segunda-feira, 8 de julho de 2019

Livro Blog 7
O livro das histórias cruéis
Parte 2 do conto I
A Bruxa

Parte 2 do conto I- continuação do Menino do Bosque

Aqueles olhos esbugalhados tomados pelo terror não se pareciam em nada com os sempre afetuosos olhos sorridentes dele.

Senti imenso prazer naquele momento.

Não aquele prazer de antes, onde dor, raiva, medo, vergonha, humilhação e culpa se misturavam causando imensa confusão no meu intelecto infantil em formação, não.
Era algo novo, diferente e assustador, ver meu algoz ali diante de meus olhos naquela situação me dava um prazer que vinha do poder.
Um tipo de poder que pela primeira vez eu experimentava e do qual eu jamais me separaria, poder de causar medo em quem tanto medo causou!

Mas aqueles olhos também continham uma súplica e preocupação.
Eu quase podia ler seu pensamento, o provável, não o real e por mais que eu gritasse em minha mente que não, que ele era um diabo e não estava preocupado comigo de verdade, a voz daquele desgraçado invadia minha mente de forma doce e suavemente afetuosa:

-Joaquim meu filho, você está sangrando meu amor? Você está bem? Doeu muito? Não, não, não! Não queria que machucasse não! Deixa o papai ver, me perdoa, como sou desajeitado Joaquim. Mas a culpa é daquela bruxa meu filho, ela deve estar mandando tanta energia ruim que a gente até se machucou, olha, tem sangue aqui no papai também! Aaaiaiai, machuquei mais do que você, viu? Você me ajuda? Vamos passar pomadinha e tudo vai ficar bem! Depois vamos naquela loja comprar todos os brinquedos que o Joaquim quiser!

-Todos papai? A loja toda?

-Todos, vamos mandar fechar a loja e comprar tudo que você escolher! Vem vamos enxugar estas lágrimas, você é muito mais bonito sorrindo!

Talvez eu fosse apenas um menino estúpido, ou uma criança bagunçada, cuja mente havia sido corroída pela tortura que aquele diabo plantava, dia após dia, durante meus primeiros anos com abusos que eu estupidamente amava porque nunca doíam, nunca sangravam e não havia motivo para ter medo ou vergonha porque papai me amava e eu o amava mais que tudo, meu único medo era que a bruxa soubesse, porque sabendo dizia papai, ela nos separaria porque era má e invejosa.

Mas ali naquele tempo de paz, a paz que desejávamos tanto e agora tínhamos bem longe da bruxa, ele havia se esquecido de algumas coisas e investido em outras, os carinhos depois de meu aniversário de 9 anos viraram um tipo de ginástica que eu odiava mas ele me garantira ser necessário para a saúde e que pai e filho deveriam praticar juntos, e eu acreditava em tudo, absolutamente tudo, cheio de um amor e adoração incondicional, e mesmo contrariado, obedecia tudo.

Mas talvez, estupidamente feliz em sua evolução cruel e minha obediência cega, ele também se esqueceu de algumas coisas, da porta aberta com o computador ligado, da tela do celular desbloqueada, da chave do ateliê em cima da mesa, do papel picado grande o suficiente para ser colado com durex e reconstituído por mim depois de tê-lo salvo do lixo, e além destas coisas que eu chamava de " quebra cabeça do diabo" ele havia se descuidado, me permitindo estar por algum tempo em outros lugares onde outras bruxas improváveis conseguiram me dar o que de mais precioso me fora dado até então, a revelação!

Revelação que me trouxe lucidez!
Lucidez e desespero!

A voz desesperada do diabo me trazia de volta

-Joaquim meu amor, você está sangrando.

-Vai passar pomadinha papai?
respondi com uma risada que não era minha, com um prazer que eu descobria, de vê-lo em total agonia.

