Livro Blog 7 Parte3 " Luiza", continuação de " A bruxa, parte 2" que é continuação do " Menino do bosque parte1"
Livro 7, parte 3
Luiza
Parte 3 do Conto I
O quarto era todo um sonho de conto de fadas, com nuvens azuis em paredes lilás, o berço em estilo Provençal quase um desaforo de tão lindo, ao mesmo tempo um absurdo que exibia sem nenhuma vergonha e pura ostentação o seu poder aquisitivo, os móveis para os utensílios do bebê combinavam com o azul e lilás das paredes e nuvens, criando um jogo de cores que ao mesmo tempo era alegre e doce, jovial e sutil de uma escala do azul Royal ao azul Bebê que ornava completamente com os tons de lilás que intercalavam as estruturas das gavetas, portas de armários e detalhes de decoração que só os móveis mais caros do melhor bom gosto conseguem oferecer, o tapete fofo e redondo de bolinhas azuis e brancas convidava a experimenta-lo descalça. Enquanto andava apertando os dedos dos pés afundando-os até não poder vê-los mais, observava que seus pés já estavam gorduchos e estranhos, muito inchados demonstrando que o parto estava próximo, pensava com certa tristeza que mesmo sendo uma atitude "fofa" o Henrique não deveria ter comprado os móveis e mandado decorar o quarto do bebê sem antes falar com ela, pedir sua opinião, tê-la levado junto para escolher, isso a estava deixando de mau humor, mas não queria que ele percebesse, afinal, do que ela poderia reclamar? Qualquer coisa que dissesse seria injusto visto tamanha disposição e alegria do marido desde que soubera que ela estava grávida. E ele era puro carinho, atenção e dedicação para com ela, provavelmente não fizera isso para magoá-la, deixando-a de fora na escolha da decoração do quarto do filho, talvez estivesse preocupado com ela, para poupá-la.
-Henrique é um amor, um amor, que marido maravilhoso, eu deveria estar grata- disse rodopiando no tapete abraçada à um enorme urso de pelúcia da cor das nuvens da parede.
Luiza foi trazida de volta da lembrança bucólica antes de se sentir infeliz e culpada mais uma vez e antes de tentar outra bobagem ao ouvir os gritos de Frida na porta.
-Bruxa, me salvando mais uma vez…que saco! -disse lamentando-se -Já vou mulheeeer- gritou sem hesitar dessa vez, não queria mais presenciar a amiga que era sua vizinha pondo a porta abaixo, e Frida faria isso de novo se acreditasse ser preciso -sossega amiga, tô viva! " Ainda" -sussurrou - mas esta última palavra Frida não pôde ouvir.
Enquanto se arrastava do sofá da sala até a porta sem que a insistente amiga por um único segundo parasse de tocar a campainha e bater a porta ao mesmo tempo -Diabos, que louca, como ela faz isso? -pensou- Luiza olhava a volta sem acreditar que aquele apartamento um dia havia sido seu sonho de felicidade para viver com seu filho, não era nem um pouco parecido com a mansão de onde fugira com Joaquim, mas era seu apartamento que comprara com seu dinheiro, que decorara com seu sacrifício, com o suor de seu trabalho.
Parou antes de abrir a porta e agachou-se junto às pernas da mesa console no pequeno, empoeirado e bagunçado hall de entrada que um dia havia sido um local do qual se orgulhara pela decoração feita por suas próprias mãos cheias de criatividade no estilo Art Noveau, verificou ali próximo ao chão do lado de dentro da perna da mesa uma sequência de desenhos feitos com caneta permanente, que iam da base das pernas do console do lado interno até sua base inteira por dentro.
Ficou imaginando com a dor de um punhal atravessado em seu peito, o filho ali, pequenininho, rabiscando o móvel por baixo dele, narrando em sua linguagem tão sincera os pedidos de socorro que ela não descobriu a tempo.
Como estes desenhos ela não tinha visto antes?
Quantos anos a separavam de seu filho? Seis, sete anos? Ele tinha 5 anos e meio quando o levaram, não o vira mais desde então e há dois anos ela, Frida e a Jaqueline do 301 haviam revirado aquele apartamento incansavelmente em busca de provas - De que adiantava- pensou.
Não importava quantas provas encontrasse, tudo era usado contra ela, estava tão exausta, tão desacreditada, quando foi que de uma design bem sucedida ela havia se tornado uma louca, igual a Jaqueline do 301? Aquela para quem todos os vizinhos viravam a cara, de quem todos cochichavam no condomínio, com quem ninguém conversava e nunca chamava para as festinhas de aniversário, afinal Jaqueline não tinha a guarda da filha...
e que tipo de mulheres perdem a guarda dos filhos não é mesmo?
As putas, as loucas, as viciadas…nunca as de bem, nunca as virtuosas, não as de classe media, não ela…não ela…mas agora ela era uma Jaqueline do 301 também…
Abriu a porta sem sentir que fazia isso, sequer olhou para Frida, apenas abriu a porta para em seguida voltar ao sofá que mais parecia um furdunço de cobertas, lenços, rolos de papel higiênico, pelos de um gato que naquele momento ela lembrara que há dias não alimentava
- Céus o Asdrubal, cadê o gato?- havia perdido ele também? Que lixo de mulher ela havia se tornado!
Antes que gritasse chamando pelo gato, Frida a segurou pelo braço fazendo-a sentar-se perto dela, onde era possível sentar em meio ao apocalipse do sofá de onde Luiza só se levantava se arrastando para ir ao banheiro.
-Senta ae mulher, se aquieta, teu gato tá na minha casa faz dias, tu nem percebeu! O desgranhido morrendo de fome, as bosta dele naquela caixa de areia que tu não troca há quanto tempo? Toma vergonha mulher! Toma vergonha!
Antes que pudesse xingar e expulsar Frida como já tinha feito outras vezes, ou cair num choro que não acabava nunca, tomou um peteleco estralado na orelha, Frida estava brava, "putassa" como ela dizia com aquele sotaque carregado, meio paulista, meio nordestino, do jeito de quem veio do norte mas passou a vida na capital paulista.
Daquela vez, Frida estava mesmo muito " putassa"
-Olhe aqui criatura, mas olhe bem aqui no meio de meus olhos e veja se hoje eu tô com peninha de tu? Tô? Tô não! Não né, nada, nadica de nada, tô é com ódio dessa sua plasmacera, tô putassa hoje Luiza, putassa! E nem comece com seu discurso de vítima que eu tô é cheia! Tô cheia!
-Mas Frida, olha o que me aconteceu, eu…
-Cale-se, banhe-se, troque-se e ande, que eu vou junto porque não quero saber de mulher criada fazendo besteira não, ande! Luiza ande! E se apresse que enquanto tu tá aqui na bebedeira e tentando se matar o teu moleque precisa de tu! De todas nós! Vá!
Não adiantava nem tentar qualquer diálogo, quando Frida vinha assim cheia de loucura e esperança era melhor Luiza segui-la e obedecer, pois entendia e sabia que estava sendo salva, mesmo contrariada, mesmo desejando morrer, sabia que não podia, precisava viver por Joaquim e quando desistia sua amiga vinha em seu socorro.
Muitas vezes era ingrata e grosseira com Frida e se envergonhava por isso, um dia saberia como retribuir, mas não agora, agora estava lutando para se manter em pé.
Já havia se passado o período em que ela estava cheia de determinação e fé, buscando os melhores advogados, os mais caros, os mais famosos, pagava sem titubear, 20mil, 30mil, 50mil reais para cada um deles, endividando-se , vendendo tudo que tinha, mas sempre cheia de esperança e determinação a cada ação, a cada contestação, a cada audiência…e voltava querendo morrer ao final de cada uma delas.
Havia tentado o suicídio três vezes já.
