personagem " mulher bela e virtuosa da classe média brasileira", ao pensar sobre isso vomitou, transpirava como em meio a uma crise febril.

-Não, não, não posso desmaiar, preciso ir até a Letícia, preciso ficar firme!Fechou os olhos e rezou, nunca havia perdido a fé em Nossa Senhora, agarrava-se à mãe que igual a ela sofria pela cria, os filhos amados gerados nos ventres das mulheres malditas, as que iam contra os machos dominantes, as que eram mães mas não eram virgens, as que eram mães mas não se calavam, as que eram mães mas não admitiam se escravizar sob as ordens do patriarcado, as que eram mães e também namoravam outras mães.
 Buscava em seu coração a imagem de Maria a abraçando, não uma Maria inventada por uma igreja perseguidora e assassina de Mulheres, culpada por caçar na Idade Média com crueldade mulheres grávidas, crianças, idosas, mulheres de todas as idades apenas por serem mulheres, de estuprar e violar seus corpos nos porões da tortura para depois assassina-las nas fogueiras, não.

Jaqueline buscava em seu coração uma mãe Maria Madalena, fugindo com o bebê em seu ventre, fruto de seu grande amor, o Jesus tão querido, tão bondoso, cruelmente torturado e assassinado na cruz, diante de sua mãe, que além dele teve outros filhos, mas que para ser aceita como santa teve de ser inventada pelos hipócritas cristãos como uma virgem submissa, como se o sexo das mulheres não fosse o sagrado que traz luz a terra, como se seu sangue que vem de suas entranhas não fosse o responsável pela vida humana no planeta! Jaqueline odiava o patriarcado e odiava ter se apaixonado um dia por um homem.

O provedor, o macho alfa, o maldito príncipe encantado.

Ainda cambaleante, sentou-se no degrau da escada, precisava se recompor, mas não estava conseguindo, as memórias a tomavam de forma cruel, lúcidas, nítidas e afiadas como a lâmina que a deixara com uma cicatriz que anos depois Jaqueline cobrira com um lindo desenho de penas de pavão em tons de verde que combinavam com seus olhos, o desenho seguia num sensual, longo e doloroso caminho de sua lombar até a cervical e em momentos de angústia sentia a dor da lâmina percorrendo-lhe as costas sob o desenho, junto à um calafrio que trazia lembranças cruéis.

Era noite e mais uma vez o maldito estava bêbado, Jaqueline já havia dado janta, banho e colocado a filha para dormir, o desgraçado além de socá-la, ofendê-la com todo tipo de palavrões esdrúxulos acordando a criança que sempre acordava assustada com as brigas, sem que Jaqueline pudesse se defender, a golpeou pelas costas com a faca da cozinha, num golpe que retalhou suas costas de cima abaixo. Muito ferida, Jaqueline lutara o quanto podia, tentando afastá-lo da criança que ele mostrava querer agredir também e em meio ao pesadelo que vivia, vislumbrou a polícia  derrubando a porta, entrando em seu socorro e num instante milagroso e libertador, aquele homem que tanto a ofendera e agredira , diante de seus olhos estava imobilizado, algemado, preso em flagrante. 

Era um sonho? Ser salva, era um sonho?

Era uma denúncia de violência contra a mulher, era a ação rápida da polícia que cumpria a lei diante de uma ligação telefônica de uma vizinha que se chamava Frida e que num simples ato humano de pedir socorro para a vizinha do 301, lhe havia salvo a vida.

Jaqueline depois de hospitalizada e de muitas cirurgias, carregava consigo a marca da dor, do medo, que mesmo depois de oculta pelas mãos de habilidosa tatuadora que dedicava a vida para tatuar de graça lindos desenhos que ocultavam nos corpos de mulheres agredidas a marca da violência, continuavam sendo cicatrizes eternas que doíam e sangravam, não mais na carne que se cura, mas na alma que nunca esquece.

Mas finalmente conseguia viver e seguir em frente, cuidando de sua amada filha que crescia, foram doces breves dois anos de uma ilusão de paz, até o agressor sair da prisão, até o agressor exigir as visitas.

O agressor que havia retalhado suas costas,
 mas...

mesmo assim,

mesmo assim!

Para a vara de família...

ela era a puta!

ela era a lésbica!

ela era imoral!

ela era alienadora!

ela era a ex vingativa!

E o papai querido sentia saudade,

Ele só queria a guarda da filha.
 Ele queria criar a menina longe de promiscuidade.

Ele não era homofóbico, que calúnia da alienadora!

Ele só estava preocupado com a filha.

Ele de vez em quando bebia, normalmente e arrebentava a mãe da criança na frente dela, mas só porque bebia, afinal, ele era um bom pai de família;

Ele era o pai zeloso da tradicional família cristã brasileira!

E Ele pediu a guarda...

E Ele ganhou!

Jaqueline tentava se recompor quando sentiu uma mão delicada sobre seus cabelos encaracolados que estavam presos à uma presilha discreta da mesma cor dos cabelos negros, virou-se e sentiu um profundo alívio, estava salva, aos prantos afundou o rosto no ombro da amiga, sua única amiga, que em nenhum momento a olhou com nojo ou preconceito, que estava sempre ali lutando com ela e com todas que precisavam, que também advogava na causa das mães e era uma ativista bem barulhenta, daquelas que só de respirar arranjava mil inimigos pela defesa das causas nas quais acreditava e por não poupar ninguém ao "colocar os pingos nos is", não tinha medo de bandido, de juiz, de presidente ou do capeta e sequer tinha "papas na língua", se metia em brigas e confusão para defender os amigos que de verdade nunca foram seus amigos, porque quando precisava de ajuda, estava sempre sozinha, a não ser pela companhia de Jaqueline, sua parceira de fofoca, balada, praia, mandinga e cerveja, eram amigas de faculdade, do mesmo curso de Direito, a única que conversava com Jaqueline.

Sem uma única palavra as duas mulheres se abraçaram, levantaram e seguiram, passo por passo desceram as duas, degrau por degrau, não era a primeira vez que Sofia lhe socorria, com aquela mesma calma, com a mesma cumplicidade e paciência, da sororidade que não vê cor, opção sexual, nem classe econômica, só vê a todas como irmãs.
 Enquanto descia as escadas amparada pela amiga, Jaqueline lembrava das aulas do curso de Direito, onde ninguém em sua turma conversava com ela e os professores a desprezavam, era vista como louca por interromper as aulas de direito civil e de família, o que Jaqueline fazia inicialmente de forma insistente e enfática para alertar, para abrir os olhos dos futuros advogados e de seus professores sobre os equívocos da lei e sobre o que é real e o que é teoria e o quanto a lei da alienação parental não protegia as crianças, principalmente nos casos de violência doméstica e abuso intra familiar.
 Mas não era compreendida e debochavam dela, aos poucos tornava-se na turma uma figura desagradável e irritadiça.

Alguns professores a odiavam e dela debochavam em meio as aulas, propositalmente nas aulas sobre as questões de gênero, com piadas odiosamente machistas, que pasmem, arrancavam risadas inclusive das colegas mulheres, futuras advogadas.

Jaqueline sucumbia, perdia a paciência que já era curta e ia à fúria,  nos três primeiros anos de faculdade Jaqueline discutia, batia boca, saía no braço, literalmente.

Certa vez, após ouvir o odioso professor machista mas amado pelos alunos, dizer às gargalhadas, seguido de risos de praticamente toda a turma que " a Lei Maria da Penha foi inventada por feministas que querem ganhar pensão e o José da Penha ia descer o cacete nelas", Jaqueline num descompasso legítimo mas nunca compreendido por aquelas pessoas, levantara-se de seu lugar e num só golpe desferira um soco que deixara sua mão com hematomas por dias, bem no meio da cara do professor, que atônito perdera o equilíbrio e numa queda aparentemente tola, mas daquelas que pegam a pessoa de "mal jeito", trincara um osso da costela ao cair no chão. 
 Foi o pandemônio, as colegas que admiravam o tal professor pularam em Jaqueline, alguns colegas fingiam separar a briga quando na verdade estavam ávidos pela luta corporal das mulheres, e foi a visão que o diabo queria ver, palavrões, chutes, puxões de cabelo, dedo no olho, mordidas e unhas na carne, brigavam enlouquecidas até que dois seguranças finalmente adentraram na sala de aula, levando Jaqueline que fora suspensa e obrigada a trocar de turno, o que a levou a trancar a matricula e perder um semestre inteiro, além de ser processada e condenada a indenizar o professor, pagando todos os gastos médicos do infeliz e uma indenização para a qual teve de pedir mais empréstimos bancários, os intermináveis, era mais um para a coleção.