-Que é isso Joaquim!? Por favor! Não diga estas coisas meu filho, meu Deus! Joaquim...
assim que disse isso tentou se levantar mas as mãos sangravam muito e um estilhaço da mesa que estava atravessado no joelho esquerdo o fez grunhir de dor e cair como um porco ferido de volta ao chão, batendo dessa vez o rosto sobre o vidro que ainda restava partido sobre a estrutura da mesa destruída, ferindo ainda mais o que já estava ferido e ganhando novos estilhaços na boca e no pescoço.

-Melhor não se mexer muito papai, nossa você está sangrando? Mas você sabe, não sabe? Pra não doer é só ficar bem quietinho, bem relaxado, olha só o que você fez, agora vamos ter que cuidar disso e tomar remedinho, mas não fique triste papai, eu vou passar pomadinha em você!
Ah! Já sei! Deve ser energia daquele bruxa má, não é mesmo?

Ele tentou se levantar de novo, antes que conseguisse o atingi com toda a força que havia em mim, num instante que não posso sequer imaginar como o fiz, peguei o prato de porcelana que ficava sobre a mesa e que mesmo com a queda estava intacto e arrebentei na cabeça daquele verme desgraçado.

Contemplei a cena cruel e prazerosa, do sangue dele jorrando pela testa aberta, o fragmento da porcelana cravado entre as sobrancelhas, era cruel também perceber que o mesmo talho entre as sobrancelhas dele era igual o que estava agora em minha testa, machucada recentemente pela batida contra o vidro da janela.

Mesmo desmaiado, me deu um baita trabalho para arrastá-lo, aos tropeços, caindo, derrubando tudo que eu via pelo caminho, os troféus, os vasos de porcelana chinesa, os porta retratos onde ele exibia minha infância dolorosa e cruel sob o manto mentiroso da felicidade e as cadeiras de madeira maciça que ele tão orgulhosamente havia mandado trazer do Brasil para decorar a sala de jantar no estilo Provençal, eu fiz questão de jogar tudo contra as janelas imensas daquela sala de terror, daquela casa de terror, naquele bosque do terror!

Em meio a barulheira que eu fazia ouvi sua voz trêmula balbuciando algo como " Joaquim meu filho, filho me perdoa, filho"

Foi o suficiente para uma energia demoníaca tomar conta de mim, e dei tantos chutes contra aquela cara de diabo bonzinho que minha perna ficou doendo por dias.

Então entendi, seria mais fácil torturá-lo se sua cara estivesse desfigurada, assim eu não precisaria suportar aqueles olhos afetuosos, suplicantes, cheios de amor, aquelas sobrancelhas risonhas e todos aqueles gestos cômicos de um pai amoroso mas atrapalhado, que estava sempre pronto a me dar colo, que estava sempre disposto a sentar no chão para jogar vídeo game, que descia o escorregador comigo e fazia todas as palhaçadas possíveis no parquinho para todas as crianças rirem até não aguentarem mais, que estava sempre cheio de saudade na volta do trabalho, que arrancava suspiros da minha professora quando me buscava no colégio " ah Joaquim que sorte você tem viu, todas as crianças queriam ter um pai assim igual o seu, bonitão e tão bonzinho" um pai que mesmo depois de ir morar longe por causa da bruxa, ia me buscar cedinho, pontualmente todos os sábados e passava os domingos entre abraços, pipoca, cinema, lanches deliciosos... e segredinhos.
E se um segredinho era estranho demais a ponto de uma criança pequena achar estranho, ele em seguida me dava abraços e me dizia com aqueles olhos marejados, afetuosos, suplicantes, cheios de devoção " Eu te amo meu filho, eu te amo, eu te amo Joaquim"

Como não amá-lo?

Como não ajudá-lo a se levantar?

Em meio ao sangue escorrendo pelos muitos machucados e visão turva pelo ferimento causado na testa, ele voltava a consciência e tentava se levantar.

Eu queria ajudá-lo, eu queria muito abraçá-lo e me senti um estúpido imbecil por isso.

Eu precisava da fúria de um demônio em mim, para conseguir forças para matá-lo, foi assim que busquei entre lágrimas , fechando meus olhos, a imagem do rosto da bruxa.