A primeira vez quando soube que mesmo em meio a uma lide de guarda de menor o juiz autorizara a saída de Joaquim com o genitor pro Canadá.
A segunda quando encontrou os desenhos do " segredinho do papai".
A terceira foi recente, depois daquela reunião do inferno com aquelas outras mães desesperadas da rede de proteção no prédio do Ministério Publico onde fora chamada a participar por convite de uma ativista na causa pela proteção à infância e Frida a acompanhara a seu pedido.
Mas Luiza se amaldiçoava por ter aceito o convite, não dormia, não comia, não se banhava, não existia mais, era a morte em vida e só queria se matar desde aquela reunião onde tantas mães, todas sem a guarda dos filhos, estavam em desespero por descobrirem imagens dos próprios filhos em sites de pedofilia na deep web, sem qualquer solução para os casos, sem sequer uma ação de Polícia Federal específica para aquilo porque tudo corria em segredo de justiça, tudo acontecia com todo cuidado, de forma sigilosa com investigações que não revelavam nenhum detalhe ou pista do paradeiro das crianças, e elas , as mães das vítimas nunca poderiam saber quem eram os policiais investigando o caso, nunca poderiam conhecê-los ou falar com eles e nunca poderiam publicar nem mencionar nada a respeito...
E quando Luiza em determinado momento, viu a imagem de um menino tão parecido com seu filho, porém mais velho, de costas sob uma luz de lua cheia que criava um ambiente escuro o suficiente para a criança não ser reconhecida mas claro o bastante para se entender o que acontecia, o estupro de uma criança de 9 anos aproximadamente, inerte, sem reação nenhuma, como se estivesse morta, sendo violada por um homem de máscara, com o corpo tão parecido com de seu ex marido, Luiza ao ver e compreender a extrema semelhança do corpo do homem adulto com seu ex marido e a idade aproximada que tinha seu filho então com a vítima no vídeo, entrou em crise de pânico que se seguiu a um surto psicótico e precisou ser levada às pressas ao hospital. Para que a imobilizassem foi necessário a força bruta de três policiais até que a ambulância viesse e a levasse sedada, Luiza estava enfurecida, fora de si, gritava e puxava os próprios cabelos, rasgava a pele de seu rosto com suas unhas, empurrou, mordeu e agrediu com socos violentos quem a tentava impedir de ferir-se, seguiu em seu desespero que era o desespero de uma mãe que descobria a tortura e abuso de seu filho sem nada poder fazer para salvá-lo quebrando os computadores da sala, jogando cadeiras contra a parede, agredindo pessoas que queriam protegê-la e naquele momento só poderiam fazer a única coisa que lhes restara, chorarem juntas com Luiza, por Luiza, por todas elas e por todas aquelas crianças entregues aos genitores abusadores, graças a uma maldita lei, existente só num maldito país, inspirada num maldito psiquiatra, apoiada e mantida por malditos políticos!
Era melhor mesmo se matar, pensava nisso o tempo todo, depois deveria tentar se matar de novo, talvez tentasse ainda, se tivesse cortado os pulsos mais fundo daquela vez e se tivesse …
-Luiza mulher! - foi trazida de volta de seus pensamentos de morte com a Frida segurando seu rosto, a testa grudada na dela, banhada em lágrimas Frida chorava, ainda brava , chorava dolorosamente e era a primeira vez que Luiza a via assim, chorando aos prantos, ficou imóvel ouvindo a amiga
-Olhe aqui criatura, mas olhe bem aqui no meio de meus olhos e veja se hoje eu tô com peninha de tu? Tô? Tô não! Não né, nada, nadica de nada, tô é com ódio dessa sua plasmacera, tô putassa hoje Luiza, putassa! E nem comece com seu discurso de vítima que eu tô é cheia! Tô cheia!
-Mas Frida, olha o que me aconteceu, eu…
-Cale-se, banhe-se, troque-se e ande, que eu vou junto porque não quero saber de mulher criada fazendo besteira não, ande! Luiza ande! E se apresse que enquanto tu tá aqui na bebedeira e tentando se matar o teu moleque precisa de tu! De todas nós! Vá!
Não adiantava nem tentar qualquer diálogo, quando Frida vinha assim cheia de loucura e esperança era melhor Luiza segui-la e obedecer, pois entendia e sabia que estava sendo salva, mesmo contrariada, mesmo desejando morrer, sabia que não podia, precisava viver por Joaquim e quando desistia sua amiga vinha em seu socorro.
Muitas vezes era ingrata e grosseira com Frida e se envergonhava por isso, um dia saberia como retribuir, mas não agora, agora estava lutando para se manter em pé.
Já havia se passado o período em que ela estava cheia de determinação e fé, buscando os melhores advogados, os mais caros, os mais famosos, pagava sem titubear, 20mil, 30mil, 50mil reais para cada um deles, endividando-se , vendendo tudo que tinha, mas sempre cheia de esperança e determinação a cada ação, a cada contestação, a cada audiência…e voltava querendo morrer ao final de cada uma delas.
Havia tentado o suicídio três vezes já.
A primeira vez quando soube que mesmo em meio a uma lide de guarda de menor o juiz autorizara a saída de Joaquim com o genitor pro Canadá.
A segunda quando encontrou os desenhos do " segredinho do papai".
A terceira foi recente, depois daquela reunião do inferno com aquelas outras mães desesperadas da rede de proteção no prédio do Ministério Publico onde fora chamada a participar por convite de uma ativista na causa pela proteção à infância e Frida a acompanhara a seu pedido.
Mas Luiza se amaldiçoava por ter aceito o convite, não dormia, não comia, não se banhava, não existia mais, era a morte em vida e só queria se matar desde aquela reunião onde tantas mães, todas sem a guarda dos filhos, estavam em desespero por descobrirem imagens dos próprios filhos em sites de pedofilia na deep web, sem qualquer solução para os casos, sem sequer uma ação de Polícia Federal específica para aquilo porque tudo corria em segredo de justiça, tudo acontecia com todo cuidado, de forma sigilosa com investigações que não revelavam nenhum detalhe ou pista do paradeiro das crianças, e elas , as mães das vítimas nunca poderiam saber quem eram os policiais investigando o caso, nunca poderiam conhecê-los ou falar com eles e nunca poderiam publicar nem mencionar nada a respeito...
E quando Luiza em determinado momento, viu a imagem de um menino tão parecido com seu filho, porém mais velho, de costas sob uma luz de lua cheia que criava um ambiente escuro o suficiente para a criança não ser reconhecida mas claro o bastante para se entender o que acontecia, o estupro de uma criança de 9 anos aproximadamente, inerte, sem reação nenhuma, como se estivesse morta, sendo violada por um homem de máscara, com o corpo tão parecido com de seu ex marido, Luiza ao ver e compreender a extrema semelhança do corpo do homem adulto com seu ex marido e a idade aproximada que tinha seu filho então com a vítima no vídeo, entrou em crise de pânico que se seguiu a um surto psicótico e precisou ser levada às pressas ao hospital. Para que a imobilizassem foi necessário a força bruta de três policiais até que a ambulância viesse e a levasse sedada, Luiza estava enfurecida, fora de si, gritava e puxava os próprios cabelos, rasgava a pele de seu rosto com suas unhas, empurrou, mordeu e agrediu com socos violentos quem a tentava impedir de ferir-se, seguiu em seu desespero que era o desespero de uma mãe que descobria a tortura e abuso de seu filho sem nada poder fazer para salvá-lo quebrando os computadores da sala, jogando cadeiras contra a parede, agredindo pessoas que queriam protegê-la e naquele momento só poderiam fazer a única coisa que lhes restara, chorarem juntas com Luiza, por Luiza, por todas elas e por todas aquelas crianças entregues aos genitores abusadores, graças a uma maldita lei, existente só num maldito país, inspirada num maldito psiquiatra, apoiada e mantida por malditos políticos!
