segunda-feira, 22 de julho de 2019

Livro Blog7 parte4 O livro das histórias cruéis "Querido papai"

                                 "Querido Papai" 
parte 4 do Conto I-continuação de " Luiza" parte 3, " A bruxa" parte 2 e " O menino do bosque" parte 1.

"Querido papai"

.Acredita em mim Juca!

                .Meu nome não é Juca já falei p vc!

.Agora é!               

                 .Que saco menina!
                  Vc tá mentindo!                 
                  Sua mãe louca tb tá mentindo!

.Vc viu Juca, vc viu! 
A gente mostrou tdo pvc ! 
Vc viu os videos! Vc viu!
Para de mentir p vc mesmo! 
Deixa a gente te ajudar! 
Segue meu plano! 
mas isso vc não conta p minha mãe eu te imploro! senao nunca vai dar certo! 
...
...

Juca? 
Juca!
Jucaaaaa 
eu to cheia do desgraçado se esfregando em mim!!!!!!!
eu vou matar ele 
eu vou gravar p todo mundo ver!!!!!!! 
Os filadaputa dos juiz só acredita na gente qdo tem video dos maldito se esfregando na gente ou fazendo mais coisas que eu mato o desgraçado antes dele enfiar aquele pinto gosmento em mim! 
Juca a gente tem que fazer isso juntos! 
Na mesma semana, 
se der no mesmo dia!
Jucaaaaaaa! 
Todos nós!!!!!!!

                   .Se meu pai descobrir qe agente ta se                       falando ele vai fica furioso!

.Não Juca! 
Se ele descobrir ele vai matar vc! 
Acorda! 
Acorda Juca!


-Merda! merda!- gritei enquanto decidia se corria pela janela quebrada, mata à dentro, no corre, do jeito que estava, do jeito que dava ou se descia às pressas ao ateliê para obrigar o verme a ir atrás de mim, lutei para que minhas lembranças não me atrapalhassem ainda mais -Droga! Eu já perdi o controle antes da hora hoje por causa destas malditas lembranças! Mas de hoje não vai passar querido papai! De hoje não vai, afinal, eu estou para completar meus malditos 12 anos não é mesmo? Ou eu já completei? Você ferrou tão fodidamente meus miolos que eu já nem sei mais até isso direito! Meu papaizinho querido, tão bonzinho você, não é mesmo? Você me ama tanto não é mesmo? Me ama tanto que precisa ser um só comigo não é mesmo? Não é isso que você diz seu desgraçado! Fala!

Sem pensar e antes que me desse conta, arremessei contra a figura assustada e cambaleante que tentava se reerguer do chão um não tão grande mas pesado o bastante para terminar de arruinar a face retalhada de estilhaços, sangrenta pelo corte profundo na testa e inchada de chutes recentes do maldito, um vaso que sobrevivera até então ao meu ataque de ira.

-Deus, Deus, meu Deus meu filho o que está acontecendo com você Joaquim?- gritou o verme enquanto tentava se proteger com os braços dos estilhaços do vaso, que não acertara em cheio o rosto, mas machucara ainda mais as mãos, os braços e a cabeça que sangrava cada vez mais com os novos ferimentos.

-Não fale em Deus, seu diabo maldito! Eu...Jesus!- Vi com espanto aquela figura de capuz, surgindo pelo imenso corredor que ligava a sala de jantar aos outros cômodos da imensa casa, meu coração golpeou com tanta força que senti como se saísse de meu peito, igual um alien, aquele do filme que saía do peito das pessoas arrancando costelas, tórax, peito, carne, ossos, pele, tudo junto! Era essa a sensação que eu tinha naquele momento, segurei a emoção, imediatamente controlei o tremor dos joelhos e segurei minha boca para não gritar, eram eles e eu precisava fugir, mas como descobriram? Em pânico pensei sobre a possibilidade de meu pai ter convidado mais alguém naquela noite de lua cheia, era a especial, não era? A noite da lua cheia dos meus doze anos, os malditos doze anos, que ele tão ansiosamente esperava e do qual falava com os pervertidos do grupo dele! E se além do maldito mais alguém observava as câmeras de segurança? A casa era toda rodeada pelas malditas câmeras! Viram quando eu quebrei as janelas? Vieram ajudar o desgraçado? 

Lembrei de minha amiga avisando-me pelo celular, que meu pai não podia sequer imaginar, estava em minha posse desde o dia das Bruxas, presente dela, da minha incrível amiga Bruxa Letícia!

" Se ele descobrir ele vai matar vc!"

-Não hoje!-Disse, mas só para mim mesmo enquanto corria de volta para a sala e dela só tive tempo de pegar a coberta de cima do sofá para nela me proteger e me precipitar pela janela abraçado na almofada do sofá, enorme e resistente o suficiente para impedir de me quebrar ao cair no chão, não parecia tão alto, afinal era apenas um andar acima do térreo, se eu estivesse no andar acima, nos quartos, aí sim seria bem pior, pensei nestas coisas apenas para não chorar diante da dor alucinante que senti ao bater meu braço direito no chão e ser arremessado quicando igual um boneco desengonçado, abraçado no almofadão. Deve ter sido uma queda ridícula mas pelo menos evitou que me quebrasse todo, e apesar da grama sedosa do jardim suavizar a queda, ao levantar senti dor em todos os lugares e mesmo sem conseguir correr, andei o mais rápido que pude até o fim do gramado, onde se iniciava a rua de asfalto que levava para dentro do bosque e que levava para a avenida principal, pensei que felicidade as casas no exterior não se preocuparem com imensas grades e muros e que se fosse no Brasil muito provavelmente não conseguiria fugir! Lá as casas são feitas para impedir a entrada de ladrões mas assim também impedem a fuga dos que precisam fugir! 

-Letícia! Letícia eu estraguei tudo, desculpa Lê!- funguei chorando enquanto tentava correr mancando, envolto no cobertor, não queria perdê-lo, tinha esperança de fugir e sabia que aquele frio sem uma proteção me mataria! 

- Ôooo moleque! - Uma voz feminina que falava rindo, se divertindo às minhas custas me deixou paralisado, devagar me virei para ver quem era, na certeza de que seria morto em seguida- Vai fugir pelo mato pulando igual um saci? No meio da noite vai ser um saci branquelo congelado! Tá doidinho já você né meu? Pira não maninho, tamo junto, tamo junto meu! Ae, pega o meu, toma ae, veste logo moleque, esse é dos bonzão, forradinho e tals, pra usar nesses lugar de friaca dos caralho, paguei mó grana nele einh, depois você me acerta essa dívida ae falous? Ná, suave, suave, não precisa não moleque, tô brincando, é presente! Re cor da ção, háááá e depois se espirulita, mas só vai, vai reto, vai toda vida e não olha pra trás porque hoje aqui, ah menino, hoje aqui os demônio do inferno vão ficar com tanto medo da gente que até satanás vai ajoelhar pra rezar! Pega teu rumo e vaza, ahhhh uia o moleque! Tá de tênis? Tá de jeans? De blusão einh! Olha só, a essa hora? O teu paizinho não achou estranho não que tu ainda não tava de pijama? Háááá, tu achou que ia fazer esculhambação com ele né, né? Sem nóis? Ôôô loco meu, prestenção, ae...primeiro os veterano! Agora some, vaza neném, vai reto, chegou no fim da estrada usa esse celular, prestenção, tá prestando atenção ou tá em choque? Ô ae, se esperta, chegou lá no fim da estrada liga pra esse numero aqui, entendeu? Mas só quando chegar no fim da estrada, entendeu? Meu, se vc ligar antes fudeu todo o esquema moleque! Sai fora vai, vai na fé e só vai!