A única coisa boa em meio a todo aquele inferno viera com a troca para a nova turma, assim conhecera  Sofia que também era vista como encrenqueira no curso por defender as causas das mulheres e se colocar 100% a favor das vítimas de violência doméstica e 200% contra os partidos de bancada cristã evangélica.

Afrodescendente por parte de pai e indígena por parte de mãe, dedicava sua vida contra o racismo, a homofobia, o machismo, o preconceito e o descaso aos povos indígenas, então Sofia não se importava se a amizade com Jaqueline lhe rendia piadinhas machistas, comentários debochados e homofóbicos e se pensavam que estavam tendo um caso, ela era auto suficiente, cheia de si e com uma auto estima de fazer inveja a qualquer estrela famosa.

Quando provocada pelos colegas irritantes, a pequena mulher em estatura, mas cujos traços carregavam a força ancestral dos guerreiros, com a cara mais antipática que conseguia fazer, respondia de nariz bem levantado e na ponta dos pés, com as mãos na cintura e olhar de sanguinária destemida:

-Um mulherão da porra igual a Jake? Claro que tô pegando, enquanto vocês babacas ficam aí morrendo de inveja, seus inúteis.

Jaqueline ria-se da amiga feminista e afrontosa que ao mesmo tempo que brigava pelos Direitos das Mulheres como uma guerreira cruel e imbatível, chorava de derreter até com comercial de margarina, amava ler romance, adotava mais gatos que podia ter, colecionava esmaltes, era delicada e sonhava em casar com o príncipe dos sonhos que deveria ser um homem feminista, é claro, porque ela acreditava que em algum lugar do planeta deveriam existir homens livres do machismo, assim a amiga cômica e de alto astral  fazia a vida de Jaqueline menos pesada.

-Sonha amiga, sonha que sonhar é de graça! Tá pra nascer homem assim, e vai ser em outro planeta, tá?

- Ah qualé Jake, só porque você tem as suas princesas maravilhosas eu não posso sonhar com os meus príncipes não? Eu einh, eu quero meu homi que beija muito e que seja bonitão, gostosão, tesudo, alto e sensual! Um só não, dois, pra quando enjoar de um ter o outro.

E as duas riam muito, e choravam muito também, e assim sonhavam juntas em abrir uma Ong de proteção às Mulheres e crianças.
 Jaqueline e Sofia ao chegar no térreo não conseguiam sequer dar um único passo em direção à porta, tamanha a multidão que se amontoava para ver o que acontecia do lado de fora, os seguranças nervosos e irritados começavam a tratar as pessoas com grosseria e nem estavam mais preocupados se a indelicadeza atingia ao cidadão comum que se encontrava no local ou aos advogados e promotores que tentavam em meio a bagunça entender o que estava acontecendo na porta daquele importante Fórum em meio ao centro da grande cidade de São Paulo.

- Jake, me diz que você não ajudou essas malucas a cometerem essa insanidade. Me diz que você não faz parte disso! Pelo amor de Tupã com Omolu!

-Não sei Sofi, não sei o quanto eu tenho culpa nisso, eu falei tanto em matar esses desgraçados por tanto tempo, eu não sei. Eu sempre apoiei quando alguma delas dizia que mataria o desgraçado do pai abusador dos filhos. Mas era na hora da raiva, sabe?  Sofi, na hora da maldita raiva, você sabe que dor que é levar um filho teu Sofi? Você não sabe minha amiga, por mais que você ajude nessa causa, você não sabe a dor que é perder um filho pra um agressor, um estuprador!

- A mãe da Letícia, você está cuidando do caso delas não está? É aquele caso que você me falou, aquele que buscamos ajuda no Ministério Público, que ficamos meses atrás de ajuda até sermos atendidas?

-Não Sofi, esse foi o caso do Murilo, ele foi aquele menino que te contei, levado a força  de madrugada pela polícia, entraram na casa derrubando a porta!  A mãe  e o menino estavam dormindo, levaram a criança em pânico, aos gritos, bateram na mãe, rasgaram a roupa dela, quebraram os móveis da casa da mulher, deixaram a criança apavorada, aos gritos, em pânico total e levaram o pequeno sob força policial! Entregaram o menino nas mãos do pai estuprador, o garotinho contava com detalhes como o pai o estuprava, foi horrível, e mesmo assim o juiz deu inversão de guarda em favor do pai estuprador! 

-Ah, lembrei, você estava arrasada, eu lembro agora, você não foi avisada da inversão da guarda, o mandado de busca e apreensão saiu em plena quinta feira às 18h, véspera do feriado! Jake você foi pega de repente, como imaginar que um maldito de um juiz daria inversão de guarda na véspera de um feriado às 18h, quando na sexta feira tudo estaria fechado, feriado nacional, que a inversão de guarda em favor de um pai acusado de abusar do filho seria desta forma? Você não pôde fazer nada para reverter a situação.

-Sofi, tudo e todos estão contra as mães que denunciaram seus ex maridos de violência doméstica ou de abuso sexual contra os filhos, por isso a gente precisa da revogação logo dessa lei da alienação que serve só  pra proteger agressor de mulher e pedófilo.

- A gente precisa de uma lei que proíba juízes homens de decidir nestas causas.

-Mas Sofi, tem muita juíza machista, você sabe.

-Eu sei, da pior forma eu sei! Mas Jake, essa criança, a Letícia é qual caso? São tantos, não sei mais quem é quem, não sei como você consegue acompanhar todos! Você conhece cada um com detalhes! Eu não consigo nem lembrar dos nomes, meu Deus, só aqui em São Paulo tem mais de 200 novas vítimas disso aí, desse horror só neste ano!

- A mãe da Letícia denunciou o pai abusador da filha, antes do estupro, ela conseguiu invadir o celular dele e descobriu que o maldito faz parte de um grupo de pais pedófilos que filmam os filhos, estes desgraçados estupram as crianças quando elas completam 12 anos e filmam pro grupo diabólico deles. 
Ela denunciou isso e foi acusada de loucura, histeria e alienação. Foi processada por injúria e calúnia. Sofi, me dói demais esse caso porque igual fizeram com a minha menina, a Letícia também foi levada de dentro da escola, com mandado de busca e apreensão, conheci a mãe da Letícia depois disso tudo, quando o caso veio pra mim, lutei com tudo mas mesmo assim só consegui as visitas para a mãe no visitário do Fórum e eu estava tentando as visitas monitoradas em casa para depois lutar pelo direito delas das visitas dos finais de semana, você sabe pra que né Sofi?

-Mana, você ia ajudar esta mãe também a fugir pela fronteira? Ia tirar do bolso de novo pra ajuda-las?

-Lógico que sim! Eu queria que elas fugissem antes que a menina completasse os doze anos e antes que fosse estuprada. Mas a Letícia estava muito revoltada, questionando que o bandido é o pai, que ele se esfregava e se masturbava nela e nenhum juiz acreditava, que ele quem deveria vê-la em visitário de Fórum e nem isso, ou se alguém deveria ser monitorado deveria ser ele e não a mãe. Essa criança disse várias vezes que iria mata-lo. Meu Deus, minha mãe do céu...Sofi, o que é tudo isso?

-Jake, minha amiga, isso é o inferno, o seu, o meu, o dela e de todas nós, mas parece que a morte agora decidiu pegar o diabo, olha aquela bandeira, Jake! Olha!

E as duas amigas olhavam incrédulas uma bandeira e enormes cartazes com a imagem da morte com a foice cravada no diabo, a mesma que Jaqueline havia visto nas misteriosas cartas sem remetente que recebera há algumas semanas, em sua caixa de correio, com a frase em vermelho: 

" Querida mamãe, não chore mais, a morte chegou, não apenas para um, mas para todos os diabos malditos" 

Continua... Cap 6 A Morte do diabo.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Livro Blog7 parte4 O livro das histórias cruéis "Querido papai"

                                 "Querido Papai" 
parte 4 do Conto I-continuação de " Luiza" parte 3, " A bruxa" parte 2 e " O menino do bosque" parte 1.

"Querido papai"

.Acredita em mim Juca!

                .Meu nome não é Juca já falei p vc!

.Agora é!               

                 .Que saco menina!
                  Vc tá mentindo!                 
                  Sua mãe louca tb tá mentindo!

.Vc viu Juca, vc viu! 
A gente mostrou tdo pvc ! 
Vc viu os videos! Vc viu!
Para de mentir p vc mesmo! 
Deixa a gente te ajudar! 
Segue meu plano! 
mas isso vc não conta p minha mãe eu te imploro! senao nunca vai dar certo! 
...
...