Era melhor mesmo se matar, pensava nisso o tempo todo, depois deveria tentar se matar de novo, talvez tentasse ainda, se tivesse cortado os pulsos mais fundo daquela vez e se tivesse …
-Luiza mulher! - foi trazida de volta de seus pensamentos de morte com a Frida segurando seu rosto, a testa grudada na dela, banhada em lágrimas Frida chorava, ainda brava , chorava dolorosamente e era a primeira vez que Luiza a via assim, chorando aos prantos, ficou imóvel ouvindo a amiga
- Luiza pelo amor de Deus, eu sei o que tu teve de ver lá, o que tu deve ter sofrido, o quanto isso te destruiu! Eu vi também Luiza, eu vi, eu fui com tu! Eu não tenho filhos mulé e acho que depois do que vi nunca vou querer ter! Mas eu tenho mãe e sei o amor da véia por mim! Eu sei como era difícil no norte pra ela criar os filhos tudo sozinha e sei o quanto ela alertava a gente pra nunca confiar em homi nenhum na vida, mas agora mais do que nunca sei do que ela falava e sei do que tu deve sentir ai dentro, que deve ser pior que a morte, mas eu te imploro Luiza, pelo menino, pelo teu filho, aguenta Luiza, aguenta! Aguenta viva Luiza pra salvar o Joaquim!
As duas mulheres se abraçaram e choraram juntas, um choro só, uma dor imensa, daquela que trazia em seu peito a sororidade e a vontade de ajudar e daquela que trazia a culpa, a vergonha e o medo de nunca reencontrar o filho com o pavor de este filho crescer igual o genitor: Um pedófilo Um monstro Um demônio Mas não havia tempo para chorar, se o fizessem o fariam no caminho, ou na manifestação.
-Desculpe Frida, eu te coloquei nisso, não devia ter batido na tua porta aquele dia!
-Ah cale essa boca e tire essa blusa ridícula, olha, coloca essa aqui, é melhorzinha essa aqui ó, eita que tu parece um zumbi, vai se lavar! Lava essa cara e põe desodorante, anda! Mas é banho de xexelenta que não dá tempo de se enfiar em chuveiro não, se lava no corre, filha é na pia mesmo, anda! - Frida gritava as ordens enquanto revirava as gavetas em busca de roupa limpa para Luiza.
A pressa de Frida não era sem motivo, precisavam correr, em questão de 40 minutos iria se iniciar uma manifestação popular em frente ao Fórum João Mendes no centro de SP, local onde a causa da guarda do filho de Luiza havia sido vencida de forma estranha em favor do pai, a manifestação havia sido anunciada nas redes sociais por ativistas de grupos de combate à violência contra a Mulher, crimes de pedofilia e o mau uso da lei de alienação parental para a defesa de pais pedófilos diante do grande número de denúncias recentes de mulheres que haviam perdido a guarda de seus filhos após denunciaram pais abusadores, tratava-se de uma epidemia, por todo o Brasil, desde a sanção da lei de alienação parental no país, lei que aparentemente deveria proteger as crianças de pais abusivos, mas que era usada para inversão de guarda de menores quando uma denuncia de abuso era feita contra o genitor, e pasmem, era eficaz em favor do abusador.
Luiza sequer fazia parte destes grupos, nem havia tomado conhecimento destes casos, não desconfiava de abuso na época da lide processual pela guarda de Joaquim, mas a lei havia sido usada contra ela para o genitor conseguir o visto internacional, então ela entrara para as estatísticas das centenas de mulheres da cidade de São Paulo vítimas da lei, soube com perplexidade que por todo o Brasil existiam mais de mil mulheres vivendo aquele pesadelo do qual ela contrariada fazia parte.
Então mesmo que não quisesse sua vida havia se transformado num ir e vir destas manifestações, reuniões, assembleias, ações, notas de repúdio, entrevistas e desespero porque sentia-se morta por dentro e a cada dia mais com menos esperança de reaver a guarda de seu filho.
Saíram aos tropeços as duas, na mais absurda correria, "pega chave do carro", de Frida, porque Luiza já havia vendido o seu para pagar dívida de advogados, "põe o gato pra dentro", da porta de Frida porque o apartamento de Luiza parecia um pardieiro, tão diferente da casa que brilhava de limpeza e arrumação de antes, com móveis e decoração impecável, muitas delas criadas pela própria Luiza, cujo emprego também não tinha mais, cuja profissão estava arruinada!
As duas mulheres se abraçaram e choraram juntas, um choro só, uma dor imensa, daquela que trazia em seu peito a sororidade e a vontade de ajudar e daquela que trazia a culpa, a vergonha e o medo de nunca reencontrar o filho com o pavor de este filho crescer igual o genitor: Um pedófilo Um monstro Um demônio Mas não havia tempo para chorar, se o fizessem o fariam no caminho, ou na manifestação.
-Desculpe Frida, eu te coloquei nisso, não devia ter batido na tua porta aquele dia!
-Ah cale essa boca e tire essa blusa ridícula, olha, coloca essa aqui, é melhorzinha essa aqui ó, eita que tu parece um zumbi, vai se lavar! Lava essa cara e põe desodorante, anda! Mas é banho de xexelenta que não dá tempo de se enfiar em chuveiro não, se lava no corre, filha é na pia mesmo, anda! - Frida gritava as ordens enquanto revirava as gavetas em busca de roupa limpa para Luiza.
A pressa de Frida não era sem motivo, precisavam correr, em questão de 40 minutos iria se iniciar uma manifestação popular em frente ao Fórum João Mendes no centro de SP, local onde a causa da guarda do filho de Luiza havia sido vencida de forma estranha em favor do pai, a manifestação havia sido anunciada nas redes sociais por ativistas de grupos de combate à violência contra a Mulher, crimes de pedofilia e o mau uso da lei de alienação parental para a defesa de pais pedófilos diante do grande número de denúncias recentes de mulheres que haviam perdido a guarda de seus filhos após denunciaram pais abusadores, tratava-se de uma epidemia, por todo o Brasil, desde a sanção da lei de alienação parental no país, lei que aparentemente deveria proteger as crianças de pais abusivos, mas que era usada para inversão de guarda de menores quando uma denuncia de abuso era feita contra o genitor, e pasmem, era eficaz em favor do abusador.
Luiza sequer fazia parte destes grupos, nem havia tomado conhecimento destes casos, não desconfiava de abuso na época da lide processual pela guarda de Joaquim, mas a lei havia sido usada contra ela para o genitor conseguir o visto internacional, então ela entrara para as estatísticas das centenas de mulheres da cidade de São Paulo vítimas da lei, soube com perplexidade que por todo o Brasil existiam mais de mil mulheres vivendo aquele pesadelo do qual ela contrariada fazia parte.
Então mesmo que não quisesse sua vida havia se transformado num ir e vir destas manifestações, reuniões, assembleias, ações, notas de repúdio, entrevistas e desespero porque sentia-se morta por dentro e a cada dia mais com menos esperança de reaver a guarda de seu filho.
Saíram aos tropeços as duas, na mais absurda correria, "pega chave do carro", de Frida, porque Luiza já havia vendido o seu para pagar dívida de advogados, "põe o gato pra dentro", da porta de Frida porque o apartamento de Luiza parecia um pardieiro, tão diferente da casa que brilhava de limpeza e arrumação de antes, com móveis e decoração impecável, muitas delas criadas pela própria Luiza, cujo emprego também não tinha mais, cuja profissão estava arruinada!
Quem iria querer empregá-la depois do que as psicólogas do fórum escreveram nos laudos?
Uma louca! Bipolar! Agressora de filho! Perigosa! Vingativa! Suicida!