Saí meio atordoado, meio zonzo, primeiro meio vagaroso, desconfiado. Olhei para trás e vi a moça sorridente que falava toda feliz, se divertindo enquanto me vestia com o casaco dela e apertava o capuz exageradamente em meu pescoço enquanto me enrolava num cachecol lilás de " Little Poney" , andando em direção a casa, ela colocava um capuz, igual ao do homem que eu vira a pouco no corredor e que me fizera fugir desesperadamente, um capuz que jamais esqueceria, vermelho com o desenho da morte segurando uma foice, cravada num demônio.
Não podia sequer imaginar o que aconteceria lá dentro.
Mas entendia que de alguma forma incrível e terrível era o fim do desgraçado.
Andei pela estrada, naquela noite gelada de lua cheia, clara o suficiente para andar por toda a noite em meio ao bosque em direção à avenida principal
"...chegou no fim da estrada, usa esse celular...mas só quando chegar no fim da estrada..." a voz risonha daquela moça, de cabelos negros e encaracolados me lembrava uma voz familiar, um sorriso familiar, só não conseguia lembrar de onde, meu coração parecia ter parado, em choque eu andava, a luz da lua me iluminando o caminho em meio ao bosque.
...
Na casa, atordoado, Henrique vira o filho correndo para a sala, antes que pudesse segui-lo fora atingido pelas costas, violentamente, de um único golpe sentiu suas costas dolorosamente atingidas por algo profundo o suficiente para se saber morto e súbito o bastante para entender que não morrera, mas que ferido para a morte estava sendo levado bruscamente pelo corredor que levava da sala de jantar às escadas que por sua vez levavam ao ateliê que ficava no andar de baixo do casarão de três andares, onde uma sala grande que fazia menção à um hall de entrada exageradamente suntuoso, com tapeçaria indiana, móveis rústicos de mogno maciço com janelas imensas de vidro para a iluminação natural dividiam o andar térreo com um ambiente criado para ser jardim de inverno, salão de festas, adega e sala para criações, onde uma placa banhada à ouro ornamentava a frase " Ateliê do Joaquim e do papai, lugar de ser feliz" dava acesso a uma linda e inocente sala que se assemelhava a uma brinquedoteca projetada para o mais amado dos filhos do mais rico pai, com video game, jogos, muitos brinquedos, TV, poltrona infantil, bichinhos de pelúcia, mesa para desenhar e muitos livros com materiais de pinturas dignos de uma criança rica que possuía sua própria sala de brincar, ao lado, no mesmo ambiente porém mais rústico, telas, suporte de tripé, pincéis e inúmeros quadros de Joaquim brincando, exibidos numa estante repleta de retratos e pinturas, o que demonstrava a admiração e o amor de um pai que se dedicava à arte em homenagem ao filho...mas o que apenas Henrique sabia e o arquiteto que também fazia parte do clube dos " Queridos papais" e recentemente Joaquim após ser alertado pelas bruxas e passar a investigar o pai sem que ele soubesse, era que a estante de livros na verdade tratava-se de uma porta que dava acesso a outra sala, uma que permitiria até mesmo ao mais amador dos video makers realizar produções com qualidade profissional, tamanha era a qualidade das câmeras, computadores e da ilha de edição, favorecidas pelas imensas vidraças que ficavam ocultas por pesadas placas que quando fechadas modificavam completamente o cenário por aparentarem ser parte natural da parede, mas quando abertas pelos trilhos que funcionavam rentes aos chão, ocultando o mecanismo semelhante ao de portas de correr, mostravam imensas vidraças que criavam um cenário iluminado, com manchas que surgiam do jogo da luz da lua sobre as árvores do jardim da casa para dentro da sala. 

Com pavor, Henrique entendeu que não estavam apenas ele e seu filho na casa, alguém o ferira mortalmente e o puxara pelas costas com a força de um adulto, de um homem adulto. Mas quem era? 
O que quer que fosse que estava cravado em suas costas fazendo-o grunhir em dor de agonia não o permitia virar-se. 
Quem era aquela pessoa forte o suficiente para puxa-lo naquela velocidade e facilidade? 
Como conseguira driblar as câmeras de segurança? Porque o alarme não tocara? 
Num instante de pavor observou que o filho ao ferir-se na janela quebrando-a com a cabeça deveria ter acionado o alarme e no entanto isso não acontecera! Percebeu aflito que em outra situação teria imediatamente investigado a falha da segurança, mas que ao ver o filho ferido, sangrando, se desesperou e correndo até ele sequer percebeu este importante detalhe e depois de ele próprio ferir-se com aquela estúpida queda sobre a mesa de vidro, confuso e aflito pelas acusações e a estranha e repentina mudança de comportamento do Joaquim que o haviam deixado absolutamente atordoado, sequer pensou sobre o terrível fato de que algum estranho poderia aproveitar-se para adentrar na casa! 
Seria um ladrão? 
Pior, seria um dos pais daquele grupo infeliz do qual não conseguia se desvencilhar? 
Teriam descoberto que ele enganava a todos nos vídeos com a luz da lua e que nunca havia completado a penetração? 
O que eles queriam? Aqueles lobos sedentos por pequenos meninos, que ele machucasse o próprio filho? Jamais o penetraria antes dos 12 anos, nunca! E jamais o faria sem que Joaquim estivesse sedado o suficiente para nunca se lembrar! 
Teriam descoberto isso? Como? Estariam ali? Estuprariam seu precioso filho? 
Sabia dos casos em que pais tentaram sair do grupo mas foram encontrados mortos e os filhos sequestrados e levados para as " masmorras", as casas para onde levavam as crianças desaparecidas, para servirem sexualmente à todo tipo de pervertido violento e depois serem mortas, estes vídeos chegavam até eles, era um alerta do que aconteceria caso descumprissem as regras! 
Em pânico, pensando no terrível destino do filho, tentou se debater, levantou os braços feridos com dificuldade para tentar arrancar o que estava em suas costas para descobrir com pavor que tratava-se de uma espécie de anzol para pesca de tubarão, a cada tentativa era golpeado na cabeça e a dor o impedia de respirar, a visão já turva ia tornando-se cada vez mais um imenso borrão de sangue, em meio ao sofrimento e desespero lembrou do que o filho a pouco dissera em sua fúria 
" ...Mas de hoje não vai passar querido papai...eu estou para completar meus malditos 12 anos não é mesmo...você ferrou tão fodidamente meus miolos...papaizinho querido, tão bonzinho você, não é mesmo..."  
Com a certeza da morte correndo em suas veias entendeu que Joaquim não estava sozinho, sentiu uma profunda dor no peito e um desespero não pelo que poderia lhe acontecer mas pelo que o filho iria se lembrar, Henrique queria que o filho tivesse suaves e amorosas lembranças de suas carícias, nunca de dor, jamais de dor! 
Desesperou-se em seu cruel e infeliz raciocínio tentando lembrar em que momento poderia ter deixado o filho sozinho e com acesso a telefone, ou internet, o que ele nunca deixava, havia pensado em tudo, em como fazer Luiza parecer louca, em como conquistar o coração e a confiança do filho, em como tornar as carícias prazerosas para ambos sem deixar marcas e jamais machucados, em como preparar o corpo do precioso e lindo filho para ele, mas somente depois dos doze anos! 
Para que fosse exitoso dessa vez, levara o filho para longe, para a casa do bosque, cuidava para que estivesse sempre em sua companhia, e o único lugar que permitira a frequência de Joaquim era o colégio e apenas porque sabia ser absurdamente caro, ser ele o pai mais respeitado entre professores e direção, ter feito generosas doações para a instituição de ensino, tornar-se propositalmente um dos melhores amigos do diretor e ter a certeza de que Joaquim era o único brasileiro matriculado! 
O que poderia ter alertado o filho então? 
Como conseguira se comunicar? 
Deixava o ateliê sempre trancado e quando Joaquim pedia-lhe para brincar lá, ele estava sempre junto!

Seus pensamentos foram interrompidos por mais dor alucinante, agora de seu corpo sendo arremessado escada abaixo, aos tropeções, aos chutes, com violência, precipitando-se ao andar de baixo.
Ao cair dolorosamente ao final da escadaria no hall, manchando toda a tapeçaria indiana com seu sangue que escorria pelas costas, pôde finalmente ver o seu algoz, um homem forte e alto de capuz que rindo o arrastava novamente e a cada tentativa em vão de se defender era ainda mais violentamente golpeado com socos e chutes, com pavor viu que seu algoz conhecia o caminho, possuía a chave do ateliê e sabia usar a porta-estante.
E assim, em meio ao desespero, dor e tentativas em vão de levantar-se e defender-se, Henrique fora arrastado por toda a sala de vídeo, levado pelo ateliê macabro, içado e suspenso como um porco no matadouro por uma corrente no teto, pendurado em agonia se debatendo, as pernas inutilmente tentando alcançar o chão, chorou e implorou misericórdia.
Viu que o algoz conhecia o controle remoto e sabia abrir o mecanismo das janelas, quando a luz da lua cheia adentrou o ambiente sinistramente cruel, banhou com sua claridade um homem cruel de meia idade, em pânico diante da morte cruel, olhando com pavor para um rapaz cruel de 20 anos, forte, alto, que tirava seu capuz para exibir na luz da lua um sorriso cativante, sedutor, amoroso, de um rosto com sobrancelhas grossas e sorridentes, cujos olhos eram da mesma cor do castanho claro, quase cor de mel, do mesmo tom dos olhos de Joaquim e do mesmo tom dos olhos em pânico de Henrique.
A voz do jovem sorrindo em tom suave e carinhoso atravessou o coração de Henrique como se fosse a pior e mais afiada das lâminas:
- Oras, oras, que felicidade vê-lo assim em tão boa saúde, nesta linda noite de lua cheia, oras, vamos, anime-se, não está feliz em me ver, hein? Querido papai!

...Continua

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Livro Blog 7 Parte3 " Luiza", continuação de " A bruxa, parte 2" que é continuação do " Menino do bosque parte1"

                                          Livro 7, parte 3
                                                   Luiza

Parte 3 do Conto I

O quarto era todo um sonho de conto de fadas, com nuvens azuis em paredes lilás, o berço em estilo Provençal quase um desaforo de tão lindo, ao mesmo tempo um absurdo que exibia sem nenhuma vergonha e pura ostentação o seu poder aquisitivo, os móveis para os utensílios do bebê combinavam com o azul e lilás das paredes e nuvens, criando um jogo de cores que ao mesmo tempo era alegre e doce, jovial e sutil de uma escala do azul Royal ao azul Bebê que ornava completamente com os tons de lilás que intercalavam as estruturas das gavetas, portas de armários e detalhes de decoração que só os móveis mais caros do melhor bom gosto conseguem oferecer, o tapete fofo e redondo de bolinhas azuis e brancas convidava a experimenta-lo descalça. Enquanto andava apertando os dedos dos pés afundando-os até não poder vê-los mais, observava que seus pés já estavam gorduchos e estranhos, muito inchados demonstrando que o parto estava próximo, pensava com certa tristeza que mesmo sendo uma atitude "fofa" o Henrique não deveria ter comprado os móveis e mandado decorar o quarto do bebê sem antes falar com ela, pedir sua opinião, tê-la levado junto para escolher, isso a estava deixando de mau humor, mas não queria que ele percebesse, afinal, do que ela poderia reclamar? Qualquer coisa que dissesse seria injusto visto tamanha disposição e alegria do marido desde que soubera que ela estava grávida. E ele era puro carinho, atenção e dedicação para com ela, provavelmente não fizera isso para magoá-la, deixando-a de fora na escolha da decoração do quarto do filho, talvez estivesse preocupado com ela, para poupá-la.