E ela veio instantaneamente, era como se estivesse ali, bem ali na minha frente.

A Bruxa, aos berros, sempre disposta a me dar muitos bofetões:

-Joaquiiiiiim!!!!!!!!!
o berro da bruxa entrava como uma navalha em meu cérebro, eu tentava me esconder de baixo da cama, chorando, aos gritos também:

-Socorro! Papai! Papai , papai, me salva!
meus gritos foram interrompidos por uma chinelada que de repente vinda por debaixo da cama acertava em cheio minha boca que ardia e sangrava.

-Moleque desgraçado, igualzinho aquele infeliz! Odeio você e seu maldito papai! Sabe onde está agora o seu papai querido agora? Viajando, curtindo a vida, montado no dinheiro, e eu aqui morrendo de tanto trabalhar! Mas a tua pensão ele paga? Em dia? Ah ele paga aquele maldito! Paga nem um terço do que deveria pagar porque ele tem dinheiro!
ela gritava, babando ódio enquanto me puxava de baixo da cama para agora me acertar em cheio, uma, duas, três chineladas, que doíam tanto que eu pensava sempre que iria morrer de tanto apanhar.

-Bruxa, bruxa má, quero que você morra, quero que você morra! Vai pro inferno bruxa!

Foi o suficiente para as chineladas virarem bofetões, no meio da cara, na boca, nas orelhas, eu me encolhia no chão enquanto os tapões me ensurdeciam.
Vi que ela foi puxada por alguém que depois reconheci ser nossa vizinha de porta, a Frida que mais uma vez impedia minha mãe de me matar de tanta porrada.

Fui me arrastando de volta para baixo da cama e engoli o choro para ouvir a conversa das duas bruxas, a ruim que meu pai tinha toda a razão em dizer que era o diabo, e a boa, que tinha nome de bruxa meu pai dizia, mas essa era boazinha, era legal e era muito bonita, de cabelos ondulados e um sorriso tão largo que eu achava que a boca dela encostava nas orelhas quando sorria e ela estava sempre sorrindo pra mim, diferente da minha mãe que estava sempre brava ou chorando, ou brava e chorando, ou brava, sempre muito brava comigo.

-Mulher que é isso, você está batendo demais nesse menino, o que você tem criatura? Ele é pequeno, tenha paciência mulher!
Espiando por baixo da cama vi que a Frida falava enquanto chacoalhava a bruxa má, bem feito-pensei-morre bruxa, morre, vai pro inferno!

Lembro da minha mãe desabando num choro que me encheu ainda mais de raiva, então ela me batia e ela chorava? E eu não podia nem chorar, nem xingar, nem brincar, nem chamar pelo meu pai que ela já me batia?

-Frida, o Joaquim está me deixando louca! Ele volta da casa do pai dele insuportável, põe defeito em tudo aqui em casa, não quer comer minha comida, cospe dentro do prato amiga, dentro do prato ele cospe fazendo força pra vomitar! Eu fico louca com isso, nunca que eu ia fazer uma desfeita dessa com minha mãe, nunca!

-Mas mulher, e ae tu bate nele? Desse jeito que eu vi já mais de uma vez isso? Assim nessa doidera? Nessa insanidade? Tu qué o que? Perder a guarda dele? Pára com isso criatura! Olha o que fizeram com a Jaqueline do 301, deixaram a mulher doida, surtada, igual tu tá agora, ae ela pareceu a doida varrida, a ruim da história e levaram a criança dela, presta atenção mulher! Presta atenção!

E eu fiquei ali, prestando atenção na conversa toda, igual meu pai havia me ensinado, pra sempre prestar atenção em todas as conversas da bruxa, mesmo quando a bruxa boa estivesse junto, pra prestar atenção em tudo e contar tudo para ele depois, sem elas perceberem, só assim papai poderia me levar pra bem longe daquela bruxa má, antes que ela conseguisse me levar pra longe dele pra sempre.