Após perder o emprego, acabar com a poupança, vender suas jóias e seu carro, vendeu também o apartamento, felizmente e afortunadamente para a própria mãe, que assim o fez para que a filha tivesse como pagar a indenização do advogado que processava Luiza por calúnia, depois de ter perdido uma ação contra este advogado que Luiza tinha certeza, havia se corrompido e colaborado passando informações do processo para seu ex que sempre dizia sem nenhum medo ou pudor que poderia comprar quem ele bem quisesse com o dinheiro que possuía.
Então, empobrecida estava vivendo sustentada pela mãe que lhe enviava mensalmente uma mesada…Luiza sentia vergonha e mais vontade ainda de se matar.
O que ainda não vendera? Só seu corpo que não e provavelmente porque ninguém pediu por isso, senão o teria feito porque uma mãe desesperada teria feito qualquer coisa para resgatar o filho das mãos de um monstro, qualquer coisa, inclusive matá-lo.
Matar Henrique era tudo que Luiza queria, pensou nisso durante todo o percurso, Frida ia cortando caminho, evitando o trânsito insuportável da Francisco Morato, fazia isso percorrendo o bairro do Morumbi, Luiza odiava passar por ali, odiava, o bairro repleto de mansões e casarões onde por três odiosos anos vivera até conseguir fugir naquela noite, a noite do terror!
-Vamos ficar calmas, me perdoa ter que cortar caminho por aqui, mas calma, vai dar tempo -disse Frida enquanto escolhia uma música para relaxar, e isso significava Samba, Elza Soares e Batuque de roda, nada de música de " chororô de sertanojo" dizia Frida, e eram apenas nestes breves momentos que Luiza ria, um riso meio amargo e desencontrado que logo a levava de volta aos pensamentos e recordações, terríveis recordações.
Luiza achava estranho e eles acabavam sempre brigando porque o marido na maior parte do tempo era ausente, ausente não na casa, ausente na cama, não mostrava interesse sexual nela desde o nascimento de Joaquim.
Antes era quase um pervertido ela achava, sempre disposto, sempre procurando por ela.
Irritava muito também que nas poucas vezes que a procurava insistisse tanto no sexo anal, que ela odiava.
Odiava por muitos motivos, Henrique a machucava, não a lubrificava e numa espécie de "tara sádica" queria sempre esconder o rosto dela " não vira pra mim, não vira, não fala, não fala, fica em silencio, não quero ouvir sua voz, mas chorar baixinho igual um bebê você pode meu amor"
Luiza odiava isso, lhe tirava qualquer tesão, queria sair de baixo dele, interrompia o coito, saía brava e ele ficava furioso.
Começaram a brigar por causa disso e por outras coisas também.
Luiza começava a achar que não era penas um amor excessivo de pai extravagante que o impelia a comprar coisas para Joaquim como fizera quando estava grávida, quando ele decorou todo o quarto do bebê sem sua participação, o que a havia magoado muito, mas ele também fazia planos de cinemas, parques, lanches, festinhas com o filho sem a presença dela, SEM A PRESENÇA DELA, passou a acreditar que ele fazia estas coisas para magoá-la de proposito, era ignorada dentro de sua própria casa por seu marido e por seu filho que começava a repetir os gestos grosseiros do pai.
Uma vez Henrique disse na mesa de jantar:
-Filho, sua mãe é uma bruxa sabia? Agora ela inventou de ir em centro de feitiçaria, garanto como colocou veneno na nossa comida! Vamos cuspir, ecaaa , deve ter macumba nessa comida!
-Que é isso Henrique, não diga uma coisa dessas pro menino!
-O que você vai fazer lá? Heinh? Perguntar o que pra quem? Vai fazer perguntinha pra santo? Estas coisas são demônios!
-Quem não deve não teme, se você não tem nada pra me esconder, nada será revelado.
-Não quero que vá, está proibida, não me desobedeça ou vai se ver comigo!
Era o fim da picada, o que este homem arrogante estava pensando? Primeiro era o trabalho, ele queria que ela ficasse em casa, mas em casa o tempo todo, porque nas atividades familiares de recreação e lazer era excluída, depois eram as amigas, implicava com todas, nenhuma prestava, nenhuma era digna o suficiente, nenhuma era de família nobre o bastante, nenhuma era de sua " classe" , depois a religião, quando se conheceram e namoraram ele sabia que ela gostava de ir na Umbanda, que ela se sentia bem nessa fé e ele havia concordado, mesmo sendo evangélico fervoroso o que ela sabia também, mas não via problema nisso, pelo contrário, achava digno um homem ser cristão.
Ah, se tivesse ouvido sua mãe! E como sua mãe a alertou sobre isso, sobre provavelmente a vida dela virar um inferno depois de casada, que seria muito improvável que ele lhe desse liberdade para trabalhar e ter uma religião diferente da dele.
Henrique odiava a mãe de Luiza e das poucas vezes que estiveram juntos, eles brigaram.
Henrique havia sido categórico:
-Na minha casa tua mãe não entra, se quer conviver com ela se separe de mim, eu odeio a sua mãe, ela é uma megera insuportável!
Luiza lembrava-se do sofrimento que isso lhe causara e como o afastamento dela e de sua mãe a havia deixado mais frágil nas mãos do crápula e imaginou se a avó pudesse ter convivido com o neto se poderia de alguma forma a ter alertado sobre, mas também pensou que era tão estupidamente apaixonada pelo marido que talvez, nunca tivesse acreditado em suspeitas da mãe e que talvez, teriam brigado.
-Mãe me perdoe, você implica com tudo que Henrique diz e faz, a gente acaba brigando por sua causa, vamos nos ver só no final do ano está bem?
Havia partido o coração de sua mãe, lembrava com dor da voz da mãe chorando do outro lado da linha " desculpa filha, eu só quero o seu bem, fica bem tá? E se precisar de mim, de alguma coisa, me fala, se cuida, te amo filha"
Afastou-se tanto que nem ligava mais e não atendia quando a mãe ligava, depois disso apenas uma visita, quando Joaquim estava com dois anos que fora feita na cidade de Balneário Camboriú em Santa Catarina, onde sua mãe morava.
Mas ela precisava se dedicar a este casamento.
Afinal Henrique era tão amoroso no período do namoro, não entendia como de repente ele poderia ter se transformado em alguém completamente diferente, grosseiro, debochado, estúpido com ela, não era mais aquele homem maravilhoso por quem ela se apaixonara, apesar de que ela reconhecia, havia sido rápido demais, estranhamente rápido demais, enquanto suas amigas reclamavam de relacionamentos que se arrastavam por anos, Henrique se declarou logo que a conheceu, namoraram dois meses apenas e ele e a pediu em casamento em seguida.
Luiza pensou que se tratava de excentricidade de gente rica e ele se mostrava sempre tão perdidamente apaixonado por ela e isso a deixava encantada!
Henrique era pura ostentação.
Sempre o melhor carro, o melhor relógio, as melhores roupas, os melhores e novíssimos calçados.
A casa um deslumbre no coração das mansões do Morumbi, cercada por câmeras e por seguranças.
A empresa, uma multinacional da família, herança dele que era filho único, ia de vento em polpa, fazendo muitos negócios com EUA e Canadá.
Desde que a conhecera a cobria de presentes, jóias, surpresas românticas, jantares inesquecíveis em iates, viagens maravilhosas para Dubai em hotéis de luxo.
Um dia ao sair do trabalho quase teve um desmaio, Henrique a esperava numa limousine, um tapete vermelho fora estendido até a porta do trabalho, uma empresa de design de utensílios onde Luiza aos poucos ia galgando as escadas do reconhecimento, mas ia bem e com as próprias pernas, aos seus quase 30 anos se orgulhava de já ter quitado sua dívida na faculdade sem a ajuda de sua mãe, comprado seu carro semi novo e de ter pago todas as prestações do pequeno apartamento na região de Vila Sônia, próxima à Francisco Morato em SP e se orgulhava disso, mas a visão daquele homem lindo, alto, elegante, esbanjando saúde e masculinidade em seus plenos 38 anos, solteiro, sedutor, com aquele sorriso de fazer qualquer mulher cair desmaiada, rico até onde ela poderia supor, um magnata, ali esperando-a numa limousine, com tapete vermelho e buquê de flores a fez querer abandonar tudo e todos e ser a princesa encantada do príncipe maravilhoso.