Juca? 
Juca!
Jucaaaaa 
eu to cheia do desgraçado se esfregando em mim!!!!!!!
eu vou matar ele 
eu vou gravar p todo mundo ver!!!!!!! 
Os filadaputa dos juiz só acredita na gente qdo tem video dos maldito se esfregando na gente ou fazendo mais coisas que eu mato o desgraçado antes dele enfiar aquele pinto gosmento em mim! 
Juca a gente tem que fazer isso juntos! 
Na mesma semana, 
se der no mesmo dia!
Jucaaaaaaa! 
Todos nós!!!!!!!

                   .Se meu pai descobrir qe agente ta se                       falando ele vai fica furioso!

.Não Juca! 
Se ele descobrir ele vai matar vc! 
Acorda! 
Acorda Juca!


-Merda! merda!- gritei enquanto decidia se corria pela janela quebrada, mata à dentro, no corre, do jeito que estava, do jeito que dava ou se descia às pressas ao ateliê para obrigar o verme a ir atrás de mim, lutei para que minhas lembranças não me atrapalhassem ainda mais -Droga! Eu já perdi o controle antes da hora hoje por causa destas malditas lembranças! Mas de hoje não vai passar querido papai! De hoje não vai, afinal, eu estou para completar meus malditos 12 anos não é mesmo? Ou eu já completei? Você ferrou tão fodidamente meus miolos que eu já nem sei mais até isso direito! Meu papaizinho querido, tão bonzinho você, não é mesmo? Você me ama tanto não é mesmo? Me ama tanto que precisa ser um só comigo não é mesmo? Não é isso que você diz seu desgraçado! Fala!

Sem pensar e antes que me desse conta, arremessei contra a figura assustada e cambaleante que tentava se reerguer do chão um não tão grande mas pesado o bastante para terminar de arruinar a face retalhada de estilhaços, sangrenta pelo corte profundo na testa e inchada de chutes recentes do maldito, um vaso que sobrevivera até então ao meu ataque de ira.

-Deus, Deus, meu Deus meu filho o que está acontecendo com você Joaquim?- gritou o verme enquanto tentava se proteger com os braços dos estilhaços do vaso, que não acertara em cheio o rosto, mas machucara ainda mais as mãos, os braços e a cabeça que sangrava cada vez mais com os novos ferimentos.

-Não fale em Deus, seu diabo maldito! Eu...Jesus!- Vi com espanto aquela figura de capuz, surgindo pelo imenso corredor que ligava a sala de jantar aos outros cômodos da imensa casa, meu coração golpeou com tanta força que senti como se saísse de meu peito, igual um alien, aquele do filme que saía do peito das pessoas arrancando costelas, tórax, peito, carne, ossos, pele, tudo junto! Era essa a sensação que eu tinha naquele momento, segurei a emoção, imediatamente controlei o tremor dos joelhos e segurei minha boca para não gritar, eram eles e eu precisava fugir, mas como descobriram? Em pânico pensei sobre a possibilidade de meu pai ter convidado mais alguém naquela noite de lua cheia, era a especial, não era? A noite da lua cheia dos meus doze anos, os malditos doze anos, que ele tão ansiosamente esperava e do qual falava com os pervertidos do grupo dele! E se além do maldito mais alguém observava as câmeras de segurança? A casa era toda rodeada pelas malditas câmeras! Viram quando eu quebrei as janelas? Vieram ajudar o desgraçado? 

Lembrei de minha amiga avisando-me pelo celular, que meu pai não podia sequer imaginar, estava em minha posse desde o dia das Bruxas, presente dela, da minha incrível amiga Bruxa Letícia!

" Se ele descobrir ele vai matar vc!"

-Não hoje!-Disse, mas só para mim mesmo enquanto corria de volta para a sala e dela só tive tempo de pegar a coberta de cima do sofá para nela me proteger e me precipitar pela janela abraçado na almofada do sofá, enorme e resistente o suficiente para impedir de me quebrar ao cair no chão, não parecia tão alto, afinal era apenas um andar acima do térreo, se eu estivesse no andar acima, nos quartos, aí sim seria bem pior, pensei nestas coisas apenas para não chorar diante da dor alucinante que senti ao bater meu braço direito no chão e ser arremessado quicando igual um boneco desengonçado, abraçado no almofadão. Deve ter sido uma queda ridícula mas pelo menos evitou que me quebrasse todo, e apesar da grama sedosa do jardim suavizar a queda, ao levantar senti dor em todos os lugares e mesmo sem conseguir correr, andei o mais rápido que pude até o fim do gramado, onde se iniciava a rua de asfalto que levava para dentro do bosque e que levava para a avenida principal, pensei que felicidade as casas no exterior não se preocuparem com imensas grades e muros e que se fosse no Brasil muito provavelmente não conseguiria fugir! Lá as casas são feitas para impedir a entrada de ladrões mas assim também impedem a fuga dos que precisam fugir! 

-Letícia! Letícia eu estraguei tudo, desculpa Lê!- funguei chorando enquanto tentava correr mancando, envolto no cobertor, não queria perdê-lo, tinha esperança de fugir e sabia que aquele frio sem uma proteção me mataria! 

- Ôooo moleque! - Uma voz feminina que falava rindo, se divertindo às minhas custas me deixou paralisado, devagar me virei para ver quem era, na certeza de que seria morto em seguida- Vai fugir pelo mato pulando igual um saci? No meio da noite vai ser um saci branquelo congelado! Tá doidinho já você né meu? Pira não maninho, tamo junto, tamo junto meu! Ae, pega o meu, toma ae, veste logo moleque, esse é dos bonzão, forradinho e tals, pra usar nesses lugar de friaca dos caralho, paguei mó grana nele einh, depois você me acerta essa dívida ae falous? Ná, suave, suave, não precisa não moleque, tô brincando, é presente! Re cor da ção, háááá e depois se espirulita, mas só vai, vai reto, vai toda vida e não olha pra trás porque hoje aqui, ah menino, hoje aqui os demônio do inferno vão ficar com tanto medo da gente que até satanás vai ajoelhar pra rezar! Pega teu rumo e vaza, ahhhh uia o moleque! Tá de tênis? Tá de jeans? De blusão einh! Olha só, a essa hora? O teu paizinho não achou estranho não que tu ainda não tava de pijama? Háááá, tu achou que ia fazer esculhambação com ele né, né? Sem nóis? Ôôô loco meu, prestenção, ae...primeiro os veterano! Agora some, vaza neném, vai reto, chegou no fim da estrada usa esse celular, prestenção, tá prestando atenção ou tá em choque? Ô ae, se esperta, chegou lá no fim da estrada liga pra esse numero aqui, entendeu? Mas só quando chegar no fim da estrada, entendeu? Meu, se vc ligar antes fudeu todo o esquema moleque! Sai fora vai, vai na fé e só vai!