-Henrique é um amor, um amor, que marido maravilhoso, eu deveria estar grata- disse rodopiando no tapete abraçada à um enorme urso de pelúcia da cor das nuvens da parede.


Luiza foi trazida de volta da lembrança bucólica antes de se sentir infeliz e culpada mais uma vez e antes de tentar outra bobagem ao ouvir os gritos de Frida na porta.



-Bruxa, me salvando mais uma vez…que saco! -disse lamentando-se -Já vou mulheeeer- gritou sem hesitar dessa vez, não queria mais presenciar a amiga que era sua vizinha pondo a porta abaixo, e Frida faria isso de novo se acreditasse ser preciso -sossega amiga, tô viva! " Ainda" -sussurrou - mas esta última palavra Frida não pôde ouvir.



Enquanto se arrastava do sofá da sala até a porta sem que a insistente amiga por um único segundo parasse de tocar a campainha e bater a porta ao mesmo tempo -Diabos, que louca, como ela faz isso? -pensou- Luiza olhava a volta sem acreditar que aquele apartamento um dia havia sido seu sonho de felicidade para viver com seu filho, não era nem um pouco parecido com a mansão de onde fugira com Joaquim, mas era seu apartamento que comprara com seu dinheiro, que decorara com seu sacrifício, com o suor de seu trabalho.


Parou antes de abrir a porta e agachou-se junto às pernas da mesa console no pequeno, empoeirado e bagunçado hall de entrada que um dia havia sido um local do qual se orgulhara pela decoração feita por suas próprias mãos cheias de criatividade no estilo Art Noveau, verificou ali próximo ao chão do lado de dentro da perna da mesa uma sequência de desenhos feitos com caneta permanente, que iam da base das pernas do console do lado interno até sua base inteira por dentro.


Ficou imaginando com a dor de um punhal atravessado em seu peito, o filho ali, pequenininho, rabiscando o móvel por baixo dele, narrando em sua linguagem tão sincera os pedidos de socorro que ela não descobriu a tempo.

Como estes desenhos ela não tinha visto antes?

Quantos anos a separavam de seu filho? Seis, sete anos? Ele tinha 5 anos e meio quando o levaram, não o vira mais desde então e há dois anos ela, Frida e a Jaqueline do 301 haviam revirado aquele apartamento incansavelmente em busca de provas - De que adiantava- pensou.

Não importava quantas provas encontrasse, tudo era usado contra ela, estava tão exausta, tão desacreditada, quando foi que de uma design bem sucedida ela havia se tornado uma louca, igual a Jaqueline do 301? Aquela para quem todos os vizinhos viravam a cara, de quem todos cochichavam no condomínio, com quem ninguém conversava e nunca chamava para as festinhas de aniversário, afinal Jaqueline não tinha a guarda da filha...
e que tipo de mulheres perdem a guarda dos filhos não é mesmo?

As putas, as loucas, as viciadas…nunca as de bem, nunca as virtuosas, não as de classe media, não ela…não ela…mas agora ela era uma Jaqueline do 301 também…

Abriu a porta sem sentir que fazia isso, sequer olhou para Frida, apenas abriu a porta para em seguida voltar ao sofá que mais parecia um furdunço de cobertas, lenços, rolos de papel higiênico, pelos de um gato que naquele momento ela lembrara que há dias não alimentava

- Céus o Asdrubal, cadê o gato?- havia perdido ele também? Que lixo de mulher ela havia se tornado! 

Antes que gritasse chamando pelo gato, Frida a segurou pelo braço fazendo-a sentar-se perto dela, onde era possível sentar em meio ao apocalipse do sofá de onde Luiza só se levantava se arrastando para ir ao banheiro.

-Senta ae mulher, se aquieta, teu gato tá na minha casa faz dias, tu nem percebeu! O desgranhido morrendo de fome, as bosta dele naquela caixa de areia que tu não troca há quanto tempo? Toma vergonha mulher! Toma vergonha!


Antes que pudesse xingar e expulsar Frida como já tinha feito outras vezes, ou cair num choro que não acabava nunca, tomou um peteleco estralado na orelha, Frida estava brava, "putassa" como ela dizia com aquele sotaque carregado, meio paulista, meio nordestino, do jeito de quem veio do norte mas passou a vida na capital paulista. 


Daquela vez, Frida estava mesmo muito " putassa"

-Olhe aqui criatura, mas olhe bem aqui no meio de meus olhos e veja se hoje eu tô com peninha de tu? Tô? Tô não! Não né, nada, nadica de nada, tô é com ódio dessa sua plasmacera, tô putassa hoje Luiza, putassa! E nem comece com seu discurso de vítima que eu tô é cheia! Tô cheia!


-Mas Frida, olha o que me aconteceu, eu…

-Cale-se, banhe-se, troque-se e ande, que eu vou junto porque não quero saber de mulher criada fazendo besteira não, ande! Luiza ande! E se apresse que enquanto tu tá aqui na bebedeira e tentando se matar o teu moleque precisa de tu! De todas nós! Vá!

Não adiantava nem tentar qualquer diálogo, quando Frida vinha assim cheia de loucura e esperança era melhor Luiza segui-la e obedecer, pois entendia e sabia que estava sendo salva, mesmo contrariada, mesmo desejando morrer, sabia que não podia, precisava viver por Joaquim e quando desistia sua amiga vinha em seu socorro. 

Muitas vezes era ingrata e grosseira com Frida e se envergonhava por isso, um dia saberia como retribuir, mas não agora, agora estava lutando para se manter em pé. 

Já havia se passado o período em que ela estava cheia de determinação e fé, buscando os melhores advogados, os mais caros, os mais famosos, pagava sem titubear, 20mil, 30mil, 50mil reais para cada um deles, endividando-se , vendendo tudo que tinha, mas sempre cheia de esperança e determinação a cada ação, a cada contestação, a cada audiência…e voltava querendo morrer ao final de cada uma delas.

Havia tentado o suicídio três vezes já. 

A primeira vez quando soube que mesmo em meio a uma lide de guarda de menor o juiz autorizara a saída de Joaquim com o genitor pro Canadá. 

A segunda quando encontrou os desenhos do " segredinho do papai". 

A terceira foi recente, depois daquela reunião do inferno com aquelas outras mães desesperadas da rede de proteção no prédio do Ministério Publico onde fora chamada a participar por convite de uma ativista na causa pela proteção à infância e Frida a acompanhara a seu pedido.

Mas Luiza se amaldiçoava por ter aceito o convite, não dormia, não comia, não se banhava, não existia mais, era a morte em vida e só queria se matar desde aquela reunião onde tantas mães, todas sem a guarda dos filhos, estavam em desespero por descobrirem imagens dos próprios filhos em sites de pedofilia na deep web, sem qualquer solução para os casos, sem sequer uma ação de Polícia Federal específica para aquilo porque tudo corria em segredo de justiça, tudo acontecia com todo cuidado, de forma sigilosa com investigações que não revelavam nenhum detalhe ou pista do paradeiro das crianças, e elas , as mães das vítimas nunca poderiam saber quem eram os policiais investigando o caso, nunca poderiam conhecê-los ou falar com eles e nunca poderiam publicar nem mencionar nada a respeito... 

E quando Luiza em determinado momento, viu a imagem de um menino tão parecido com seu filho, porém mais velho, de costas sob uma luz de lua cheia que criava um ambiente escuro o suficiente para a criança não ser reconhecida mas claro o bastante para se entender o que acontecia, o estupro de uma criança de 9 anos aproximadamente, inerte, sem reação nenhuma, como se estivesse morta, sendo violada por um homem de máscara, com o corpo tão parecido com de seu ex marido, Luiza ao ver e compreender a extrema semelhança do corpo do homem adulto com seu ex marido e a idade aproximada que tinha seu filho então com a vítima no vídeo, entrou em crise de pânico que se seguiu a um surto psicótico e precisou ser levada às pressas ao hospital. Para que a imobilizassem foi necessário a força bruta de três policiais até que a ambulância viesse e a levasse sedada, Luiza estava enfurecida, fora de si, gritava e puxava os próprios cabelos, rasgava a pele de seu rosto com suas unhas, empurrou, mordeu e agrediu com socos violentos quem a tentava impedir de ferir-se, seguiu em seu desespero que era o desespero de uma mãe que descobria a tortura e abuso de seu filho sem nada poder fazer para salvá-lo quebrando os computadores da sala, jogando cadeiras contra a parede, agredindo pessoas que queriam protegê-la e naquele momento só poderiam fazer a única coisa que lhes restara, chorarem juntas com Luiza, por Luiza, por todas elas e por todas aquelas crianças entregues aos genitores abusadores, graças a uma maldita lei, existente só num maldito país, inspirada num maldito psiquiatra, apoiada e mantida por malditos políticos!