Só não poderia prever que o príncipe na verdade era um sapo dos piores.
Dos cruéis
-Você colocou macumba nessa comida! Te proíbo de voltar naquele lugar, eu sei onde você foi, eu sei tudo que você faz e sei que você levou meu filho junto, bruxa! Isso é comida de terreiro! Você virou uma bruxa detestável, tem veneno aqui, isso é comida envenenada!
Luiza levantou ofendida, com nó na garganta, quase chorando com as ofensas.
Eram tantas sempre!
Pensou apenas em retirar-se da sala de jantar, sabia que levar o filho com ela seria inútil e desencadearia mais discussões, então que ficassem os dois ali jantando sem ela, se amavam mesmo, ela estava sobrando e estava magoada, havia passado a tarde toda cuidando dos detalhes da janta que Henrique do trabalho havia mandado o recado, queria uma janta diferente e saborosa, se dizia entendiado do mesmo tipo de comida que ela fazia e queria um jantar bem elaborado, Luiza se odiava por estar aceitando ordens de um marido que mudara tanto a ponto de tratá-la como a uma criada, uma empregada, pior, uma escrava, estava ofendida pela acusação de feitiçaria, ofendida e magoada pela humilhação daquela noite e de tantas outras situações, de abandono, de descaso, de deboches, diários!
Todo dia, desde que Joaquim era recém nascido, desde que Henrique se transformara num monstro.
-Henrique não vou discutir na frente do Joaquim, você tem me magoado dia após dia, está insuportável! Eu não sei o que deu em você mas…
Não pôde terminar.
Henrique engasgava e apertava a própria garganta, os olhos esbugalhados, babando em direção ao filho:
-Socorro Joaquim, sua mãe colocou veneno na comida, socorro filho! Ela quer me matar! Ela é uma bruxa!
Joaquim começou a gritar histericamente, em pânico, ela tentava acalmar o filho, segurando-o no colo e se afastando do marido que parecia um diabo se arrastando e fazendo garras, imitando as entidades que segundo ele incorporavam nas pessoas na igreja quando o pastor ordenava que saíssem dos seus corpos, ela que nunca acreditou nesse tipo de coisa e achava que se tratava de atores fingindo para causar comoção nos fiéis, via incrédula bem ali na sua frente a pior das cenas de horror de um ator de quinta categoria, mas este infeliz era seu marido, fazendo esta cena de horror na frente da criança que pequena chorava aos prantos, em desespero.
E vendo o filho em desespero, se desesperou também e também começou a gritar, furiosa:
-Que inferno Henrique porque esta fazendo isso? Maldito! Tá engasgando? Então morre de verdade seu ridículo, morre logo! Quero que você morra seu maldito! Morre logo! Morre seu desgraçado!
Correu para o quarto e trancou a porta por dentro.
Do lado de fora ele continuava, aos berros:
-Socorro filho, socorro, estou envenenado , socorro!
Joaquim chorava em pânico e tentava se desvincilhar do colo da mãe aos gritos : -Papai, papai, papai!
Luiza gritava de volta, envolta sem saber na cena de horror propositalmente criada pelo mestre do circo dos horrores que a arrastava para dentro de um pesadelo, mas ela iria sair, jurou pra sim mesmo que faria isso naquela noite mesmo e com Joaquim, não sairia daquela casa sem o filho, não mesmo!
Muitas discussões entre ela e o marido já haviam ocorrido antes daquela noite, muitos pedidos de separação, muito choro, ameaças e muita humilhação.
Ele dizia depois de xingá-la de vagabunda, puta miserável e bruxa macumbeira:
"Quer ir? Vai embora! Vai, pode ir, mas como entrou, uma mão na frente e outra atrás, não vai levar nem as roupas que te dei, antes você usava trapos! "
"Ah, tá chorando sua nojenta? Vai pra casinha da mamãe vai, pode ir, vai agora, mas o Joaquim fica, você sabe que com meu dinheiro eu compro o juiz que bem entender! "
"Vai sair? vai cair fora? Vai viver de quê? De desenhinho de porcariazinha de lixo de bugiganga de lojinha de 1,99? Você não é nada, é uma bosta de mulher!"
"Quer se separar? Vai logo, pode ir, vai logo, você nem mulher é, cheia de coisa, não tenho nenhum tesão em transar com você, só tenho sexo bom fora de casa mesmo, pode ir!"
E uma sequencia de humilhações terríveis, desmerecendo-a como mulher, como mãe, como profissional, dia após dia, haviam lhe minado as forças, a paciência e a lucidez.
Não era mais a linda mulher de quando o conhecera, estava amarga, sofrida, havia emagrecido tanto que não conseguia nem se reconhecer, os cabelos antes sempre longos e bem cuidados haviam caído aos montes, de tanto estresse e precisou cortá-los bem curtinho, tentava esconder os cabelos brancos que surgiam diariamente com tinta preta e então desistira de manter os cabelos sedosos e com as luzes que antes a deixavam tão jovial, estava definhando há 3 anos e meio naquele casamento que só havia lhe feito feliz até a gravidez, até o nascimento de Joaquim, na volta da maternidade Henrique já havia se transformado, ou se revelado, e somente agora, anos depois ela entendia porque ele não precisava mais fingir, o predador já havia conseguido seu objetivo, uma parideira da qual ele queria se livrar para ficar a sós com a criança.
Não a criança dela!
Mas Luiza se culpava por não ter percebido nada a tempo, não havia ligado as situações onde Henrique levava o filho para tomar banho junto e eram sempre banhos tão demorados com o pequeno Joaquim, as longas idas ao quarto para levar mamadeira que ele fazia questão de levar, mesmo depois que ela já havia amamentado o filho, as viagens a sós que ele fazia questão de fazer com o filho para o sítio no interior nos feriados, e ela se sentia excluída e magoada, mas procurava dizer pra si mesma que Henrique apesar de mau marido, era um pai maravilho, afetuoso e apaixonado pelo filho.
Sentia que mesmo que se separassem um dia, Henrique jamais abandonaria o filho e o amava mais que tudo, mais que ela, mas tudo bem porque ela também amava o filho mais que tudo, sentia um pouco de inveja com dor de ver que a criança a rejeitava sempre que o pai estava por perto e achava estranho que quando estavam a sós o pequeno Joaquim agia normalmente, procurando a mãe para ganhar colo, para ganhar abraços e beijos dela, mas só quando estavam a sós se comportava como uma criança normal, apesar de ser sempre muito arteiro.
Luiza já tinha com desgosto percebido sem saber o porquê que o filho quebrava todos os brinquedos que ganhava, destruía os móveis e enfeites da casa de propósito e gritava enfurecido se chamado a atenção, não se lembrava exatamente quando, mas deveria ter sido por volta dos três anos, um pouco antes da encenação do envenenamento no jantar que ela havia recorrido às palmadas, foi a pior coisa que fizera, das palmadas foi pras chineladas e então a criança já a odiava, ainda mais quando o pai chegava a noite, então era um inferno, Joaquim se transformava e virava um pequeno "monstro" ao qual ela estava proibida de chamar a atenção, Luiza entrava em desespero porque Henrique permitia tudo e a desautorizava a educar o filho.