Saí meio atordoado, meio zonzo, primeiro meio vagaroso, desconfiado. Olhei para trás e vi a moça sorridente que falava toda feliz, se divertindo enquanto me vestia com o casaco dela e apertava o capuz exageradamente em meu pescoço enquanto me enrolava num cachecol lilás de " Little Poney" , andando em direção a casa, ela colocava um capuz, igual ao do homem que eu vira a pouco no corredor e que me fizera fugir desesperadamente, um capuz que jamais esqueceria, vermelho com o desenho da morte segurando uma foice, cravada num demônio.
Não podia sequer imaginar o que aconteceria lá dentro.
Mas entendia que de alguma forma incrível e terrível era o fim do desgraçado.
Andei pela estrada, naquela noite gelada de lua cheia, clara o suficiente para andar por toda a noite em meio ao bosque em direção à avenida principal
"...chegou no fim da estrada, usa esse celular...mas só quando chegar no fim da estrada..." a voz risonha daquela moça, de cabelos negros e encaracolados me lembrava uma voz familiar, um sorriso familiar, só não conseguia lembrar de onde, meu coração parecia ter parado, em choque eu andava, a luz da lua me iluminando o caminho em meio ao bosque.
...
Na casa, atordoado, Henrique vira o filho correndo para a sala, antes que pudesse segui-lo fora atingido pelas costas, violentamente, de um único golpe sentiu suas costas dolorosamente atingidas por algo profundo o suficiente para se saber morto e súbito o bastante para entender que não morrera, mas que ferido para a morte estava sendo levado bruscamente pelo corredor que levava da sala de jantar às escadas que por sua vez levavam ao ateliê que ficava no andar de baixo do casarão de três andares, onde uma sala grande que fazia menção à um hall de entrada exageradamente suntuoso, com tapeçaria indiana, móveis rústicos de mogno maciço com janelas imensas de vidro para a iluminação natural dividiam o andar térreo com um ambiente criado para ser jardim de inverno, salão de festas, adega e sala para criações, onde uma placa banhada à ouro ornamentava a frase " Ateliê do Joaquim e do papai, lugar de ser feliz" dava acesso a uma linda e inocente sala que se assemelhava a uma brinquedoteca projetada para o mais amado dos filhos do mais rico pai, com video game, jogos, muitos brinquedos, TV, poltrona infantil, bichinhos de pelúcia, mesa para desenhar e muitos livros com materiais de pinturas dignos de uma criança rica que possuía sua própria sala de brincar, ao lado, no mesmo ambiente porém mais rústico, telas, suporte de tripé, pincéis e inúmeros quadros de Joaquim brincando, exibidos numa estante repleta de retratos e pinturas, o que demonstrava a admiração e o amor de um pai que se dedicava à arte em homenagem ao filho...mas o que apenas Henrique sabia e o arquiteto que também fazia parte do clube dos " Queridos papais" e recentemente Joaquim após ser alertado pelas bruxas e passar a investigar o pai sem que ele soubesse, era que a estante de livros na verdade tratava-se de uma porta que dava acesso a outra sala, uma que permitiria até mesmo ao mais amador dos video makers realizar produções com qualidade profissional, tamanha era a qualidade das câmeras, computadores e da ilha de edição, favorecidas pelas imensas vidraças que ficavam ocultas por pesadas placas que quando fechadas modificavam completamente o cenário por aparentarem ser parte natural da parede, mas quando abertas pelos trilhos que funcionavam rentes aos chão, ocultando o mecanismo semelhante ao de portas de correr, mostravam imensas vidraças que criavam um cenário iluminado, com manchas que surgiam do jogo da luz da lua sobre as árvores do jardim da casa para dentro da sala. 

Com pavor, Henrique entendeu que não estavam apenas ele e seu filho na casa, alguém o ferira mortalmente e o puxara pelas costas com a força de um adulto, de um homem adulto. Mas quem era? 
O que quer que fosse que estava cravado em suas costas fazendo-o grunhir em dor de agonia não o permitia virar-se. 
Quem era aquela pessoa forte o suficiente para puxa-lo naquela velocidade e facilidade? 
Como conseguira driblar as câmeras de segurança? Porque o alarme não tocara? 
Num instante de pavor observou que o filho ao ferir-se na janela quebrando-a com a cabeça deveria ter acionado o alarme e no entanto isso não acontecera! Percebeu aflito que em outra situação teria imediatamente investigado a falha da segurança, mas que ao ver o filho ferido, sangrando, se desesperou e correndo até ele sequer percebeu este importante detalhe e depois de ele próprio ferir-se com aquela estúpida queda sobre a mesa de vidro, confuso e aflito pelas acusações e a estranha e repentina mudança de comportamento do Joaquim que o haviam deixado absolutamente atordoado, sequer pensou sobre o terrível fato de que algum estranho poderia aproveitar-se para adentrar na casa! 
Seria um ladrão? 
Pior, seria um dos pais daquele grupo infeliz do qual não conseguia se desvencilhar? 
Teriam descoberto que ele enganava a todos nos vídeos com a luz da lua e que nunca havia completado a penetração? 
O que eles queriam? Aqueles lobos sedentos por pequenos meninos, que ele machucasse o próprio filho? Jamais o penetraria antes dos 12 anos, nunca! E jamais o faria sem que Joaquim estivesse sedado o suficiente para nunca se lembrar! 
Teriam descoberto isso? Como? Estariam ali? Estuprariam seu precioso filho? 
Sabia dos casos em que pais tentaram sair do grupo mas foram encontrados mortos e os filhos sequestrados e levados para as " masmorras", as casas para onde levavam as crianças desaparecidas, para servirem sexualmente à todo tipo de pervertido violento e depois serem mortas, estes vídeos chegavam até eles, era um alerta do que aconteceria caso descumprissem as regras! 
Em pânico, pensando no terrível destino do filho, tentou se debater, levantou os braços feridos com dificuldade para tentar arrancar o que estava em suas costas para descobrir com pavor que tratava-se de uma espécie de anzol para pesca de tubarão, a cada tentativa era golpeado na cabeça e a dor o impedia de respirar, a visão já turva ia tornando-se cada vez mais um imenso borrão de sangue, em meio ao sofrimento e desespero lembrou do que o filho a pouco dissera em sua fúria 
" ...Mas de hoje não vai passar querido papai...eu estou para completar meus malditos 12 anos não é mesmo...você ferrou tão fodidamente meus miolos...papaizinho querido, tão bonzinho você, não é mesmo..."  
Com a certeza da morte correndo em suas veias entendeu que Joaquim não estava sozinho, sentiu uma profunda dor no peito e um desespero não pelo que poderia lhe acontecer mas pelo que o filho iria se lembrar, Henrique queria que o filho tivesse suaves e amorosas lembranças de suas carícias, nunca de dor, jamais de dor! 
Desesperou-se em seu cruel e infeliz raciocínio tentando lembrar em que momento poderia ter deixado o filho sozinho e com acesso a telefone, ou internet, o que ele nunca deixava, havia pensado em tudo, em como fazer Luiza parecer louca, em como conquistar o coração e a confiança do filho, em como tornar as carícias prazerosas para ambos sem deixar marcas e jamais machucados, em como preparar o corpo do precioso e lindo filho para ele, mas somente depois dos doze anos! 
Para que fosse exitoso dessa vez, levara o filho para longe, para a casa do bosque, cuidava para que estivesse sempre em sua companhia, e o único lugar que permitira a frequência de Joaquim era o colégio e apenas porque sabia ser absurdamente caro, ser ele o pai mais respeitado entre professores e direção, ter feito generosas doações para a instituição de ensino, tornar-se propositalmente um dos melhores amigos do diretor e ter a certeza de que Joaquim era o único brasileiro matriculado! 
O que poderia ter alertado o filho então? 
Como conseguira se comunicar? 
Deixava o ateliê sempre trancado e quando Joaquim pedia-lhe para brincar lá, ele estava sempre junto!

Seus pensamentos foram interrompidos por mais dor alucinante, agora de seu corpo sendo arremessado escada abaixo, aos tropeções, aos chutes, com violência, precipitando-se ao andar de baixo.
Ao cair dolorosamente ao final da escadaria no hall, manchando toda a tapeçaria indiana com seu sangue que escorria pelas costas, pôde finalmente ver o seu algoz, um homem forte e alto de capuz que rindo o arrastava novamente e a cada tentativa em vão de se defender era ainda mais violentamente golpeado com socos e chutes, com pavor viu que seu algoz conhecia o caminho, possuía a chave do ateliê e sabia usar a porta-estante.
E assim, em meio ao desespero, dor e tentativas em vão de levantar-se e defender-se, Henrique fora arrastado por toda a sala de vídeo, levado pelo ateliê macabro, içado e suspenso como um porco no matadouro por uma corrente no teto, pendurado em agonia se debatendo, as pernas inutilmente tentando alcançar o chão, chorou e implorou misericórdia.
Viu que o algoz conhecia o controle remoto e sabia abrir o mecanismo das janelas, quando a luz da lua cheia adentrou o ambiente sinistramente cruel, banhou com sua claridade um homem cruel de meia idade, em pânico diante da morte cruel, olhando com pavor para um rapaz cruel de 20 anos, forte, alto, que tirava seu capuz para exibir na luz da lua um sorriso cativante, sedutor, amoroso, de um rosto com sobrancelhas grossas e sorridentes, cujos olhos eram da mesma cor do castanho claro, quase cor de mel, do mesmo tom dos olhos de Joaquim e do mesmo tom dos olhos em pânico de Henrique.
A voz do jovem sorrindo em tom suave e carinhoso atravessou o coração de Henrique como se fosse a pior e mais afiada das lâminas:
- Oras, oras, que felicidade vê-lo assim em tão boa saúde, nesta linda noite de lua cheia, oras, vamos, anime-se, não está feliz em me ver, hein? Querido papai!