Era melhor mesmo se matar, pensava nisso o tempo todo, depois deveria tentar se matar de novo, talvez tentasse ainda, se tivesse cortado os pulsos mais fundo daquela vez e se tivesse …

-Luiza mulher! - foi trazida de volta de seus pensamentos de morte com a Frida segurando seu rosto, a testa grudada na dela, banhada em lágrimas Frida chorava, ainda brava , chorava dolorosamente e era a primeira vez que Luiza a via assim, chorando aos prantos, ficou imóvel ouvindo a amiga


- Luiza pelo amor de Deus, eu sei o que tu teve de ver lá, o que tu deve ter sofrido, o quanto isso te destruiu! Eu vi também Luiza, eu vi, eu fui com tu! Eu não tenho filhos mulé e acho que depois do que vi nunca vou querer ter! Mas eu tenho mãe e sei o amor da véia por mim! Eu sei como era difícil no norte pra ela criar os filhos tudo sozinha e sei o quanto ela alertava a gente pra nunca confiar em homi nenhum na vida, mas agora mais do que nunca sei do que ela falava e sei do que tu deve sentir ai dentro, que deve ser pior que a morte, mas eu te imploro Luiza, pelo menino, pelo teu filho, aguenta Luiza, aguenta! Aguenta viva Luiza pra salvar o Joaquim!

As duas mulheres se abraçaram e choraram juntas, um choro só, uma dor imensa, daquela que trazia em seu peito a sororidade e a vontade de ajudar e daquela que trazia a culpa, a vergonha e o medo de nunca reencontrar o filho com o pavor de este filho crescer igual o genitor: Um pedófilo Um monstro Um demônio Mas não havia tempo para chorar, se o fizessem o fariam no caminho, ou na manifestação.

-Desculpe Frida, eu te coloquei nisso, não devia ter batido na tua porta aquele dia! 

-Ah cale essa boca e tire essa blusa ridícula, olha, coloca essa aqui, é melhorzinha essa aqui ó, eita que tu parece um zumbi, vai se lavar! Lava essa cara e põe desodorante, anda! Mas é banho de xexelenta que não dá tempo de se enfiar em chuveiro não, se lava no corre, filha é na pia mesmo, anda! - Frida gritava as ordens enquanto revirava as gavetas em busca de roupa limpa para Luiza. 

A pressa de Frida não era sem motivo, precisavam correr, em questão de 40 minutos iria se iniciar uma manifestação popular em frente ao Fórum João Mendes no centro de SP, local onde a causa da guarda do filho de Luiza havia sido vencida de forma estranha em favor do pai, a manifestação havia sido anunciada nas redes sociais por ativistas de grupos de combate à violência contra a Mulher, crimes de pedofilia e o mau uso da lei de alienação parental para a defesa de pais pedófilos diante do grande número de denúncias recentes de mulheres que haviam perdido a guarda de seus filhos após denunciaram pais abusadores, tratava-se de uma epidemia, por todo o Brasil, desde a sanção da lei de alienação parental no país, lei que aparentemente deveria proteger as crianças de pais abusivos, mas que era usada para inversão de guarda de menores quando uma denuncia de abuso era feita contra o genitor, e pasmem, era eficaz em favor do abusador.

Luiza sequer fazia parte destes grupos, nem havia tomado conhecimento destes casos, não desconfiava de abuso na época da lide processual pela guarda de Joaquim, mas a lei havia sido usada contra ela para o genitor conseguir o visto internacional, então ela entrara para as estatísticas das centenas de mulheres da cidade de São Paulo vítimas da lei, soube com perplexidade que por todo o Brasil existiam mais de mil mulheres vivendo aquele pesadelo do qual ela contrariada fazia parte. 

Então mesmo que não quisesse sua vida havia se transformado num ir e vir destas manifestações, reuniões, assembleias, ações, notas de repúdio, entrevistas e desespero porque sentia-se morta por dentro e a cada dia mais com menos esperança de reaver a guarda de seu filho.

Saíram aos tropeços as duas, na mais absurda correria, "pega chave do carro", de Frida, porque Luiza já havia vendido o seu para pagar dívida de advogados, "põe o gato pra dentro", da porta de Frida porque o apartamento de Luiza parecia um pardieiro, tão diferente da casa que brilhava de limpeza e arrumação de antes, com móveis e decoração impecável, muitas delas criadas pela própria Luiza, cujo emprego também não tinha mais, cuja profissão estava arruinada! 

Quem iria querer empregá-la depois do que as psicólogas do fórum escreveram nos laudos?

Uma louca! Bipolar! Agressora de filho! Perigosa! Vingativa! Suicida!

Após perder o emprego, acabar com a poupança, vender suas jóias e seu carro, vendeu também o apartamento, felizmente e afortunadamente para a própria mãe, que assim o fez para que a filha tivesse como pagar a indenização do advogado que processava Luiza por calúnia, depois de ter perdido uma ação contra este advogado que Luiza tinha certeza, havia se corrompido e colaborado passando informações do processo para seu ex que sempre dizia sem nenhum medo ou pudor que poderia comprar quem ele bem quisesse com o dinheiro que possuía. 

Então, empobrecida estava vivendo sustentada pela mãe que lhe enviava mensalmente uma mesada…Luiza sentia vergonha e mais vontade ainda de se matar. 

O que ainda não vendera? Só seu corpo que não e provavelmente porque ninguém pediu por isso, senão o teria feito porque uma mãe desesperada teria feito qualquer coisa para resgatar o filho das mãos de um monstro, qualquer coisa, inclusive matá-lo.

Matar Henrique era tudo que Luiza queria, pensou nisso durante todo o percurso, Frida ia cortando caminho, evitando o trânsito insuportável da Francisco Morato, fazia isso percorrendo o bairro do Morumbi, Luiza odiava passar por ali, odiava, o bairro repleto de mansões e casarões onde por três odiosos anos vivera até conseguir fugir naquela noite, a noite do terror! 

-Vamos ficar calmas, me perdoa ter que cortar caminho por aqui, mas calma, vai dar tempo -disse Frida enquanto escolhia uma música para relaxar, e isso significava Samba, Elza Soares e Batuque de roda, nada de música de " chororô de sertanojo" dizia Frida, e eram apenas nestes breves momentos que Luiza ria, um riso meio amargo e desencontrado que logo a levava de volta aos pensamentos e recordações, terríveis recordações.

Luiza achava estranho e eles acabavam sempre brigando porque o marido na maior parte do tempo era ausente, ausente não na casa, ausente na cama, não mostrava interesse sexual nela desde o nascimento de Joaquim. 

Antes era quase um pervertido ela achava, sempre disposto, sempre procurando por ela. 

Irritava muito também que nas poucas vezes que a procurava insistisse tanto no sexo anal, que ela odiava.

Odiava por muitos motivos, Henrique a machucava, não a lubrificava e numa espécie de "tara sádica" queria sempre esconder o rosto dela " não vira pra mim, não vira, não fala, não fala, fica em silencio, não quero ouvir sua voz, mas chorar baixinho igual um bebê você pode meu amor" 

Luiza odiava isso, lhe tirava qualquer tesão, queria sair de baixo dele, interrompia o coito, saía brava e ele ficava furioso. 

Começaram a brigar por causa disso e por outras coisas também. 

Luiza começava a achar que não era penas um amor excessivo de pai extravagante que o impelia a comprar coisas para Joaquim como fizera quando estava grávida, quando ele decorou todo o quarto do bebê sem sua participação, o que a havia magoado muito, mas ele também fazia planos de cinemas, parques, lanches, festinhas com o filho sem a presença dela, SEM A PRESENÇA DELA, passou a acreditar que ele fazia estas coisas para magoá-la de proposito, era ignorada dentro de sua própria casa por seu marido e por seu filho que começava a repetir os gestos grosseiros do pai.

Uma vez Henrique disse na mesa de jantar: 

-Filho, sua mãe é uma bruxa sabia? Agora ela inventou de ir em centro de feitiçaria, garanto como colocou veneno na nossa comida! Vamos cuspir, ecaaa , deve ter macumba nessa comida! 

-Que é isso Henrique, não diga uma coisa dessas pro menino!

-O que você vai fazer lá? Heinh? Perguntar o que pra quem? Vai fazer perguntinha pra santo? Estas coisas são demônios!


-Quem não deve não teme, se você não tem nada pra me esconder, nada será revelado. 


-Não quero que vá, está proibida, não me desobedeça ou vai se ver comigo!

Era o fim da picada, o que este homem arrogante estava pensando? Primeiro era o trabalho, ele queria que ela ficasse em casa, mas em casa o tempo todo, porque nas atividades familiares de recreação e lazer era excluída, depois eram as amigas, implicava com todas, nenhuma prestava, nenhuma era digna o suficiente, nenhuma era de família nobre o bastante, nenhuma era de sua " classe" , depois a religião, quando se conheceram e namoraram ele sabia que ela gostava de ir na Umbanda, que ela se sentia bem nessa fé e ele havia concordado, mesmo sendo evangélico fervoroso o que ela sabia também, mas não via problema nisso, pelo contrário, achava digno um homem ser cristão. 

Ah, se tivesse ouvido sua mãe! E como sua mãe a alertou sobre isso, sobre provavelmente a vida dela virar um inferno depois de casada, que seria muito improvável que ele lhe desse liberdade para trabalhar e ter uma religião diferente da dele. 

Henrique odiava a mãe de Luiza e das poucas vezes que estiveram juntos, eles brigaram.