Se a criança se pendurava na cortina, tudo bem ,se ela dava bronca Henrique brigava com ela na frente do filho, se Joaquim jogasse um vaso no chão, ela não podia chamar a atenção, senão Henrique gritava com ela e começavam a brigar, certa vez Joaquim abaixou as calças e fez xixi nela, Luiza estava vendo TV e só percebeu quando a criança já fazia e ria de pé na guarda do sofá, ela deu uns tapas na bunda do filho dizendo que ele não podia fazer isso, mas foi surpreendida pelo marido que de repente a empurrou com tanta força que a derrubou do sofá onde estava, arremessando-a ao chão com violência, Luiza ficou encolhida no chão, sem ar de tanta dor que sentia com o ombro deslocado, precisaram chamar a ambulância, tamanha a dor que sentia, no corpo e na alma, Henrique claro, mentiu que a esposa havia caído da escada.
Luiza naquele dia entendeu que era o fim mas ainda não se conformava com a realidade cruel.
E naquela noite com Henrique gritando feito um débil do lado de fora da porta do quarto, gritando como um louco que havia sido envenenado ela teve certeza.
Precisava se separar, mas precisava fugir, ela e o filho corriam risco ali com aquele louco.
Fugiria por ela e por seu filho que se crescesse ali com o pai, se tornaria como ele, um adulto mimado, mal educado e muito ruim, estranho e louco. Luiza só não sabia o quão louco e de que tipo de loucura cruel era o pai de seu filho acometido.
Uns chamam de doença, outros de crime hediondo.
-Chegamos, oi, ooooi Luiza! Jesus! Mulher vem pra terra! Por favor, fica firme! Nossa Senhora eu sabia que isso ia lotar hoje, mas não imaginava que seria assim, daqui já não dá mais pra seguir, vamos largar o carro em qualquer rua por aqui, olha tem várias emissoras, tão filmando tudo! Dessa vez finalmente as emissoras vieram Luiza! Te falei, hoje isso muda Luiza! Hoje tem que mudar!
Frida comemorava empolgada enquanto tentava estacionar o carro, em meio a multidão que ia se formando em volta do prédio do Fórum em São Paulo.
Luiza viu que a rua em torno do prédio estava tomada por mulheres, de todas as cores, de todas as idades, algumas de roxo, muitas com cartazes, os mesmos de sempre que Luiza já conhecia bem, sobre o fim à violência contra a Mulher, gritos de guerra, fim da lei de alienação parental, logos de Ongs de ativistas pela proteção de crianças e de mulheres, frases impactantes com devolvam nossos filhos e mulheres unidas contra a pedofilia, mas então viu um diferente, que ainda não tinha visto, da morte com uma foice cravada num demônio, o cartaz tremeluzia sobre uma garotinha de uns 13 anos no máximo que era erguida num carro de som onde uma faixa dizia " Liberdade pra Letícia, cadeia pra pedófilo" e neste carro de som, com todas aquelas mulheres em volta aos gritos de " Letícia Letícia eu te amo" , " Letícia matou o lobo mau!" e " Juiz que vende laudo é o assassino", estava uma garotinha de pé, do tamanho de uma criança de sua idade mas com a voz de uma gigante, de cabelos bem pretos e lisos, presos num rabo de cavalo com uma fita vermelha, vestida de jeans e camiseta com o mesmo desenho do cartaz , mas na camiseta vermelha cor de sangue a foice da morte cravada no demônio era ainda mais assustadora , a garota dizia num microfone, com a força de mil Bruxas:
-Meu pai me estuprou! Vocês queriam me devolver pra ele? Eu matei o desgraçado! Me prendam seus malditos!!!! Quem vai ser a próxima criança assassina? A Larissa? A Fernanda? O Murilo? O Joaquim?
Luiza sentiu o ar sumir, a vista escureceu, era demais para ela!
Após perder o emprego, acabar com a poupança, vender suas jóias e seu carro, vendeu também o apartamento, felizmente e afortunadamente para a própria mãe, que assim o fez para que a filha tivesse como pagar a indenização do advogado que processava Luiza por calúnia, depois de ter perdido uma ação contra este advogado que Luiza tinha certeza, havia se corrompido e colaborado passando informações do processo para seu ex que sempre dizia sem nenhum medo ou pudor que poderia comprar quem ele bem quisesse com o dinheiro que possuía.
Então, empobrecida estava vivendo sustentada pela mãe que lhe enviava mensalmente uma mesada…Luiza sentia vergonha e mais vontade ainda de se matar.
O que ainda não vendera? Só seu corpo que não e provavelmente porque ninguém pediu por isso, senão o teria feito porque uma mãe desesperada teria feito qualquer coisa para resgatar o filho das mãos de um monstro, qualquer coisa, inclusive matá-lo.
Matar Henrique era tudo que Luiza queria, pensou nisso durante todo o percurso, Frida ia cortando caminho, evitando o trânsito insuportável da Francisco Morato, fazia isso percorrendo o bairro do Morumbi, Luiza odiava passar por ali, odiava, o bairro repleto de mansões e casarões onde por três odiosos anos vivera até conseguir fugir naquela noite, a noite do terror!
-Vamos ficar calmas, me perdoa ter que cortar caminho por aqui, mas calma, vai dar tempo -disse Frida enquanto escolhia uma música para relaxar, e isso significava Samba, Elza Soares e Batuque de roda, nada de música de " chororô de sertanojo" dizia Frida, e eram apenas nestes breves momentos que Luiza ria, um riso meio amargo e desencontrado que logo a levava de volta aos pensamentos e recordações, terríveis recordações.
Luiza achava estranho e eles acabavam sempre brigando porque o marido na maior parte do tempo era ausente, ausente não na casa, ausente na cama, não mostrava interesse sexual nela desde o nascimento de Joaquim.
Antes era quase um pervertido ela achava, sempre disposto, sempre procurando por ela.
Irritava muito também que nas poucas vezes que a procurava insistisse tanto no sexo anal, que ela odiava.
Odiava por muitos motivos, Henrique a machucava, não a lubrificava e numa espécie de "tara sádica" queria sempre esconder o rosto dela " não vira pra mim, não vira, não fala, não fala, fica em silencio, não quero ouvir sua voz, mas chorar baixinho igual um bebê você pode meu amor"
Luiza odiava isso, lhe tirava qualquer tesão, queria sair de baixo dele, interrompia o coito, saía brava e ele ficava furioso.
Começaram a brigar por causa disso e por outras coisas também.
Luiza começava a achar que não era penas um amor excessivo de pai extravagante que o impelia a comprar coisas para Joaquim como fizera quando estava grávida, quando ele decorou todo o quarto do bebê sem sua participação, o que a havia magoado muito, mas ele também fazia planos de cinemas, parques, lanches, festinhas com o filho sem a presença dela, SEM A PRESENÇA DELA, passou a acreditar que ele fazia estas coisas para magoá-la de proposito, era ignorada dentro de sua própria casa por seu marido e por seu filho que começava a repetir os gestos grosseiros do pai.
Uma vez Henrique disse na mesa de jantar:
-Filho, sua mãe é uma bruxa sabia? Agora ela inventou de ir em centro de feitiçaria, garanto como colocou veneno na nossa comida! Vamos cuspir, ecaaa , deve ter macumba nessa comida!
-Que é isso Henrique, não diga uma coisa dessas pro menino!
-O que você vai fazer lá? Heinh? Perguntar o que pra quem? Vai fazer perguntinha pra santo? Estas coisas são demônios!
-Quem não deve não teme, se você não tem nada pra me esconder, nada será revelado.
-Não quero que vá, está proibida, não me desobedeça ou vai se ver comigo!
Era o fim da picada, o que este homem arrogante estava pensando? Primeiro era o trabalho, ele queria que ela ficasse em casa, mas em casa o tempo todo, porque nas atividades familiares de recreação e lazer era excluída, depois eram as amigas, implicava com todas, nenhuma prestava, nenhuma era digna o suficiente, nenhuma era de família nobre o bastante, nenhuma era de sua " classe" , depois a religião, quando se conheceram e namoraram ele sabia que ela gostava de ir na Umbanda, que ela se sentia bem nessa fé e ele havia concordado, mesmo sendo evangélico fervoroso o que ela sabia também, mas não via problema nisso, pelo contrário, achava digno um homem ser cristão.