Entre assuntos que eu não compreendia muito bem, prestava atenção especial a viagem que a bruxa queria fazer de volta pra sua cidade onde morava minha avó, de quem eu nem me lembrava, sobre o que o advogado dela havia falado e sobre o emprego que ela queria nessa outra cidade que eu nem me lembro o nome, mas era algum lugar com sol e praia onde eu aparecia ainda bebê de colo com ela, meu pai e minha avó nas fotos que ficavam guardadas no armário.
Nada daquilo me interessava, eu só queria saber de morar com meu pai, ir com ele pra casa mágica da montanha que ele dizia ser especial porque os esquilos vinham na janela pegar os doces e que tinha tanto doce na casa mágica que já não tinha mais onde guardá-los e que se fossemos precisaríamos ir de avião, mas esse também era um de nossos segredinhos e eu sabia que só conseguiríamos ir se nosso plano secreto desse certo.

Nosso plano secreto consistia em deixar a bruxa má muito brava, tão brava que o juiz que era um homem bonzinho ia ficar com pena de mim e do papai e iria nos ajudar a ficarmos juntos, para sempre.

E eu cumpria a risca o nosso plano, até uma cerimônia fizemos, onde ele me empossou seu cavaleiro guerreiro, ganhei uma espada, uma capa e um escudo, muitos beijos, muitos doces, muitos brinquedos e meu pai repetia com todo cuidado e dedicação:

-Joaquim, meu amor, papai ama você mais que tudo nesse mundo, sua mãe infelizmente é uma bruxa muito, muito má.

-Papai eu não quero que ela seja tão má assim, às vezes ela é boazinha papai- ele rapidamente colocava o dedo indicador sobre meus lábios com a mão direita e com a esquerda repetia o gesto na boca dele me calando:

-Xiuuuuuuu!!!!! Você se esqueceu? As vezes as bruxas más fingem ser boazinhas pra nos enganar, mas você não pode esquecer que ela...- respirava sofridamente com os olhos afetuosos fechados, quase chorando- ...que foi ela Joaquim! Ela quem colocou veneno na comida do papai, lembra? Papai foi parar no hospital, quase morreu! E nós ouvimos aquele dia, lembra? Nós dois ouvimos quando ela disse, mas é que você meu amor era tão pequenininho!Ôh meu amor e por isso você não se lembra direito, mas nós dois juntos ouvimos lembra? Ela dizendo que ia matar nós dois ! Que logo logo iria colocar veneno na nossa comida, tanto veneno que nenhum hospital ia conseguir nos salvar dessa vez!

Eu chorava e abraçava meu pai que me enchia de beijos no rosto, ele me consolava dizendo que existem muitas mães que são bruxas e por isso os juízes bonzinhos estavam ajudado os papais a salvarem seus filhos, mas que as bruxas sabiam fingir muito bem e por isso, numa estrategia de guerreiros nós tínhamos que cumprir nosso plano:

Deixar a bruxa tão brava que ela não conseguiria mais fingir que era boazinha para nenhum juiz!

Eu era ótimo nisso.

Mijava no tapete da sala, passava o batom dela na privada, vomitava no prato em protesto porque ela colocava veneno na comida, chutava o gato, derramava todo o leite na pia, desenhava com o lápis de maquiagem dela na parede o desenho da bruxa mais feia que eu conseguia desenhar, quebrava os ovos e os deixava dentro da geladeira escorrendo nas prateleiras, tirava a terra do vaso e esparramava por toda a sacada do apartamento, falava pra ela ir pro inferno e não a chamava mais de mãe, era só bruxa, ou bruxa má.

Na escolinha não queria ir e chorava pelo caminho todo como meu pai me ensinou a fazer, chutava as pernas dela e corria pela rua, mas quando chegava no portão da escola eu abraçava a professora e pedia socorro, porque até chegar lá, havia levado vários tapões na orelha, então já estava naquela altura chorando de verdade.

Eu a estava enlouquecendo, mas ela merecia, porque ela era uma bruxa má.

Papai jamais mentiria pra mim, ela queria nos matar com veneno na comida. Eu precisava ajudar o meu pai .