...Continua

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Livro Blog 7 Parte3 " Luiza", continuação de " A bruxa, parte 2" que é continuação do " Menino do bosque parte1"

                                          Livro 7, parte 3
                                                   Luiza

Parte 3 do Conto I

O quarto era todo um sonho de conto de fadas, com nuvens azuis em paredes lilás, o berço em estilo Provençal quase um desaforo de tão lindo, ao mesmo tempo um absurdo que exibia sem nenhuma vergonha e pura ostentação o seu poder aquisitivo, os móveis para os utensílios do bebê combinavam com o azul e lilás das paredes e nuvens, criando um jogo de cores que ao mesmo tempo era alegre e doce, jovial e sutil de uma escala do azul Royal ao azul Bebê que ornava completamente com os tons de lilás que intercalavam as estruturas das gavetas, portas de armários e detalhes de decoração que só os móveis mais caros do melhor bom gosto conseguem oferecer, o tapete fofo e redondo de bolinhas azuis e brancas convidava a experimenta-lo descalça. Enquanto andava apertando os dedos dos pés afundando-os até não poder vê-los mais, observava que seus pés já estavam gorduchos e estranhos, muito inchados demonstrando que o parto estava próximo, pensava com certa tristeza que mesmo sendo uma atitude "fofa" o Henrique não deveria ter comprado os móveis e mandado decorar o quarto do bebê sem antes falar com ela, pedir sua opinião, tê-la levado junto para escolher, isso a estava deixando de mau humor, mas não queria que ele percebesse, afinal, do que ela poderia reclamar? Qualquer coisa que dissesse seria injusto visto tamanha disposição e alegria do marido desde que soubera que ela estava grávida. E ele era puro carinho, atenção e dedicação para com ela, provavelmente não fizera isso para magoá-la, deixando-a de fora na escolha da decoração do quarto do filho, talvez estivesse preocupado com ela, para poupá-la.


-Henrique é um amor, um amor, que marido maravilhoso, eu deveria estar grata- disse rodopiando no tapete abraçada à um enorme urso de pelúcia da cor das nuvens da parede.


Luiza foi trazida de volta da lembrança bucólica antes de se sentir infeliz e culpada mais uma vez e antes de tentar outra bobagem ao ouvir os gritos de Frida na porta.



-Bruxa, me salvando mais uma vez…que saco! -disse lamentando-se -Já vou mulheeeer- gritou sem hesitar dessa vez, não queria mais presenciar a amiga que era sua vizinha pondo a porta abaixo, e Frida faria isso de novo se acreditasse ser preciso -sossega amiga, tô viva! " Ainda" -sussurrou - mas esta última palavra Frida não pôde ouvir.



Enquanto se arrastava do sofá da sala até a porta sem que a insistente amiga por um único segundo parasse de tocar a campainha e bater a porta ao mesmo tempo -Diabos, que louca, como ela faz isso? -pensou- Luiza olhava a volta sem acreditar que aquele apartamento um dia havia sido seu sonho de felicidade para viver com seu filho, não era nem um pouco parecido com a mansão de onde fugira com Joaquim, mas era seu apartamento que comprara com seu dinheiro, que decorara com seu sacrifício, com o suor de seu trabalho.


Parou antes de abrir a porta e agachou-se junto às pernas da mesa console no pequeno, empoeirado e bagunçado hall de entrada que um dia havia sido um local do qual se orgulhara pela decoração feita por suas próprias mãos cheias de criatividade no estilo Art Noveau, verificou ali próximo ao chão do lado de dentro da perna da mesa uma sequência de desenhos feitos com caneta permanente, que iam da base das pernas do console do lado interno até sua base inteira por dentro.


Ficou imaginando com a dor de um punhal atravessado em seu peito, o filho ali, pequenininho, rabiscando o móvel por baixo dele, narrando em sua linguagem tão sincera os pedidos de socorro que ela não descobriu a tempo.

Como estes desenhos ela não tinha visto antes?

Quantos anos a separavam de seu filho? Seis, sete anos? Ele tinha 5 anos e meio quando o levaram, não o vira mais desde então e há dois anos ela, Frida e a Jaqueline do 301 haviam revirado aquele apartamento incansavelmente em busca de provas - De que adiantava- pensou.

Não importava quantas provas encontrasse, tudo era usado contra ela, estava tão exausta, tão desacreditada, quando foi que de uma design bem sucedida ela havia se tornado uma louca, igual a Jaqueline do 301? Aquela para quem todos os vizinhos viravam a cara, de quem todos cochichavam no condomínio, com quem ninguém conversava e nunca chamava para as festinhas de aniversário, afinal Jaqueline não tinha a guarda da filha...
e que tipo de mulheres perdem a guarda dos filhos não é mesmo?

As putas, as loucas, as viciadas…nunca as de bem, nunca as virtuosas, não as de classe media, não ela…não ela…mas agora ela era uma Jaqueline do 301 também…

Abriu a porta sem sentir que fazia isso, sequer olhou para Frida, apenas abriu a porta para em seguida voltar ao sofá que mais parecia um furdunço de cobertas, lenços, rolos de papel higiênico, pelos de um gato que naquele momento ela lembrara que há dias não alimentava

- Céus o Asdrubal, cadê o gato?- havia perdido ele também? Que lixo de mulher ela havia se tornado! 

Antes que gritasse chamando pelo gato, Frida a segurou pelo braço fazendo-a sentar-se perto dela, onde era possível sentar em meio ao apocalipse do sofá de onde Luiza só se levantava se arrastando para ir ao banheiro.

-Senta ae mulher, se aquieta, teu gato tá na minha casa faz dias, tu nem percebeu! O desgranhido morrendo de fome, as bosta dele naquela caixa de areia que tu não troca há quanto tempo? Toma vergonha mulher! Toma vergonha!


Antes que pudesse xingar e expulsar Frida como já tinha feito outras vezes, ou cair num choro que não acabava nunca, tomou um peteleco estralado na orelha, Frida estava brava, "putassa" como ela dizia com aquele sotaque carregado, meio paulista, meio nordestino, do jeito de quem veio do norte mas passou a vida na capital paulista. 


Daquela vez, Frida estava mesmo muito " putassa"

-Olhe aqui criatura, mas olhe bem aqui no meio de meus olhos e veja se hoje eu tô com peninha de tu? Tô? Tô não! Não né, nada, nadica de nada, tô é com ódio dessa sua plasmacera, tô putassa hoje Luiza, putassa! E nem comece com seu discurso de vítima que eu tô é cheia! Tô cheia!


-Mas Frida, olha o que me aconteceu, eu…

-Cale-se, banhe-se, troque-se e ande, que eu vou junto porque não quero saber de mulher criada fazendo besteira não, ande! Luiza ande! E se apresse que enquanto tu tá aqui na bebedeira e tentando se matar o teu moleque precisa de tu! De todas nós! Vá!

Não adiantava nem tentar qualquer diálogo, quando Frida vinha assim cheia de loucura e esperança era melhor Luiza segui-la e obedecer, pois entendia e sabia que estava sendo salva, mesmo contrariada, mesmo desejando morrer, sabia que não podia, precisava viver por Joaquim e quando desistia sua amiga vinha em seu socorro. 

Muitas vezes era ingrata e grosseira com Frida e se envergonhava por isso, um dia saberia como retribuir, mas não agora, agora estava lutando para se manter em pé. 

Já havia se passado o período em que ela estava cheia de determinação e fé, buscando os melhores advogados, os mais caros, os mais famosos, pagava sem titubear, 20mil, 30mil, 50mil reais para cada um deles, endividando-se , vendendo tudo que tinha, mas sempre cheia de esperança e determinação a cada ação, a cada contestação, a cada audiência…e voltava querendo morrer ao final de cada uma delas.

Havia tentado o suicídio três vezes já. 

A primeira vez quando soube que mesmo em meio a uma lide de guarda de menor o juiz autorizara a saída de Joaquim com o genitor pro Canadá. 

A segunda quando encontrou os desenhos do " segredinho do papai". 

A terceira foi recente, depois daquela reunião do inferno com aquelas outras mães desesperadas da rede de proteção no prédio do Ministério Publico onde fora chamada a participar por convite de uma ativista na causa pela proteção à infância e Frida a acompanhara a seu pedido.

Mas Luiza se amaldiçoava por ter aceito o convite, não dormia, não comia, não se banhava, não existia mais, era a morte em vida e só queria se matar desde aquela reunião onde tantas mães, todas sem a guarda dos filhos, estavam em desespero por descobrirem imagens dos próprios filhos em sites de pedofilia na deep web, sem qualquer solução para os casos, sem sequer uma ação de Polícia Federal específica para aquilo porque tudo corria em segredo de justiça, tudo acontecia com todo cuidado, de forma sigilosa com investigações que não revelavam nenhum detalhe ou pista do paradeiro das crianças, e elas , as mães das vítimas nunca poderiam saber quem eram os policiais investigando o caso, nunca poderiam conhecê-los ou falar com eles e nunca poderiam publicar nem mencionar nada a respeito... 