Henrique havia sido categórico:


-Na minha casa tua mãe não entra, se quer conviver com ela se separe de mim, eu odeio a sua mãe, ela é uma megera insuportável!


Luiza lembrava-se do sofrimento que isso lhe causara e como o afastamento dela e de sua mãe a havia deixado mais frágil nas mãos do crápula e imaginou se a avó pudesse ter convivido com o neto se poderia de alguma forma a ter alertado sobre, mas também pensou que era tão estupidamente apaixonada pelo marido que talvez, nunca tivesse acreditado em suspeitas da mãe e que talvez, teriam brigado. 


-Mãe me perdoe, você implica com tudo que Henrique diz e faz, a gente acaba brigando por sua causa, vamos nos ver só no final do ano está bem? 

Havia partido o coração de sua mãe, lembrava com dor da voz da mãe chorando do outro lado da linha " desculpa filha, eu só quero o seu bem, fica bem tá? E se precisar de mim, de alguma coisa, me fala, se cuida, te amo filha"

Afastou-se tanto que nem ligava mais e não atendia quando a mãe ligava, depois disso apenas uma visita, quando Joaquim estava com dois anos que fora feita na cidade de Balneário Camboriú em Santa Catarina, onde sua mãe morava. 


Mas ela precisava se dedicar a este casamento.

Afinal Henrique era tão amoroso no período do namoro, não entendia como de repente ele poderia ter se transformado em alguém completamente diferente, grosseiro, debochado, estúpido com ela, não era mais aquele homem maravilhoso por quem ela se apaixonara, apesar de que ela reconhecia, havia sido rápido demais, estranhamente rápido demais, enquanto suas amigas reclamavam de relacionamentos que se arrastavam por anos, Henrique se declarou logo que a conheceu, namoraram dois meses apenas e ele e a pediu em casamento em seguida. 

Luiza pensou que se tratava de excentricidade de gente rica e ele se mostrava sempre tão perdidamente apaixonado por ela e isso a deixava encantada! 

Henrique era pura ostentação. 

Sempre o melhor carro, o melhor relógio, as melhores roupas, os melhores e novíssimos calçados. 

A casa um deslumbre no coração das mansões do Morumbi, cercada por câmeras e por seguranças. 

A empresa, uma multinacional da família, herança dele que era filho único, ia de vento em polpa, fazendo muitos negócios com EUA e Canadá. 

Desde que a conhecera a cobria de presentes, jóias, surpresas românticas, jantares inesquecíveis em iates, viagens maravilhosas para Dubai em hotéis de luxo. 

Um dia ao sair do trabalho quase teve um desmaio, Henrique a esperava numa limousine, um tapete vermelho fora estendido até a porta do trabalho, uma empresa de design de utensílios onde Luiza aos poucos ia galgando as escadas do reconhecimento, mas ia bem e com as próprias pernas, aos seus quase 30 anos se orgulhava de já ter quitado sua dívida na faculdade sem a ajuda de sua mãe, comprado seu carro semi novo e de ter pago todas as prestações do pequeno apartamento na região de Vila Sônia, próxima à Francisco Morato em SP e se orgulhava disso, mas a visão daquele homem lindo, alto, elegante, esbanjando saúde e masculinidade em seus plenos 38 anos, solteiro, sedutor, com aquele sorriso de fazer qualquer mulher cair desmaiada, rico até onde ela poderia supor, um magnata, ali esperando-a numa limousine, com tapete vermelho e buquê de flores a fez querer abandonar tudo e todos e ser a princesa encantada do príncipe maravilhoso.

Só não poderia prever que o príncipe na verdade era um sapo dos piores.

Dos cruéis

-Você colocou macumba nessa comida! Te proíbo de voltar naquele lugar, eu sei onde você foi, eu sei tudo que você faz e sei que você levou meu filho junto, bruxa! Isso é comida de terreiro! Você virou uma bruxa detestável, tem veneno aqui, isso é comida envenenada! 

Luiza levantou ofendida, com nó na garganta, quase chorando com as ofensas.

Eram tantas sempre! 

Pensou apenas em retirar-se da sala de jantar, sabia que levar o filho com ela seria inútil e desencadearia mais discussões, então que ficassem os dois ali jantando sem ela, se amavam mesmo, ela estava sobrando e estava magoada, havia passado a tarde toda cuidando dos detalhes da janta que Henrique do trabalho havia mandado o recado, queria uma janta diferente e saborosa, se dizia entendiado do mesmo tipo de comida que ela fazia e queria um jantar bem elaborado, Luiza se odiava por estar aceitando ordens de um marido que mudara tanto a ponto de tratá-la como a uma criada, uma empregada, pior, uma escrava, estava ofendida pela acusação de feitiçaria, ofendida e magoada pela humilhação daquela noite e de tantas outras situações, de abandono, de descaso, de deboches, diários! 

Todo dia, desde que Joaquim era recém nascido, desde que Henrique se transformara num monstro. 

-Henrique não vou discutir na frente do Joaquim, você tem me magoado dia após dia, está insuportável! Eu não sei o que deu em você mas… 

Não pôde terminar.

Henrique engasgava e apertava a própria garganta, os olhos esbugalhados, babando em direção ao filho:

-Socorro Joaquim, sua mãe colocou veneno na comida, socorro filho! Ela quer me matar! Ela é uma bruxa! 

Joaquim começou a gritar histericamente, em pânico, ela tentava acalmar o filho, segurando-o no colo e se afastando do marido que parecia um diabo se arrastando e fazendo garras, imitando as entidades que segundo ele incorporavam nas pessoas na igreja quando o pastor ordenava que saíssem dos seus corpos, ela que nunca acreditou nesse tipo de coisa e achava que se tratava de atores fingindo para causar comoção nos fiéis, via incrédula bem ali na sua frente a pior das cenas de horror de um ator de quinta categoria, mas este infeliz era seu marido, fazendo esta cena de horror na frente da criança que pequena chorava aos prantos, em desespero.

E vendo o filho em desespero, se desesperou também e também começou a gritar, furiosa:

-Que inferno Henrique porque esta fazendo isso? Maldito! Tá engasgando? Então morre de verdade seu ridículo, morre logo! Quero que você morra seu maldito! Morre logo! Morre seu desgraçado! 

Correu para o quarto e trancou a porta por dentro. 
Do lado de fora ele continuava, aos berros:

-Socorro filho, socorro, estou envenenado , socorro!

Joaquim chorava em pânico e tentava se desvincilhar do colo da mãe aos gritos : -Papai, papai, papai! 

Luiza gritava de volta, envolta sem saber na cena de horror propositalmente criada pelo mestre do circo dos horrores que a arrastava para dentro de um pesadelo, mas ela iria sair, jurou pra sim mesmo que faria isso naquela noite mesmo e com Joaquim, não sairia daquela casa sem o filho, não mesmo!

Muitas discussões entre ela e o marido já haviam ocorrido antes daquela noite, muitos pedidos de separação, muito choro, ameaças e muita humilhação. 

Ele dizia depois de xingá-la de vagabunda, puta miserável e bruxa macumbeira: 

"Quer ir? Vai embora! Vai, pode ir, mas como entrou, uma mão na frente e outra atrás, não vai levar nem as roupas que te dei, antes você usava trapos! " 
"Ah, tá chorando sua nojenta? Vai pra casinha da mamãe vai, pode ir, vai agora, mas o Joaquim fica, você sabe que com meu dinheiro eu compro o juiz que bem entender! "
"Vai sair? vai cair fora? Vai viver de quê? De desenhinho de porcariazinha de lixo de bugiganga de lojinha de 1,99? Você não é nada, é uma bosta de mulher!"
"Quer se separar? Vai logo, pode ir, vai logo, você nem mulher é, cheia de coisa, não tenho nenhum tesão em transar com você, só tenho sexo bom fora de casa mesmo, pode ir!"

E uma sequencia de humilhações terríveis, desmerecendo-a como mulher, como mãe, como profissional, dia após dia, haviam lhe minado as forças, a paciência e a lucidez. 

Não era mais a linda mulher de quando o conhecera, estava amarga, sofrida, havia emagrecido tanto que não conseguia nem se reconhecer, os cabelos antes sempre longos e bem cuidados haviam caído aos montes, de tanto estresse e precisou cortá-los bem curtinho, tentava esconder os cabelos brancos que surgiam diariamente com tinta preta e então desistira de manter os cabelos sedosos e com as luzes que antes a deixavam tão jovial, estava definhando há 3 anos e meio naquele casamento que só havia lhe feito feliz até a gravidez, até o nascimento de Joaquim, na volta da maternidade Henrique já havia se transformado, ou se revelado, e somente agora, anos depois ela entendia porque  ele não precisava mais fingir, o predador já havia conseguido seu objetivo, uma parideira da qual ele queria se livrar para ficar a sós com a criança. 

Não a criança dela! 

Mas Luiza se culpava por não ter percebido nada a tempo, não havia ligado as situações onde Henrique levava o filho para tomar banho junto e eram sempre banhos tão demorados com o pequeno Joaquim, as longas idas ao quarto para levar mamadeira que ele fazia questão de levar, mesmo depois que ela já havia amamentado o filho, as viagens a sós que ele fazia questão de fazer com o filho para o sítio no interior nos feriados, e ela se sentia excluída e magoada, mas procurava dizer pra si mesma que Henrique apesar de mau marido, era um pai maravilho, afetuoso e apaixonado pelo filho. 