Ah, se tivesse ouvido sua mãe! E como sua mãe a alertou sobre isso, sobre provavelmente a vida dela virar um inferno depois de casada, que seria muito improvável que ele lhe desse liberdade para trabalhar e ter uma religião diferente da dele.
Henrique odiava a mãe de Luiza e das poucas vezes que estiveram juntos, eles brigaram.
Henrique havia sido categórico:
-Na minha casa tua mãe não entra, se quer conviver com ela se separe de mim, eu odeio a sua mãe, ela é uma megera insuportável!
Luiza lembrava-se do sofrimento que isso lhe causara e como o afastamento dela e de sua mãe a havia deixado mais frágil nas mãos do crápula e imaginou se a avó pudesse ter convivido com o neto se poderia de alguma forma a ter alertado sobre, mas também pensou que era tão estupidamente apaixonada pelo marido que talvez, nunca tivesse acreditado em suspeitas da mãe e que talvez, teriam brigado.
-Mãe me perdoe, você implica com tudo que Henrique diz e faz, a gente acaba brigando por sua causa, vamos nos ver só no final do ano está bem?
Havia partido o coração de sua mãe, lembrava com dor da voz da mãe chorando do outro lado da linha " desculpa filha, eu só quero o seu bem, fica bem tá? E se precisar de mim, de alguma coisa, me fala, se cuida, te amo filha"
Afastou-se tanto que nem ligava mais e não atendia quando a mãe ligava, depois disso apenas uma visita, quando Joaquim estava com dois anos que fora feita na cidade de Balneário Camboriú em Santa Catarina, onde sua mãe morava.
Mas ela precisava se dedicar a este casamento.
Afinal Henrique era tão amoroso no período do namoro, não entendia como de repente ele poderia ter se transformado em alguém completamente diferente, grosseiro, debochado, estúpido com ela, não era mais aquele homem maravilhoso por quem ela se apaixonara, apesar de que ela reconhecia, havia sido rápido demais, estranhamente rápido demais, enquanto suas amigas reclamavam de relacionamentos que se arrastavam por anos, Henrique se declarou logo que a conheceu, namoraram dois meses apenas e ele e a pediu em casamento em seguida.
Luiza pensou que se tratava de excentricidade de gente rica e ele se mostrava sempre tão perdidamente apaixonado por ela e isso a deixava encantada!
Henrique era pura ostentação.
Sempre o melhor carro, o melhor relógio, as melhores roupas, os melhores e novíssimos calçados.
A casa um deslumbre no coração das mansões do Morumbi, cercada por câmeras e por seguranças.
A empresa, uma multinacional da família, herança dele que era filho único, ia de vento em polpa, fazendo muitos negócios com EUA e Canadá.
Desde que a conhecera a cobria de presentes, jóias, surpresas românticas, jantares inesquecíveis em iates, viagens maravilhosas para Dubai em hotéis de luxo.
Um dia ao sair do trabalho quase teve um desmaio, Henrique a esperava numa limousine, um tapete vermelho fora estendido até a porta do trabalho, uma empresa de design de utensílios onde Luiza aos poucos ia galgando as escadas do reconhecimento, mas ia bem e com as próprias pernas, aos seus quase 30 anos se orgulhava de já ter quitado sua dívida na faculdade sem a ajuda de sua mãe, comprado seu carro semi novo e de ter pago todas as prestações do pequeno apartamento na região de Vila Sônia, próxima à Francisco Morato em SP e se orgulhava disso, mas a visão daquele homem lindo, alto, elegante, esbanjando saúde e masculinidade em seus plenos 38 anos, solteiro, sedutor, com aquele sorriso de fazer qualquer mulher cair desmaiada, rico até onde ela poderia supor, um magnata, ali esperando-a numa limousine, com tapete vermelho e buquê de flores a fez querer abandonar tudo e todos e ser a princesa encantada do príncipe maravilhoso.
Só não poderia prever que o príncipe na verdade era um sapo dos piores.
Dos cruéis
-Você colocou macumba nessa comida! Te proíbo de voltar naquele lugar, eu sei onde você foi, eu sei tudo que você faz e sei que você levou meu filho junto, bruxa! Isso é comida de terreiro! Você virou uma bruxa detestável, tem veneno aqui, isso é comida envenenada!
Luiza levantou ofendida, com nó na garganta, quase chorando com as ofensas.
Eram tantas sempre!
Pensou apenas em retirar-se da sala de jantar, sabia que levar o filho com ela seria inútil e desencadearia mais discussões, então que ficassem os dois ali jantando sem ela, se amavam mesmo, ela estava sobrando e estava magoada, havia passado a tarde toda cuidando dos detalhes da janta que Henrique do trabalho havia mandado o recado, queria uma janta diferente e saborosa, se dizia entendiado do mesmo tipo de comida que ela fazia e queria um jantar bem elaborado, Luiza se odiava por estar aceitando ordens de um marido que mudara tanto a ponto de tratá-la como a uma criada, uma empregada, pior, uma escrava, estava ofendida pela acusação de feitiçaria, ofendida e magoada pela humilhação daquela noite e de tantas outras situações, de abandono, de descaso, de deboches, diários!
Todo dia, desde que Joaquim era recém nascido, desde que Henrique se transformara num monstro.
-Henrique não vou discutir na frente do Joaquim, você tem me magoado dia após dia, está insuportável! Eu não sei o que deu em você mas…
Não pôde terminar.
Henrique engasgava e apertava a própria garganta, os olhos esbugalhados, babando em direção ao filho:
-Socorro Joaquim, sua mãe colocou veneno na comida, socorro filho! Ela quer me matar! Ela é uma bruxa!
Joaquim começou a gritar histericamente, em pânico, ela tentava acalmar o filho, segurando-o no colo e se afastando do marido que parecia um diabo se arrastando e fazendo garras, imitando as entidades que segundo ele incorporavam nas pessoas na igreja quando o pastor ordenava que saíssem dos seus corpos, ela que nunca acreditou nesse tipo de coisa e achava que se tratava de atores fingindo para causar comoção nos fiéis, via incrédula bem ali na sua frente a pior das cenas de horror de um ator de quinta categoria, mas este infeliz era seu marido, fazendo esta cena de horror na frente da criança que pequena chorava aos prantos, em desespero.
E vendo o filho em desespero, se desesperou também e também começou a gritar, furiosa:
-Que inferno Henrique porque esta fazendo isso? Maldito! Tá engasgando? Então morre de verdade seu ridículo, morre logo! Quero que você morra seu maldito! Morre logo! Morre seu desgraçado!
Correu para o quarto e trancou a porta por dentro.
Do lado de fora ele continuava, aos berros:
-Socorro filho, socorro, estou envenenado , socorro!
Joaquim chorava em pânico e tentava se desvincilhar do colo da mãe aos gritos : -Papai, papai, papai!
Luiza gritava de volta, envolta sem saber na cena de horror propositalmente criada pelo mestre do circo dos horrores que a arrastava para dentro de um pesadelo, mas ela iria sair, jurou pra sim mesmo que faria isso naquela noite mesmo e com Joaquim, não sairia daquela casa sem o filho, não mesmo!
Muitas discussões entre ela e o marido já haviam ocorrido antes daquela noite, muitos pedidos de separação, muito choro, ameaças e muita humilhação.