E quando Luiza em determinado momento, viu a imagem de um menino tão parecido com seu filho, porém mais velho, de costas sob uma luz de lua cheia que criava um ambiente escuro o suficiente para a criança não ser reconhecida mas claro o bastante para se entender o que acontecia, o estupro de uma criança de 9 anos aproximadamente, inerte, sem reação nenhuma, como se estivesse morta, sendo violada por um homem de máscara, com o corpo tão parecido com de seu ex marido, Luiza ao ver e compreender a extrema semelhança do corpo do homem adulto com seu ex marido e a idade aproximada que tinha seu filho então com a vítima no vídeo, entrou em crise de pânico que se seguiu a um surto psicótico e precisou ser levada às pressas ao hospital. Para que a imobilizassem foi necessário a força bruta de três policiais até que a ambulância viesse e a levasse sedada, Luiza estava enfurecida, fora de si, gritava e puxava os próprios cabelos, rasgava a pele de seu rosto com suas unhas, empurrou, mordeu e agrediu com socos violentos quem a tentava impedir de ferir-se, seguiu em seu desespero que era o desespero de uma mãe que descobria a tortura e abuso de seu filho sem nada poder fazer para salvá-lo quebrando os computadores da sala, jogando cadeiras contra a parede, agredindo pessoas que queriam protegê-la e naquele momento só poderiam fazer a única coisa que lhes restara, chorarem juntas com Luiza, por Luiza, por todas elas e por todas aquelas crianças entregues aos genitores abusadores, graças a uma maldita lei, existente só num maldito país, inspirada num maldito psiquiatra, apoiada e mantida por malditos políticos!

Era melhor mesmo se matar, pensava nisso o tempo todo, depois deveria tentar se matar de novo, talvez tentasse ainda, se tivesse cortado os pulsos mais fundo daquela vez e se tivesse …

-Luiza mulher! - foi trazida de volta de seus pensamentos de morte com a Frida segurando seu rosto, a testa grudada na dela, banhada em lágrimas Frida chorava, ainda brava , chorava dolorosamente e era a primeira vez que Luiza a via assim, chorando aos prantos, ficou imóvel ouvindo a amiga


- Luiza pelo amor de Deus, eu sei o que tu teve de ver lá, o que tu deve ter sofrido, o quanto isso te destruiu! Eu vi também Luiza, eu vi, eu fui com tu! Eu não tenho filhos mulé e acho que depois do que vi nunca vou querer ter! Mas eu tenho mãe e sei o amor da véia por mim! Eu sei como era difícil no norte pra ela criar os filhos tudo sozinha e sei o quanto ela alertava a gente pra nunca confiar em homi nenhum na vida, mas agora mais do que nunca sei do que ela falava e sei do que tu deve sentir ai dentro, que deve ser pior que a morte, mas eu te imploro Luiza, pelo menino, pelo teu filho, aguenta Luiza, aguenta! Aguenta viva Luiza pra salvar o Joaquim!

As duas mulheres se abraçaram e choraram juntas, um choro só, uma dor imensa, daquela que trazia em seu peito a sororidade e a vontade de ajudar e daquela que trazia a culpa, a vergonha e o medo de nunca reencontrar o filho com o pavor de este filho crescer igual o genitor: Um pedófilo Um monstro Um demônio Mas não havia tempo para chorar, se o fizessem o fariam no caminho, ou na manifestação.

-Desculpe Frida, eu te coloquei nisso, não devia ter batido na tua porta aquele dia! 

-Ah cale essa boca e tire essa blusa ridícula, olha, coloca essa aqui, é melhorzinha essa aqui ó, eita que tu parece um zumbi, vai se lavar! Lava essa cara e põe desodorante, anda! Mas é banho de xexelenta que não dá tempo de se enfiar em chuveiro não, se lava no corre, filha é na pia mesmo, anda! - Frida gritava as ordens enquanto revirava as gavetas em busca de roupa limpa para Luiza. 

A pressa de Frida não era sem motivo, precisavam correr, em questão de 40 minutos iria se iniciar uma manifestação popular em frente ao Fórum João Mendes no centro de SP, local onde a causa da guarda do filho de Luiza havia sido vencida de forma estranha em favor do pai, a manifestação havia sido anunciada nas redes sociais por ativistas de grupos de combate à violência contra a Mulher, crimes de pedofilia e o mau uso da lei de alienação parental para a defesa de pais pedófilos diante do grande número de denúncias recentes de mulheres que haviam perdido a guarda de seus filhos após denunciaram pais abusadores, tratava-se de uma epidemia, por todo o Brasil, desde a sanção da lei de alienação parental no país, lei que aparentemente deveria proteger as crianças de pais abusivos, mas que era usada para inversão de guarda de menores quando uma denuncia de abuso era feita contra o genitor, e pasmem, era eficaz em favor do abusador.

Luiza sequer fazia parte destes grupos, nem havia tomado conhecimento destes casos, não desconfiava de abuso na época da lide processual pela guarda de Joaquim, mas a lei havia sido usada contra ela para o genitor conseguir o visto internacional, então ela entrara para as estatísticas das centenas de mulheres da cidade de São Paulo vítimas da lei, soube com perplexidade que por todo o Brasil existiam mais de mil mulheres vivendo aquele pesadelo do qual ela contrariada fazia parte. 

Então mesmo que não quisesse sua vida havia se transformado num ir e vir destas manifestações, reuniões, assembleias, ações, notas de repúdio, entrevistas e desespero porque sentia-se morta por dentro e a cada dia mais com menos esperança de reaver a guarda de seu filho.

Saíram aos tropeços as duas, na mais absurda correria, "pega chave do carro", de Frida, porque Luiza já havia vendido o seu para pagar dívida de advogados, "põe o gato pra dentro", da porta de Frida porque o apartamento de Luiza parecia um pardieiro, tão diferente da casa que brilhava de limpeza e arrumação de antes, com móveis e decoração impecável, muitas delas criadas pela própria Luiza, cujo emprego também não tinha mais, cuja profissão estava arruinada! 

Quem iria querer empregá-la depois do que as psicólogas do fórum escreveram nos laudos?

Uma louca! Bipolar! Agressora de filho! Perigosa! Vingativa! Suicida!

Após perder o emprego, acabar com a poupança, vender suas jóias e seu carro, vendeu também o apartamento, felizmente e afortunadamente para a própria mãe, que assim o fez para que a filha tivesse como pagar a indenização do advogado que processava Luiza por calúnia, depois de ter perdido uma ação contra este advogado que Luiza tinha certeza, havia se corrompido e colaborado passando informações do processo para seu ex que sempre dizia sem nenhum medo ou pudor que poderia comprar quem ele bem quisesse com o dinheiro que possuía. 

Então, empobrecida estava vivendo sustentada pela mãe que lhe enviava mensalmente uma mesada…Luiza sentia vergonha e mais vontade ainda de se matar. 

O que ainda não vendera? Só seu corpo que não e provavelmente porque ninguém pediu por isso, senão o teria feito porque uma mãe desesperada teria feito qualquer coisa para resgatar o filho das mãos de um monstro, qualquer coisa, inclusive matá-lo.

Matar Henrique era tudo que Luiza queria, pensou nisso durante todo o percurso, Frida ia cortando caminho, evitando o trânsito insuportável da Francisco Morato, fazia isso percorrendo o bairro do Morumbi, Luiza odiava passar por ali, odiava, o bairro repleto de mansões e casarões onde por três odiosos anos vivera até conseguir fugir naquela noite, a noite do terror! 

-Vamos ficar calmas, me perdoa ter que cortar caminho por aqui, mas calma, vai dar tempo -disse Frida enquanto escolhia uma música para relaxar, e isso significava Samba, Elza Soares e Batuque de roda, nada de música de " chororô de sertanojo" dizia Frida, e eram apenas nestes breves momentos que Luiza ria, um riso meio amargo e desencontrado que logo a levava de volta aos pensamentos e recordações, terríveis recordações.

Luiza achava estranho e eles acabavam sempre brigando porque o marido na maior parte do tempo era ausente, ausente não na casa, ausente na cama, não mostrava interesse sexual nela desde o nascimento de Joaquim. 

Antes era quase um pervertido ela achava, sempre disposto, sempre procurando por ela. 

Irritava muito também que nas poucas vezes que a procurava insistisse tanto no sexo anal, que ela odiava.