Sentia que mesmo que se separassem um dia, Henrique jamais abandonaria o filho e o amava mais que tudo, mais que ela, mas tudo bem porque ela também amava o filho mais que tudo, sentia um pouco de inveja com dor de ver que a criança a rejeitava sempre que o pai estava por perto e achava estranho que quando estavam a sós o pequeno Joaquim agia normalmente, procurando a mãe para ganhar colo, para ganhar abraços e beijos dela, mas só quando estavam a sós se comportava como uma criança normal, apesar de ser sempre muito arteiro. 

Luiza já tinha com desgosto percebido sem saber o porquê que o filho quebrava todos os brinquedos que ganhava, destruía os móveis e enfeites da casa de propósito e gritava enfurecido se chamado a atenção, não se lembrava exatamente quando, mas deveria ter sido por volta dos três anos, um pouco antes da encenação do envenenamento no jantar que ela havia recorrido às palmadas, foi a pior coisa que fizera, das palmadas foi pras chineladas e então a criança já a odiava, ainda mais quando o pai chegava a noite, então era um inferno, Joaquim se transformava e virava um pequeno "monstro" ao qual ela estava proibida de chamar a atenção, Luiza entrava em desespero porque Henrique permitia tudo e a desautorizava a educar o filho. 
Se a criança se pendurava na cortina, tudo bem ,se ela dava bronca Henrique brigava com ela na frente do filho, se Joaquim jogasse um vaso no chão, ela não podia chamar a atenção, senão Henrique gritava com ela e começavam a brigar, certa vez Joaquim abaixou as calças e fez xixi nela, Luiza estava vendo TV e só percebeu quando a criança já fazia e ria de pé na guarda do sofá, ela deu uns tapas na bunda do filho dizendo que ele não podia fazer isso, mas foi surpreendida pelo marido que de repente a empurrou com tanta força que a derrubou do sofá onde estava, arremessando-a ao chão com violência, Luiza ficou encolhida no chão, sem ar de tanta dor que sentia com o ombro deslocado, precisaram chamar a ambulância, tamanha a dor que sentia, no corpo e na alma, Henrique claro, mentiu que a esposa havia caído da escada.

Luiza naquele dia entendeu que era o fim mas ainda não se conformava com a realidade cruel.

E naquela noite com Henrique gritando feito um débil do lado de fora da porta do quarto, gritando como um louco que havia sido envenenado ela teve certeza. 

Precisava se separar, mas precisava fugir, ela e o filho corriam risco ali com aquele louco. 

Fugiria por ela e por seu filho que se crescesse ali com o pai, se tornaria como ele, um adulto mimado, mal educado e muito ruim, estranho e louco. Luiza só não sabia o quão louco e de que tipo de loucura cruel era o pai de seu filho acometido.

Uns chamam de doença, outros de crime hediondo.

-Chegamos, oi, ooooi Luiza! Jesus! Mulher vem pra terra! Por favor, fica firme! Nossa Senhora eu sabia que isso ia lotar hoje, mas não imaginava que seria assim, daqui já não dá mais pra seguir, vamos largar o carro em qualquer rua por aqui, olha tem várias emissoras, tão filmando tudo! Dessa vez finalmente as emissoras vieram Luiza! Te falei, hoje isso muda Luiza! Hoje tem que mudar! 
Frida comemorava empolgada enquanto tentava estacionar o carro, em meio a multidão que ia se formando em volta do prédio do Fórum em São Paulo. 

Luiza viu que a rua em torno do prédio estava tomada por mulheres, de todas as cores, de todas as idades, algumas de roxo, muitas com cartazes, os mesmos de sempre que Luiza já conhecia bem, sobre o fim à violência contra a Mulher, gritos de guerra, fim da lei de alienação parental, logos de Ongs de ativistas pela proteção de crianças e de mulheres, frases impactantes com devolvam nossos filhos e mulheres unidas contra a pedofilia, mas então viu um diferente, que ainda não tinha visto, da morte com uma foice cravada num demônio, o cartaz tremeluzia sobre uma garotinha de uns 13 anos no máximo que era erguida num carro de som onde uma faixa dizia " Liberdade pra Letícia, cadeia pra pedófilo" e neste carro de som, com todas aquelas mulheres em volta aos gritos de " Letícia Letícia eu te amo" , " Letícia matou o lobo mau!" e " Juiz que vende laudo é o assassino", estava uma garotinha de pé, do tamanho de uma criança de sua idade mas com a voz de uma gigante, de cabelos bem pretos e lisos, presos num rabo de cavalo com uma fita vermelha, vestida de jeans e camiseta com o mesmo desenho do cartaz , mas na camiseta vermelha cor de sangue a foice da morte cravada no demônio era ainda mais assustadora , a garota dizia num microfone, com a força de mil Bruxas:

-Meu pai me estuprou! Vocês queriam me devolver pra ele? Eu matei o desgraçado! Me prendam seus malditos!!!! Quem vai ser a próxima criança assassina? A Larissa? A Fernanda? O Murilo? O Joaquim?

Luiza sentiu o ar sumir, a vista escureceu, era demais para ela!

Continua...


segunda-feira, 8 de julho de 2019

Livro Blog 7
O livro das histórias cruéis
Parte 2 do conto I
A Bruxa

Parte 2 do conto I- continuação do Menino do Bosque

Aqueles olhos esbugalhados tomados pelo terror não se pareciam em nada com os sempre afetuosos olhos sorridentes dele.

Senti imenso prazer naquele momento.

Não aquele prazer de antes, onde dor, raiva, medo, vergonha, humilhação e culpa se misturavam causando imensa confusão no meu intelecto infantil em formação, não.
Era algo novo, diferente e assustador, ver meu algoz ali diante de meus olhos naquela situação me dava um prazer que vinha do poder.
Um tipo de poder que pela primeira vez eu experimentava e do qual eu jamais me separaria, poder de causar medo em quem tanto medo causou!

Mas aqueles olhos também continham uma súplica e preocupação.
Eu quase podia ler seu pensamento, o provável, não o real e por mais que eu gritasse em minha mente que não, que ele era um diabo e não estava preocupado comigo de verdade, a voz daquele desgraçado invadia minha mente de forma doce e suavemente afetuosa:

-Joaquim meu filho, você está sangrando meu amor? Você está bem? Doeu muito? Não, não, não! Não queria que machucasse não! Deixa o papai ver, me perdoa, como sou desajeitado Joaquim. Mas a culpa é daquela bruxa meu filho, ela deve estar mandando tanta energia ruim que a gente até se machucou, olha, tem sangue aqui no papai também! Aaaiaiai, machuquei mais do que você, viu? Você me ajuda? Vamos passar pomadinha e tudo vai ficar bem! Depois vamos naquela loja comprar todos os brinquedos que o Joaquim quiser!

-Todos papai? A loja toda?

-Todos, vamos mandar fechar a loja e comprar tudo que você escolher! Vem vamos enxugar estas lágrimas, você é muito mais bonito sorrindo!

Talvez eu fosse apenas um menino estúpido, ou uma criança bagunçada, cuja mente havia sido corroída pela tortura que aquele diabo plantava, dia após dia, durante meus primeiros anos com abusos que eu estupidamente amava porque nunca doíam, nunca sangravam e não havia motivo para ter medo ou vergonha porque papai me amava e eu o amava mais que tudo, meu único medo era que a bruxa soubesse, porque sabendo dizia papai, ela nos separaria porque era má e invejosa.

Mas ali naquele tempo de paz, a paz que desejávamos tanto e agora tínhamos bem longe da bruxa, ele havia se esquecido de algumas coisas e investido em outras, os carinhos depois de meu aniversário de 9 anos viraram um tipo de ginástica que eu odiava mas ele me garantira ser necessário para a saúde e que pai e filho deveriam praticar juntos, e eu acreditava em tudo, absolutamente tudo, cheio de um amor e adoração incondicional, e mesmo contrariado, obedecia tudo.

Mas talvez, estupidamente feliz em sua evolução cruel e minha obediência cega, ele também se esqueceu de algumas coisas, da porta aberta com o computador ligado, da tela do celular desbloqueada, da chave do ateliê em cima da mesa, do papel picado grande o suficiente para ser colado com durex e reconstituído por mim depois de tê-lo salvo do lixo, e além destas coisas que eu chamava de " quebra cabeça do diabo" ele havia se descuidado, me permitindo estar por algum tempo em outros lugares onde outras bruxas improváveis conseguiram me dar o que de mais precioso me fora dado até então, a revelação!

Revelação que me trouxe lucidez!
Lucidez e desespero!

A voz desesperada do diabo me trazia de volta

-Joaquim meu amor, você está sangrando.

-Vai passar pomadinha papai?
respondi com uma risada que não era minha, com um prazer que eu descobria, de vê-lo em total agonia.

-Que é isso Joaquim!? Por favor! Não diga estas coisas meu filho, meu Deus! Joaquim...
assim que disse isso tentou se levantar mas as mãos sangravam muito e um estilhaço da mesa que estava atravessado no joelho esquerdo o fez grunhir de dor e cair como um porco ferido de volta ao chão, batendo dessa vez o rosto sobre o vidro que ainda restava partido sobre a estrutura da mesa destruída, ferindo ainda mais o que já estava ferido e ganhando novos estilhaços na boca e no pescoço.