Como ele sofria, era fácil pra mim lembrar de tudo porque ele me contava com todos os detalhes:

-Joaquim meu amor, você lembra? Aquela noite filho? Quando eu corria na chuva com você? Papai estava salvando você filho, te levei correndo na igreja porque aquela bruxa ia dar você pro diabo, lembra?

Eu lembrava de algo estranho e que não fazia sentido, de gritaria, de briga , da minha mãe me puxando pra ela e meu pai com outro homem que eu não me lembro quem era me carregando e correndo, eu lembro de estar feliz antes dele chegar, acho que estava cantando numa sala grande com várias crianças, estávamos rindo e comendo doces e minha mãe dançava numa roda com várias mulheres, todas de branco, a musica era alegre, de tambores e todas cantavam e batiam palmas, até serem interrompidas por minha mãe gritando e correndo em minha direção, tentando me puxar para ela, mas papai era mais forte e me levou, lembro do homem que estava com ele derrubando coisas, batendo em algumas mulheres que tentavam ajudar a minha mãe. Lembro de chorar muito e depois lembro da igreja, não lembro como chegamos lá porque eu chorava muito, lembro de chorar sem parar até chegar na igreja, mas parei quando todas aquelas pessoas me abraçaram dizendo " Aleluia, graças a Deus, louvado seja Deus", e abraçavam meu pai dizendo que ele era um herói e que tinha me salvado de bruxaria.

Minha mãe era mesmo uma bruxa, meu pai tentava me proteger.

Joaquim meu amor querido - a voz afetuosa invadia minha mente como um veludo, um algodão doce e as imagens ruins sumiam para novas se formar- você também deve se lembrar daquele dia no parquinho, você lembra? Que horror aquela bruxá má tentou matar você! Filho, você lembra? Ainda bem que eu consegui segurar você filho, que susto! Eu fiquei tão desesperado, ainda bem que papai correu e conseguiu te segurar, não é mesmo?

Lembro de estar correndo com meu pai, brincávamos de pega pega, lá pelas tantas ele subiu no trepa trepa, meu pai sempre brincava comigo, eu amava isso e as outras crianças sempre diziam que meu pai era mais legal que o delas porque o meu brincava comigo e o delas não e eu amava isso, ficava todo orgulhoso do meu pai brincalhão, o que aconteceu a seguir eu nunca consegui lembrar com exatidão, foi uma sequencia de xingamentos e gritaria quando minha chegou no parquinho, lembro dela aos berros dizendo que ele não tinha permissão, que ele não podia me pegar na escola, que ele era um monstro.

Um monstro, o papai? Ela sim, ela era uma bruxa!

-Bruxa, bruxa, vai pro inferno bruxa!

Depois disso tudo eram borrões, da imagem dela me puxando, eu caindo, hospital, dor, sono, exames, polícia.

Ela dizia que meu pai tinha me feito cair e ela havia me segurado para me proteger.

Meu pai dizia que ela era uma mentirosa e que ela me puxou para que eu caísse, mas que ele correu e me salvou a tempo impedindo que eu morresse, que apenas tinha batido a cabeça no ferro do trepa trepa, mas que se ele não tivesse me segurado teria sido muito, muito pior.

E tinha aquele senhor que varria a calçada, ele dizia pra policia que minha mãe tinha tentado me derrubar lá de cima.

E minha mãe tentava bater nele aos gritos chamando-o de mentiroso e dizia que meu pai tinha dado muito dinheiro pra ele mentir, que ele ia pagar caro por isso, que ela quem tinha me salvado, que eles eram malditos mentirosos.

E eu só queria dormir, dormir, eu estava tão cansado!

-Papai, papai, foi a bruxa? Ela quer nos matar mesmo?- mal consegui dizer antes de apagar.

Abri meus olhos, cansados de tanto chorar, tão cansados quanto aquele dia no parquinho, o dia que transformara todos os acontecimentos de forma avassaladora.