Ele dizia depois de xingá-la de vagabunda, puta miserável e bruxa macumbeira:
"Quer ir? Vai embora! Vai, pode ir, mas como entrou, uma mão na frente e outra atrás, não vai levar nem as roupas que te dei, antes você usava trapos! "
"Ah, tá chorando sua nojenta? Vai pra casinha da mamãe vai, pode ir, vai agora, mas o Joaquim fica, você sabe que com meu dinheiro eu compro o juiz que bem entender! "
"Vai sair? vai cair fora? Vai viver de quê? De desenhinho de porcariazinha de lixo de bugiganga de lojinha de 1,99? Você não é nada, é uma bosta de mulher!"
"Quer se separar? Vai logo, pode ir, vai logo, você nem mulher é, cheia de coisa, não tenho nenhum tesão em transar com você, só tenho sexo bom fora de casa mesmo, pode ir!"
E uma sequencia de humilhações terríveis, desmerecendo-a como mulher, como mãe, como profissional, dia após dia, haviam lhe minado as forças, a paciência e a lucidez.
Não era mais a linda mulher de quando o conhecera, estava amarga, sofrida, havia emagrecido tanto que não conseguia nem se reconhecer, os cabelos antes sempre longos e bem cuidados haviam caído aos montes, de tanto estresse e precisou cortá-los bem curtinho, tentava esconder os cabelos brancos que surgiam diariamente com tinta preta e então desistira de manter os cabelos sedosos e com as luzes que antes a deixavam tão jovial, estava definhando há 3 anos e meio naquele casamento que só havia lhe feito feliz até a gravidez, até o nascimento de Joaquim, na volta da maternidade Henrique já havia se transformado, ou se revelado, e somente agora, anos depois ela entendia porque ele não precisava mais fingir, o predador já havia conseguido seu objetivo, uma parideira da qual ele queria se livrar para ficar a sós com a criança.
Não a criança dela!
Mas Luiza se culpava por não ter percebido nada a tempo, não havia ligado as situações onde Henrique levava o filho para tomar banho junto e eram sempre banhos tão demorados com o pequeno Joaquim, as longas idas ao quarto para levar mamadeira que ele fazia questão de levar, mesmo depois que ela já havia amamentado o filho, as viagens a sós que ele fazia questão de fazer com o filho para o sítio no interior nos feriados, e ela se sentia excluída e magoada, mas procurava dizer pra si mesma que Henrique apesar de mau marido, era um pai maravilho, afetuoso e apaixonado pelo filho.
Sentia que mesmo que se separassem um dia, Henrique jamais abandonaria o filho e o amava mais que tudo, mais que ela, mas tudo bem porque ela também amava o filho mais que tudo, sentia um pouco de inveja com dor de ver que a criança a rejeitava sempre que o pai estava por perto e achava estranho que quando estavam a sós o pequeno Joaquim agia normalmente, procurando a mãe para ganhar colo, para ganhar abraços e beijos dela, mas só quando estavam a sós se comportava como uma criança normal, apesar de ser sempre muito arteiro.
Luiza já tinha com desgosto percebido sem saber o porquê que o filho quebrava todos os brinquedos que ganhava, destruía os móveis e enfeites da casa de propósito e gritava enfurecido se chamado a atenção, não se lembrava exatamente quando, mas deveria ter sido por volta dos três anos, um pouco antes da encenação do envenenamento no jantar que ela havia recorrido às palmadas, foi a pior coisa que fizera, das palmadas foi pras chineladas e então a criança já a odiava, ainda mais quando o pai chegava a noite, então era um inferno, Joaquim se transformava e virava um pequeno "monstro" ao qual ela estava proibida de chamar a atenção, Luiza entrava em desespero porque Henrique permitia tudo e a desautorizava a educar o filho.
Se a criança se pendurava na cortina, tudo bem ,se ela dava bronca Henrique brigava com ela na frente do filho, se Joaquim jogasse um vaso no chão, ela não podia chamar a atenção, senão Henrique gritava com ela e começavam a brigar, certa vez Joaquim abaixou as calças e fez xixi nela, Luiza estava vendo TV e só percebeu quando a criança já fazia e ria de pé na guarda do sofá, ela deu uns tapas na bunda do filho dizendo que ele não podia fazer isso, mas foi surpreendida pelo marido que de repente a empurrou com tanta força que a derrubou do sofá onde estava, arremessando-a ao chão com violência, Luiza ficou encolhida no chão, sem ar de tanta dor que sentia com o ombro deslocado, precisaram chamar a ambulância, tamanha a dor que sentia, no corpo e na alma, Henrique claro, mentiu que a esposa havia caído da escada.
Luiza naquele dia entendeu que era o fim mas ainda não se conformava com a realidade cruel.
E naquela noite com Henrique gritando feito um débil do lado de fora da porta do quarto, gritando como um louco que havia sido envenenado ela teve certeza.
Precisava se separar, mas precisava fugir, ela e o filho corriam risco ali com aquele louco.
Fugiria por ela e por seu filho que se crescesse ali com o pai, se tornaria como ele, um adulto mimado, mal educado e muito ruim, estranho e louco. Luiza só não sabia o quão louco e de que tipo de loucura cruel era o pai de seu filho acometido.
Uns chamam de doença, outros de crime hediondo.
-Chegamos, oi, ooooi Luiza! Jesus! Mulher vem pra terra! Por favor, fica firme! Nossa Senhora eu sabia que isso ia lotar hoje, mas não imaginava que seria assim, daqui já não dá mais pra seguir, vamos largar o carro em qualquer rua por aqui, olha tem várias emissoras, tão filmando tudo! Dessa vez finalmente as emissoras vieram Luiza! Te falei, hoje isso muda Luiza! Hoje tem que mudar!
Frida comemorava empolgada enquanto tentava estacionar o carro, em meio a multidão que ia se formando em volta do prédio do Fórum em São Paulo.
Luiza viu que a rua em torno do prédio estava tomada por mulheres, de todas as cores, de todas as idades, algumas de roxo, muitas com cartazes, os mesmos de sempre que Luiza já conhecia bem, sobre o fim à violência contra a Mulher, gritos de guerra, fim da lei de alienação parental, logos de Ongs de ativistas pela proteção de crianças e de mulheres, frases impactantes com devolvam nossos filhos e mulheres unidas contra a pedofilia, mas então viu um diferente, que ainda não tinha visto, da morte com uma foice cravada num demônio, o cartaz tremeluzia sobre uma garotinha de uns 13 anos no máximo que era erguida num carro de som onde uma faixa dizia " Liberdade pra Letícia, cadeia pra pedófilo" e neste carro de som, com todas aquelas mulheres em volta aos gritos de " Letícia Letícia eu te amo" , " Letícia matou o lobo mau!" e " Juiz que vende laudo é o assassino", estava uma garotinha de pé, do tamanho de uma criança de sua idade mas com a voz de uma gigante, de cabelos bem pretos e lisos, presos num rabo de cavalo com uma fita vermelha, vestida de jeans e camiseta com o mesmo desenho do cartaz , mas na camiseta vermelha cor de sangue a foice da morte cravada no demônio era ainda mais assustadora , a garota dizia num microfone, com a força de mil Bruxas:
-Meu pai me estuprou! Vocês queriam me devolver pra ele? Eu matei o desgraçado! Me prendam seus malditos!!!! Quem vai ser a próxima criança assassina? A Larissa? A Fernanda? O Murilo? O Joaquim?
Luiza sentiu o ar sumir, a vista escureceu, era demais para ela!
Continua...

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Esta é uma obra de ficção, o Livro Blog contém 7 livros, sendo que o livro 7 contém 8 contos. O livro 7 trata-se de ficção inspirada em fatos reais, de vítimas reais de diferentes épocas, mas nenhum personagem do livro é real, nenhuma situação vivida pelos personagens realmente ocorreu, infelizmente como existem algozes terríveis no mundo real, se algum fato, situação ou personagem desta obra de ficção remeter à alguma vítima real é apenas uma terrível coincidência.