-Melhor não se mexer muito papai, nossa você está sangrando? Mas você sabe, não sabe? Pra não doer é só ficar bem quietinho, bem relaxado, olha só o que você fez, agora vamos ter que cuidar disso e tomar remedinho, mas não fique triste papai, eu vou passar pomadinha em você!
Ah! Já sei! Deve ser energia daquele bruxa má, não é mesmo?

Ele tentou se levantar de novo, antes que conseguisse o atingi com toda a força que havia em mim, num instante que não posso sequer imaginar como o fiz, peguei o prato de porcelana que ficava sobre a mesa e que mesmo com a queda estava intacto e arrebentei na cabeça daquele verme desgraçado.

Contemplei a cena cruel e prazerosa, do sangue dele jorrando pela testa aberta, o fragmento da porcelana cravado entre as sobrancelhas, era cruel também perceber que o mesmo talho entre as sobrancelhas dele era igual o que estava agora em minha testa, machucada recentemente pela batida contra o vidro da janela.

Mesmo desmaiado, me deu um baita trabalho para arrastá-lo, aos tropeços, caindo, derrubando tudo que eu via pelo caminho, os troféus, os vasos de porcelana chinesa, os porta retratos onde ele exibia minha infância dolorosa e cruel sob o manto mentiroso da felicidade e as cadeiras de madeira maciça que ele tão orgulhosamente havia mandado trazer do Brasil para decorar a sala de jantar no estilo Provençal, eu fiz questão de jogar tudo contra as janelas imensas daquela sala de terror, daquela casa de terror, naquele bosque do terror!

Em meio a barulheira que eu fazia ouvi sua voz trêmula balbuciando algo como " Joaquim meu filho, filho me perdoa, filho"

Foi o suficiente para uma energia demoníaca tomar conta de mim, e dei tantos chutes contra aquela cara de diabo bonzinho que minha perna ficou doendo por dias.

Então entendi, seria mais fácil torturá-lo se sua cara estivesse desfigurada, assim eu não precisaria suportar aqueles olhos afetuosos, suplicantes, cheios de amor, aquelas sobrancelhas risonhas e todos aqueles gestos cômicos de um pai amoroso mas atrapalhado, que estava sempre pronto a me dar colo, que estava sempre disposto a sentar no chão para jogar vídeo game, que descia o escorregador comigo e fazia todas as palhaçadas possíveis no parquinho para todas as crianças rirem até não aguentarem mais, que estava sempre cheio de saudade na volta do trabalho, que arrancava suspiros da minha professora quando me buscava no colégio " ah Joaquim que sorte você tem viu, todas as crianças queriam ter um pai assim igual o seu, bonitão e tão bonzinho" um pai que mesmo depois de ir morar longe por causa da bruxa, ia me buscar cedinho, pontualmente todos os sábados e passava os domingos entre abraços, pipoca, cinema, lanches deliciosos... e segredinhos.
E se um segredinho era estranho demais a ponto de uma criança pequena achar estranho, ele em seguida me dava abraços e me dizia com aqueles olhos marejados, afetuosos, suplicantes, cheios de devoção " Eu te amo meu filho, eu te amo, eu te amo Joaquim"

Como não amá-lo?

Como não ajudá-lo a se levantar?

Em meio ao sangue escorrendo pelos muitos machucados e visão turva pelo ferimento causado na testa, ele voltava a consciência e tentava se levantar.

Eu queria ajudá-lo, eu queria muito abraçá-lo e me senti um estúpido imbecil por isso.

Eu precisava da fúria de um demônio em mim, para conseguir forças para matá-lo, foi assim que busquei entre lágrimas , fechando meus olhos, a imagem do rosto da bruxa.

E ela veio instantaneamente, era como se estivesse ali, bem ali na minha frente.

A Bruxa, aos berros, sempre disposta a me dar muitos bofetões:

-Joaquiiiiiim!!!!!!!!!
o berro da bruxa entrava como uma navalha em meu cérebro, eu tentava me esconder de baixo da cama, chorando, aos gritos também:

-Socorro! Papai! Papai , papai, me salva!
meus gritos foram interrompidos por uma chinelada que de repente vinda por debaixo da cama acertava em cheio minha boca que ardia e sangrava.

-Moleque desgraçado, igualzinho aquele infeliz! Odeio você e seu maldito papai! Sabe onde está agora o seu papai querido agora? Viajando, curtindo a vida, montado no dinheiro, e eu aqui morrendo de tanto trabalhar! Mas a tua pensão ele paga? Em dia? Ah ele paga aquele maldito! Paga nem um terço do que deveria pagar porque ele tem dinheiro!
ela gritava, babando ódio enquanto me puxava de baixo da cama para agora me acertar em cheio, uma, duas, três chineladas, que doíam tanto que eu pensava sempre que iria morrer de tanto apanhar.

-Bruxa, bruxa má, quero que você morra, quero que você morra! Vai pro inferno bruxa!

Foi o suficiente para as chineladas virarem bofetões, no meio da cara, na boca, nas orelhas, eu me encolhia no chão enquanto os tapões me ensurdeciam.
Vi que ela foi puxada por alguém que depois reconheci ser nossa vizinha de porta, a Frida que mais uma vez impedia minha mãe de me matar de tanta porrada.

Fui me arrastando de volta para baixo da cama e engoli o choro para ouvir a conversa das duas bruxas, a ruim que meu pai tinha toda a razão em dizer que era o diabo, e a boa, que tinha nome de bruxa meu pai dizia, mas essa era boazinha, era legal e era muito bonita, de cabelos ondulados e um sorriso tão largo que eu achava que a boca dela encostava nas orelhas quando sorria e ela estava sempre sorrindo pra mim, diferente da minha mãe que estava sempre brava ou chorando, ou brava e chorando, ou brava, sempre muito brava comigo.

-Mulher que é isso, você está batendo demais nesse menino, o que você tem criatura? Ele é pequeno, tenha paciência mulher!
Espiando por baixo da cama vi que a Frida falava enquanto chacoalhava a bruxa má, bem feito-pensei-morre bruxa, morre, vai pro inferno!

Lembro da minha mãe desabando num choro que me encheu ainda mais de raiva, então ela me batia e ela chorava? E eu não podia nem chorar, nem xingar, nem brincar, nem chamar pelo meu pai que ela já me batia?

-Frida, o Joaquim está me deixando louca! Ele volta da casa do pai dele insuportável, põe defeito em tudo aqui em casa, não quer comer minha comida, cospe dentro do prato amiga, dentro do prato ele cospe fazendo força pra vomitar! Eu fico louca com isso, nunca que eu ia fazer uma desfeita dessa com minha mãe, nunca!

-Mas mulher, e ae tu bate nele? Desse jeito que eu vi já mais de uma vez isso? Assim nessa doidera? Nessa insanidade? Tu qué o que? Perder a guarda dele? Pára com isso criatura! Olha o que fizeram com a Jaqueline do 301, deixaram a mulher doida, surtada, igual tu tá agora, ae ela pareceu a doida varrida, a ruim da história e levaram a criança dela, presta atenção mulher! Presta atenção!

E eu fiquei ali, prestando atenção na conversa toda, igual meu pai havia me ensinado, pra sempre prestar atenção em todas as conversas da bruxa, mesmo quando a bruxa boa estivesse junto, pra prestar atenção em tudo e contar tudo para ele depois, sem elas perceberem, só assim papai poderia me levar pra bem longe daquela bruxa má, antes que ela conseguisse me levar pra longe dele pra sempre.

Entre assuntos que eu não compreendia muito bem, prestava atenção especial a viagem que a bruxa queria fazer de volta pra sua cidade onde morava minha avó, de quem eu nem me lembrava, sobre o que o advogado dela havia falado e sobre o emprego que ela queria nessa outra cidade que eu nem me lembro o nome, mas era algum lugar com sol e praia onde eu aparecia ainda bebê de colo com ela, meu pai e minha avó nas fotos que ficavam guardadas no armário.
Nada daquilo me interessava, eu só queria saber de morar com meu pai, ir com ele pra casa mágica da montanha que ele dizia ser especial porque os esquilos vinham na janela pegar os doces e que tinha tanto doce na casa mágica que já não tinha mais onde guardá-los e que se fossemos precisaríamos ir de avião, mas esse também era um de nossos segredinhos e eu sabia que só conseguiríamos ir se nosso plano secreto desse certo.

Nosso plano secreto consistia em deixar a bruxa má muito brava, tão brava que o juiz que era um homem bonzinho ia ficar com pena de mim e do papai e iria nos ajudar a ficarmos juntos, para sempre.

E eu cumpria a risca o nosso plano, até uma cerimônia fizemos, onde ele me empossou seu cavaleiro guerreiro, ganhei uma espada, uma capa e um escudo, muitos beijos, muitos doces, muitos brinquedos e meu pai repetia com todo cuidado e dedicação:

-Joaquim, meu amor, papai ama você mais que tudo nesse mundo, sua mãe infelizmente é uma bruxa muito, muito má.