Ninguém mais duvidava que papai me protegia.

Mas mesmo assim ele me deixava bem alerta para o fato de que nosso segredinho especial, dos nossos carinhos especiais de pai e filho nunca poderiam ser revelados porque muitas bruxas tem inveja do amor de pais e filhos e eu não podia nunca contar pra ninguém, senão poderiam me devolver para a bruxa que queria nos matar.

Olhei para o diabo ali na minha frente, trêmulo, arrancando sofridamente o estilhaço do joelho, as pernas cabeludas que ele pedia para eu massagear estavam empapadas de sangue que escorria da ferida que deveria ter pelo menos uns 5 centímetros, o joelho parecia um bacon fatiado, aquelas malditas pernas que ele dizia serem acometidas por uma doença que só curava com massagem, mas a massagem ele dizia, só funcionava se fosse com o meu piupiu. Depois era a vez dele e ele fazia a mesma massagem, na minha perna, nas minhas costas, nas minhas nádegas, no meu rosto, no corpo todo, até sair o leite abençoado, como ele chamava, que era uma espécie de remédio que ele precisava produzir para sarar, mas era segredo, porque a bruxas da bruxaria onde minha mãe ia queriam acabar com aquele leite que era sagrado, que era de Deus, em seguida ele me contava uma história horrível de um menino que não respeitou os segredos especiais de pais e filhos e contou para alguém da igreja e este menino acordou sem os olhos, com a barriga cheia de bichos comendo ele de dentro pra fora e sua alma foi levada pra ser torturado no inferno.

-Joaquim, meu filho- parou de falar enquanto suspirava e enxugava o sangue que escorria pelo rosto impedindo-o de falar- nós dois estamos machucados, por favor, precisamos nos acalmar e fazer curativos.

Continuei olhando com desprezo para aquele infeliz e me sentia um completo estupido, o quanto eu conseguira até o momento? Arrastá-lo da sala de estar pra sala de jantar? Fazer um talho na minha cara e na dele também? Pra quê? Pra ficarmos ainda mais desgraçadamente parecidos? E aquela maldita casa era imensa, o quanto eu progredira arrastando-o por alguns metros? Como poderia levar aquele diabo até o ateliê? Que prepotência a minha acreditar que poderia com aquela criatura muito maior e muito mais forte do que eu! Desde quando eu estava acreditando ter algum poder? Desde que burlara a segurança da maldita casa do bosque e conseguira informações, navegar na internet, falar com as bruxas? Isso me fazia capaz de conseguir o que a bruxa deveria ter conseguido quando eu era pequeno? Matar aquele verme desgraçado?
Eu sequer estava próximo de completar 13 anos ainda!
Eu era apenas um pirralho!

Se minha mãe tinha algum poder de bruxa eu desejava naquele momento o ter também, desejava ser maior, mais velho, mais forte, desejava matá-lo devagar e dolorosamente.

Mas queria fazer isso no ateliê.

O maldito ateliê.

O lugar preferido dele.

O ateliê do diabo.

Lá no ateliê, lá nós iríamos acertar nossas contas.

Não sabia ainda como levá-lo até lá, à força seria impossível, na confiança com certeza não, esta havia sido quebrada com meu rompante de ódio, o que eu poderia dizer ou fazer para levá-lo até lá?

Eu precisava pensar rápido, antes que ele se recuperasse mais dos machucados.

E seria hoje, eu estava diabolicamente decidido porque sabia que esta noite seria de lua cheia.
A noite da luz enluarada, a luz perfeita.

Continua...









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Esta é uma obra de ficção, o Livro Blog contém 7 livros, sendo que o livro 7 contém 8 contos. O livro 7 trata-se de ficção inspirada em fatos reais, de vítimas reais de diferentes épocas, mas nenhum personagem do livro é real, nenhuma situação vivida pelos personagens realmente ocorreu, infelizmente como existem algozes terríveis no mundo real, se algum fato, situação ou personagem desta obra de ficção remeter à alguma vítima real é apenas uma terrível coincidência.