Odiava por muitos motivos, Henrique a machucava, não a lubrificava e numa espécie de "tara sádica" queria sempre esconder o rosto dela " não vira pra mim, não vira, não fala, não fala, fica em silencio, não quero ouvir sua voz, mas chorar baixinho igual um bebê você pode meu amor" 

Luiza odiava isso, lhe tirava qualquer tesão, queria sair de baixo dele, interrompia o coito, saía brava e ele ficava furioso. 

Começaram a brigar por causa disso e por outras coisas também. 

Luiza começava a achar que não era penas um amor excessivo de pai extravagante que o impelia a comprar coisas para Joaquim como fizera quando estava grávida, quando ele decorou todo o quarto do bebê sem sua participação, o que a havia magoado muito, mas ele também fazia planos de cinemas, parques, lanches, festinhas com o filho sem a presença dela, SEM A PRESENÇA DELA, passou a acreditar que ele fazia estas coisas para magoá-la de proposito, era ignorada dentro de sua própria casa por seu marido e por seu filho que começava a repetir os gestos grosseiros do pai.

Uma vez Henrique disse na mesa de jantar: 

-Filho, sua mãe é uma bruxa sabia? Agora ela inventou de ir em centro de feitiçaria, garanto como colocou veneno na nossa comida! Vamos cuspir, ecaaa , deve ter macumba nessa comida! 

-Que é isso Henrique, não diga uma coisa dessas pro menino!

-O que você vai fazer lá? Heinh? Perguntar o que pra quem? Vai fazer perguntinha pra santo? Estas coisas são demônios!


-Quem não deve não teme, se você não tem nada pra me esconder, nada será revelado. 


-Não quero que vá, está proibida, não me desobedeça ou vai se ver comigo!

Era o fim da picada, o que este homem arrogante estava pensando? Primeiro era o trabalho, ele queria que ela ficasse em casa, mas em casa o tempo todo, porque nas atividades familiares de recreação e lazer era excluída, depois eram as amigas, implicava com todas, nenhuma prestava, nenhuma era digna o suficiente, nenhuma era de família nobre o bastante, nenhuma era de sua " classe" , depois a religião, quando se conheceram e namoraram ele sabia que ela gostava de ir na Umbanda, que ela se sentia bem nessa fé e ele havia concordado, mesmo sendo evangélico fervoroso o que ela sabia também, mas não via problema nisso, pelo contrário, achava digno um homem ser cristão. 

Ah, se tivesse ouvido sua mãe! E como sua mãe a alertou sobre isso, sobre provavelmente a vida dela virar um inferno depois de casada, que seria muito improvável que ele lhe desse liberdade para trabalhar e ter uma religião diferente da dele. 

Henrique odiava a mãe de Luiza e das poucas vezes que estiveram juntos, eles brigaram.

Henrique havia sido categórico:


-Na minha casa tua mãe não entra, se quer conviver com ela se separe de mim, eu odeio a sua mãe, ela é uma megera insuportável!


Luiza lembrava-se do sofrimento que isso lhe causara e como o afastamento dela e de sua mãe a havia deixado mais frágil nas mãos do crápula e imaginou se a avó pudesse ter convivido com o neto se poderia de alguma forma a ter alertado sobre, mas também pensou que era tão estupidamente apaixonada pelo marido que talvez, nunca tivesse acreditado em suspeitas da mãe e que talvez, teriam brigado. 


-Mãe me perdoe, você implica com tudo que Henrique diz e faz, a gente acaba brigando por sua causa, vamos nos ver só no final do ano está bem? 

Havia partido o coração de sua mãe, lembrava com dor da voz da mãe chorando do outro lado da linha " desculpa filha, eu só quero o seu bem, fica bem tá? E se precisar de mim, de alguma coisa, me fala, se cuida, te amo filha"

Afastou-se tanto que nem ligava mais e não atendia quando a mãe ligava, depois disso apenas uma visita, quando Joaquim estava com dois anos que fora feita na cidade de Balneário Camboriú em Santa Catarina, onde sua mãe morava. 


Mas ela precisava se dedicar a este casamento.

Afinal Henrique era tão amoroso no período do namoro, não entendia como de repente ele poderia ter se transformado em alguém completamente diferente, grosseiro, debochado, estúpido com ela, não era mais aquele homem maravilhoso por quem ela se apaixonara, apesar de que ela reconhecia, havia sido rápido demais, estranhamente rápido demais, enquanto suas amigas reclamavam de relacionamentos que se arrastavam por anos, Henrique se declarou logo que a conheceu, namoraram dois meses apenas e ele e a pediu em casamento em seguida. 

Luiza pensou que se tratava de excentricidade de gente rica e ele se mostrava sempre tão perdidamente apaixonado por ela e isso a deixava encantada! 

Henrique era pura ostentação. 

Sempre o melhor carro, o melhor relógio, as melhores roupas, os melhores e novíssimos calçados. 

A casa um deslumbre no coração das mansões do Morumbi, cercada por câmeras e por seguranças. 

A empresa, uma multinacional da família, herança dele que era filho único, ia de vento em polpa, fazendo muitos negócios com EUA e Canadá. 

Desde que a conhecera a cobria de presentes, jóias, surpresas românticas, jantares inesquecíveis em iates, viagens maravilhosas para Dubai em hotéis de luxo. 

Um dia ao sair do trabalho quase teve um desmaio, Henrique a esperava numa limousine, um tapete vermelho fora estendido até a porta do trabalho, uma empresa de design de utensílios onde Luiza aos poucos ia galgando as escadas do reconhecimento, mas ia bem e com as próprias pernas, aos seus quase 30 anos se orgulhava de já ter quitado sua dívida na faculdade sem a ajuda de sua mãe, comprado seu carro semi novo e de ter pago todas as prestações do pequeno apartamento na região de Vila Sônia, próxima à Francisco Morato em SP e se orgulhava disso, mas a visão daquele homem lindo, alto, elegante, esbanjando saúde e masculinidade em seus plenos 38 anos, solteiro, sedutor, com aquele sorriso de fazer qualquer mulher cair desmaiada, rico até onde ela poderia supor, um magnata, ali esperando-a numa limousine, com tapete vermelho e buquê de flores a fez querer abandonar tudo e todos e ser a princesa encantada do príncipe maravilhoso.

Só não poderia prever que o príncipe na verdade era um sapo dos piores.

Dos cruéis

-Você colocou macumba nessa comida! Te proíbo de voltar naquele lugar, eu sei onde você foi, eu sei tudo que você faz e sei que você levou meu filho junto, bruxa! Isso é comida de terreiro! Você virou uma bruxa detestável, tem veneno aqui, isso é comida envenenada! 

Luiza levantou ofendida, com nó na garganta, quase chorando com as ofensas.

Eram tantas sempre! 

Pensou apenas em retirar-se da sala de jantar, sabia que levar o filho com ela seria inútil e desencadearia mais discussões, então que ficassem os dois ali jantando sem ela, se amavam mesmo, ela estava sobrando e estava magoada, havia passado a tarde toda cuidando dos detalhes da janta que Henrique do trabalho havia mandado o recado, queria uma janta diferente e saborosa, se dizia entendiado do mesmo tipo de comida que ela fazia e queria um jantar bem elaborado, Luiza se odiava por estar aceitando ordens de um marido que mudara tanto a ponto de tratá-la como a uma criada, uma empregada, pior, uma escrava, estava ofendida pela acusação de feitiçaria, ofendida e magoada pela humilhação daquela noite e de tantas outras situações, de abandono, de descaso, de deboches, diários! 

Todo dia, desde que Joaquim era recém nascido, desde que Henrique se transformara num monstro. 

-Henrique não vou discutir na frente do Joaquim, você tem me magoado dia após dia, está insuportável! Eu não sei o que deu em você mas… 

Não pôde terminar.

Henrique engasgava e apertava a própria garganta, os olhos esbugalhados, babando em direção ao filho:

-Socorro Joaquim, sua mãe colocou veneno na comida, socorro filho! Ela quer me matar! Ela é uma bruxa! 

Joaquim começou a gritar histericamente, em pânico, ela tentava acalmar o filho, segurando-o no colo e se afastando do marido que parecia um diabo se arrastando e fazendo garras, imitando as entidades que segundo ele incorporavam nas pessoas na igreja quando o pastor ordenava que saíssem dos seus corpos, ela que nunca acreditou nesse tipo de coisa e achava que se tratava de atores fingindo para causar comoção nos fiéis, via incrédula bem ali na sua frente a pior das cenas de horror de um ator de quinta categoria, mas este infeliz era seu marido, fazendo esta cena de horror na frente da criança que pequena chorava aos prantos, em desespero.