-Papai eu não quero que ela seja tão má assim, às vezes ela é boazinha papai- ele rapidamente colocava o dedo indicador sobre meus lábios com a mão direita e com a esquerda repetia o gesto na boca dele me calando:

-Xiuuuuuuu!!!!! Você se esqueceu? As vezes as bruxas más fingem ser boazinhas pra nos enganar, mas você não pode esquecer que ela...- respirava sofridamente com os olhos afetuosos fechados, quase chorando- ...que foi ela Joaquim! Ela quem colocou veneno na comida do papai, lembra? Papai foi parar no hospital, quase morreu! E nós ouvimos aquele dia, lembra? Nós dois ouvimos quando ela disse, mas é que você meu amor era tão pequenininho!Ôh meu amor e por isso você não se lembra direito, mas nós dois juntos ouvimos lembra? Ela dizendo que ia matar nós dois ! Que logo logo iria colocar veneno na nossa comida, tanto veneno que nenhum hospital ia conseguir nos salvar dessa vez!

Eu chorava e abraçava meu pai que me enchia de beijos no rosto, ele me consolava dizendo que existem muitas mães que são bruxas e por isso os juízes bonzinhos estavam ajudado os papais a salvarem seus filhos, mas que as bruxas sabiam fingir muito bem e por isso, numa estrategia de guerreiros nós tínhamos que cumprir nosso plano:

Deixar a bruxa tão brava que ela não conseguiria mais fingir que era boazinha para nenhum juiz!

Eu era ótimo nisso.

Mijava no tapete da sala, passava o batom dela na privada, vomitava no prato em protesto porque ela colocava veneno na comida, chutava o gato, derramava todo o leite na pia, desenhava com o lápis de maquiagem dela na parede o desenho da bruxa mais feia que eu conseguia desenhar, quebrava os ovos e os deixava dentro da geladeira escorrendo nas prateleiras, tirava a terra do vaso e esparramava por toda a sacada do apartamento, falava pra ela ir pro inferno e não a chamava mais de mãe, era só bruxa, ou bruxa má.

Na escolinha não queria ir e chorava pelo caminho todo como meu pai me ensinou a fazer, chutava as pernas dela e corria pela rua, mas quando chegava no portão da escola eu abraçava a professora e pedia socorro, porque até chegar lá, havia levado vários tapões na orelha, então já estava naquela altura chorando de verdade.

Eu a estava enlouquecendo, mas ela merecia, porque ela era uma bruxa má.

Papai jamais mentiria pra mim, ela queria nos matar com veneno na comida. Eu precisava ajudar o meu pai .

Como ele sofria, era fácil pra mim lembrar de tudo porque ele me contava com todos os detalhes:

-Joaquim meu amor, você lembra? Aquela noite filho? Quando eu corria na chuva com você? Papai estava salvando você filho, te levei correndo na igreja porque aquela bruxa ia dar você pro diabo, lembra?

Eu lembrava de algo estranho e que não fazia sentido, de gritaria, de briga , da minha mãe me puxando pra ela e meu pai com outro homem que eu não me lembro quem era me carregando e correndo, eu lembro de estar feliz antes dele chegar, acho que estava cantando numa sala grande com várias crianças, estávamos rindo e comendo doces e minha mãe dançava numa roda com várias mulheres, todas de branco, a musica era alegre, de tambores e todas cantavam e batiam palmas, até serem interrompidas por minha mãe gritando e correndo em minha direção, tentando me puxar para ela, mas papai era mais forte e me levou, lembro do homem que estava com ele derrubando coisas, batendo em algumas mulheres que tentavam ajudar a minha mãe. Lembro de chorar muito e depois lembro da igreja, não lembro como chegamos lá porque eu chorava muito, lembro de chorar sem parar até chegar na igreja, mas parei quando todas aquelas pessoas me abraçaram dizendo " Aleluia, graças a Deus, louvado seja Deus", e abraçavam meu pai dizendo que ele era um herói e que tinha me salvado de bruxaria.

Minha mãe era mesmo uma bruxa, meu pai tentava me proteger.

Joaquim meu amor querido - a voz afetuosa invadia minha mente como um veludo, um algodão doce e as imagens ruins sumiam para novas se formar- você também deve se lembrar daquele dia no parquinho, você lembra? Que horror aquela bruxá má tentou matar você! Filho, você lembra? Ainda bem que eu consegui segurar você filho, que susto! Eu fiquei tão desesperado, ainda bem que papai correu e conseguiu te segurar, não é mesmo?

Lembro de estar correndo com meu pai, brincávamos de pega pega, lá pelas tantas ele subiu no trepa trepa, meu pai sempre brincava comigo, eu amava isso e as outras crianças sempre diziam que meu pai era mais legal que o delas porque o meu brincava comigo e o delas não e eu amava isso, ficava todo orgulhoso do meu pai brincalhão, o que aconteceu a seguir eu nunca consegui lembrar com exatidão, foi uma sequencia de xingamentos e gritaria quando minha chegou no parquinho, lembro dela aos berros dizendo que ele não tinha permissão, que ele não podia me pegar na escola, que ele era um monstro.

Um monstro, o papai? Ela sim, ela era uma bruxa!

-Bruxa, bruxa, vai pro inferno bruxa!

Depois disso tudo eram borrões, da imagem dela me puxando, eu caindo, hospital, dor, sono, exames, polícia.

Ela dizia que meu pai tinha me feito cair e ela havia me segurado para me proteger.

Meu pai dizia que ela era uma mentirosa e que ela me puxou para que eu caísse, mas que ele correu e me salvou a tempo impedindo que eu morresse, que apenas tinha batido a cabeça no ferro do trepa trepa, mas que se ele não tivesse me segurado teria sido muito, muito pior.

E tinha aquele senhor que varria a calçada, ele dizia pra policia que minha mãe tinha tentado me derrubar lá de cima.

E minha mãe tentava bater nele aos gritos chamando-o de mentiroso e dizia que meu pai tinha dado muito dinheiro pra ele mentir, que ele ia pagar caro por isso, que ela quem tinha me salvado, que eles eram malditos mentirosos.

E eu só queria dormir, dormir, eu estava tão cansado!

-Papai, papai, foi a bruxa? Ela quer nos matar mesmo?- mal consegui dizer antes de apagar.

Abri meus olhos, cansados de tanto chorar, tão cansados quanto aquele dia no parquinho, o dia que transformara todos os acontecimentos de forma avassaladora.

Ninguém mais duvidava que papai me protegia.

Mas mesmo assim ele me deixava bem alerta para o fato de que nosso segredinho especial, dos nossos carinhos especiais de pai e filho nunca poderiam ser revelados porque muitas bruxas tem inveja do amor de pais e filhos e eu não podia nunca contar pra ninguém, senão poderiam me devolver para a bruxa que queria nos matar.

Olhei para o diabo ali na minha frente, trêmulo, arrancando sofridamente o estilhaço do joelho, as pernas cabeludas que ele pedia para eu massagear estavam empapadas de sangue que escorria da ferida que deveria ter pelo menos uns 5 centímetros, o joelho parecia um bacon fatiado, aquelas malditas pernas que ele dizia serem acometidas por uma doença que só curava com massagem, mas a massagem ele dizia, só funcionava se fosse com o meu piupiu. Depois era a vez dele e ele fazia a mesma massagem, na minha perna, nas minhas costas, nas minhas nádegas, no meu rosto, no corpo todo, até sair o leite abençoado, como ele chamava, que era uma espécie de remédio que ele precisava produzir para sarar, mas era segredo, porque a bruxas da bruxaria onde minha mãe ia queriam acabar com aquele leite que era sagrado, que era de Deus, em seguida ele me contava uma história horrível de um menino que não respeitou os segredos especiais de pais e filhos e contou para alguém da igreja e este menino acordou sem os olhos, com a barriga cheia de bichos comendo ele de dentro pra fora e sua alma foi levada pra ser torturado no inferno.

-Joaquim, meu filho- parou de falar enquanto suspirava e enxugava o sangue que escorria pelo rosto impedindo-o de falar- nós dois estamos machucados, por favor, precisamos nos acalmar e fazer curativos.

Continuei olhando com desprezo para aquele infeliz e me sentia um completo estupido, o quanto eu conseguira até o momento? Arrastá-lo da sala de estar pra sala de jantar? Fazer um talho na minha cara e na dele também? Pra quê? Pra ficarmos ainda mais desgraçadamente parecidos? E aquela maldita casa era imensa, o quanto eu progredira arrastando-o por alguns metros? Como poderia levar aquele diabo até o ateliê? Que prepotência a minha acreditar que poderia com aquela criatura muito maior e muito mais forte do que eu! Desde quando eu estava acreditando ter algum poder? Desde que burlara a segurança da maldita casa do bosque e conseguira informações, navegar na internet, falar com as bruxas? Isso me fazia capaz de conseguir o que a bruxa deveria ter conseguido quando eu era pequeno? Matar aquele verme desgraçado?
Eu sequer estava próximo de completar 13 anos ainda!
Eu era apenas um pirralho!

Se minha mãe tinha algum poder de bruxa eu desejava naquele momento o ter também, desejava ser maior, mais velho, mais forte, desejava matá-lo devagar e dolorosamente.

Mas queria fazer isso no ateliê.

O maldito ateliê.

O lugar preferido dele.

O ateliê do diabo.

Lá no ateliê, lá nós iríamos acertar nossas contas.

Não sabia ainda como levá-lo até lá, à força seria impossível, na confiança com certeza não, esta havia sido quebrada com meu rompante de ódio, o que eu poderia dizer ou fazer para levá-lo até lá?

Eu precisava pensar rápido, antes que ele se recuperasse mais dos machucados.

E seria hoje, eu estava diabolicamente decidido porque sabia que esta noite seria de lua cheia.
A noite da luz enluarada, a luz perfeita.

Continua...