E vendo o filho em desespero, se desesperou também e também começou a gritar, furiosa:

-Que inferno Henrique porque esta fazendo isso? Maldito! Tá engasgando? Então morre de verdade seu ridículo, morre logo! Quero que você morra seu maldito! Morre logo! Morre seu desgraçado! 

Correu para o quarto e trancou a porta por dentro. 
Do lado de fora ele continuava, aos berros:

-Socorro filho, socorro, estou envenenado , socorro!

Joaquim chorava em pânico e tentava se desvincilhar do colo da mãe aos gritos : -Papai, papai, papai! 

Luiza gritava de volta, envolta sem saber na cena de horror propositalmente criada pelo mestre do circo dos horrores que a arrastava para dentro de um pesadelo, mas ela iria sair, jurou pra sim mesmo que faria isso naquela noite mesmo e com Joaquim, não sairia daquela casa sem o filho, não mesmo!

Muitas discussões entre ela e o marido já haviam ocorrido antes daquela noite, muitos pedidos de separação, muito choro, ameaças e muita humilhação. 

Ele dizia depois de xingá-la de vagabunda, puta miserável e bruxa macumbeira: 

"Quer ir? Vai embora! Vai, pode ir, mas como entrou, uma mão na frente e outra atrás, não vai levar nem as roupas que te dei, antes você usava trapos! " 
"Ah, tá chorando sua nojenta? Vai pra casinha da mamãe vai, pode ir, vai agora, mas o Joaquim fica, você sabe que com meu dinheiro eu compro o juiz que bem entender! "
"Vai sair? vai cair fora? Vai viver de quê? De desenhinho de porcariazinha de lixo de bugiganga de lojinha de 1,99? Você não é nada, é uma bosta de mulher!"
"Quer se separar? Vai logo, pode ir, vai logo, você nem mulher é, cheia de coisa, não tenho nenhum tesão em transar com você, só tenho sexo bom fora de casa mesmo, pode ir!"

E uma sequencia de humilhações terríveis, desmerecendo-a como mulher, como mãe, como profissional, dia após dia, haviam lhe minado as forças, a paciência e a lucidez. 

Não era mais a linda mulher de quando o conhecera, estava amarga, sofrida, havia emagrecido tanto que não conseguia nem se reconhecer, os cabelos antes sempre longos e bem cuidados haviam caído aos montes, de tanto estresse e precisou cortá-los bem curtinho, tentava esconder os cabelos brancos que surgiam diariamente com tinta preta e então desistira de manter os cabelos sedosos e com as luzes que antes a deixavam tão jovial, estava definhando há 3 anos e meio naquele casamento que só havia lhe feito feliz até a gravidez, até o nascimento de Joaquim, na volta da maternidade Henrique já havia se transformado, ou se revelado, e somente agora, anos depois ela entendia porque  ele não precisava mais fingir, o predador já havia conseguido seu objetivo, uma parideira da qual ele queria se livrar para ficar a sós com a criança. 

Não a criança dela! 

Mas Luiza se culpava por não ter percebido nada a tempo, não havia ligado as situações onde Henrique levava o filho para tomar banho junto e eram sempre banhos tão demorados com o pequeno Joaquim, as longas idas ao quarto para levar mamadeira que ele fazia questão de levar, mesmo depois que ela já havia amamentado o filho, as viagens a sós que ele fazia questão de fazer com o filho para o sítio no interior nos feriados, e ela se sentia excluída e magoada, mas procurava dizer pra si mesma que Henrique apesar de mau marido, era um pai maravilho, afetuoso e apaixonado pelo filho. 

Sentia que mesmo que se separassem um dia, Henrique jamais abandonaria o filho e o amava mais que tudo, mais que ela, mas tudo bem porque ela também amava o filho mais que tudo, sentia um pouco de inveja com dor de ver que a criança a rejeitava sempre que o pai estava por perto e achava estranho que quando estavam a sós o pequeno Joaquim agia normalmente, procurando a mãe para ganhar colo, para ganhar abraços e beijos dela, mas só quando estavam a sós se comportava como uma criança normal, apesar de ser sempre muito arteiro. 

Luiza já tinha com desgosto percebido sem saber o porquê que o filho quebrava todos os brinquedos que ganhava, destruía os móveis e enfeites da casa de propósito e gritava enfurecido se chamado a atenção, não se lembrava exatamente quando, mas deveria ter sido por volta dos três anos, um pouco antes da encenação do envenenamento no jantar que ela havia recorrido às palmadas, foi a pior coisa que fizera, das palmadas foi pras chineladas e então a criança já a odiava, ainda mais quando o pai chegava a noite, então era um inferno, Joaquim se transformava e virava um pequeno "monstro" ao qual ela estava proibida de chamar a atenção, Luiza entrava em desespero porque Henrique permitia tudo e a desautorizava a educar o filho. 
Se a criança se pendurava na cortina, tudo bem ,se ela dava bronca Henrique brigava com ela na frente do filho, se Joaquim jogasse um vaso no chão, ela não podia chamar a atenção, senão Henrique gritava com ela e começavam a brigar, certa vez Joaquim abaixou as calças e fez xixi nela, Luiza estava vendo TV e só percebeu quando a criança já fazia e ria de pé na guarda do sofá, ela deu uns tapas na bunda do filho dizendo que ele não podia fazer isso, mas foi surpreendida pelo marido que de repente a empurrou com tanta força que a derrubou do sofá onde estava, arremessando-a ao chão com violência, Luiza ficou encolhida no chão, sem ar de tanta dor que sentia com o ombro deslocado, precisaram chamar a ambulância, tamanha a dor que sentia, no corpo e na alma, Henrique claro, mentiu que a esposa havia caído da escada.

Luiza naquele dia entendeu que era o fim mas ainda não se conformava com a realidade cruel.

E naquela noite com Henrique gritando feito um débil do lado de fora da porta do quarto, gritando como um louco que havia sido envenenado ela teve certeza. 

Precisava se separar, mas precisava fugir, ela e o filho corriam risco ali com aquele louco. 

Fugiria por ela e por seu filho que se crescesse ali com o pai, se tornaria como ele, um adulto mimado, mal educado e muito ruim, estranho e louco. Luiza só não sabia o quão louco e de que tipo de loucura cruel era o pai de seu filho acometido.

Uns chamam de doença, outros de crime hediondo.

-Chegamos, oi, ooooi Luiza! Jesus! Mulher vem pra terra! Por favor, fica firme! Nossa Senhora eu sabia que isso ia lotar hoje, mas não imaginava que seria assim, daqui já não dá mais pra seguir, vamos largar o carro em qualquer rua por aqui, olha tem várias emissoras, tão filmando tudo! Dessa vez finalmente as emissoras vieram Luiza! Te falei, hoje isso muda Luiza! Hoje tem que mudar! 
Frida comemorava empolgada enquanto tentava estacionar o carro, em meio a multidão que ia se formando em volta do prédio do Fórum em São Paulo. 

Luiza viu que a rua em torno do prédio estava tomada por mulheres, de todas as cores, de todas as idades, algumas de roxo, muitas com cartazes, os mesmos de sempre que Luiza já conhecia bem, sobre o fim à violência contra a Mulher, gritos de guerra, fim da lei de alienação parental, logos de Ongs de ativistas pela proteção de crianças e de mulheres, frases impactantes com devolvam nossos filhos e mulheres unidas contra a pedofilia, mas então viu um diferente, que ainda não tinha visto, da morte com uma foice cravada num demônio, o cartaz tremeluzia sobre uma garotinha de uns 13 anos no máximo que era erguida num carro de som onde uma faixa dizia " Liberdade pra Letícia, cadeia pra pedófilo" e neste carro de som, com todas aquelas mulheres em volta aos gritos de " Letícia Letícia eu te amo" , " Letícia matou o lobo mau!" e " Juiz que vende laudo é o assassino", estava uma garotinha de pé, do tamanho de uma criança de sua idade mas com a voz de uma gigante, de cabelos bem pretos e lisos, presos num rabo de cavalo com uma fita vermelha, vestida de jeans e camiseta com o mesmo desenho do cartaz , mas na camiseta vermelha cor de sangue a foice da morte cravada no demônio era ainda mais assustadora , a garota dizia num microfone, com a força de mil Bruxas:

-Meu pai me estuprou! Vocês queriam me devolver pra ele? Eu matei o desgraçado! Me prendam seus malditos!!!! Quem vai ser a próxima criança assassina? A Larissa? A Fernanda? O Murilo? O Joaquim?

Luiza sentiu o ar sumir, a vista escureceu, era demais para ela!

Continua...